Monday, October 3, 2016

AH, O AMOR #44 (por Luiz Antonio Cancello)



— AAAAAAi!

— O que houve? Onde você está? Você está bem?

— No banheiro, seu porco! Imundo!

— Mas o que aconteceu? Espera que já vou.

— Fica no quarto, não sai daí!

— Não grita a essa hora da noite, porra, o prédio inteiro vai ouvir. Pode me explicar o que aconteceu?

— Você esqueceu de abaixar a tábua da privada, de novo!

— Tá bem, desculpe, mas por que esse escândalo?

— Eu vim fazer xixi meio sonada e sentei direto. Afundei, me molhei toda, cacete. Vou ter que tomar um banho.

— Molhou as partes?

— Molhei, seu cretino.

— Para de me xingar. O que você quer que eu faça? Vou até a porta do banheiro, pra gente conversar em voz normal. Baixa o volume.

— Não entra aqui. Isso tem que acabar. Tem que acabar.

— O que tem de acabar?

— Você precisa se lembrar de abaixar a tábua. Ou então se acostuma a fazer xixi sentado. Nunca mais quero passar por isso.

— O quê???

— Isso aí. O que é que tem? Vai ficar menos macho se fizer xixi sentado?

— É meio estranho. Se eu contar pros meus amigos estou perdido.

— Deixa de frescura. O meu irmão se acostumou. Depois que meus pais se separaram era o único homem em casa. Não teve escolha e não chiou.

— O meu cunhado faz xixi sentado?

— Não sei se ainda faz. Mas fazia, quando a gente morava junto. Para de rir, não tem graça nenhuma.

— Ah, deixa eu encontrar com ele.

— Não vai falar nada! Foi só um exemplo, será possível que você não entende? E ele nunca perdeu a macheza.

— Sei não.

— Não é hora pra piadinhas. Tem mais. E quando você se esquece de dar a descarga?

— Deve ter acontecido uma vez na vida.

— Só isso? E os pingos de xixi no chão? Hein?

— Isso não.

— Isso sim. Você nem se dá conta.

— O dia em que a gente tiver grana faço uma casa com banheiros separados.

— É o meu sonho.

— Mas e quando eu te agarro no banho? A gente vai perder essa.

— Compensa.

— Você diz isso agora por que está com raiva.

— Estou mesmo, não é pra menos. Dá um tempo.

— Fica calma. Vamos conversar direito.

— Por favor, vê se não faz isso de novo. É humilhante.

— Tá tomando banho? Estou ouvindo o barulho do chuveiro. Posso entrar?

— Pra quê?

— Pra te agarrar.

— Não entra aqui, seu idiota! Você é muito sem noção!

— Mas eu só queria fazer as pazes.


Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
ou pelo website
www.luizcancello.psc.com




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