Monday, October 10, 2016

AH, O AMOR #45 (por Luiz Antonio Cancello)



— Você por aqui?

— Pois é, que coincidência!

— Que está fazendo no meu pedaço?

— Estou morando aqui perto.

— Não diga! Desde quando?

— Mudamos há três dias.

— Você casou de novo, né?

— Casei. Você também tem alguém, eu soube.

— É, as notícias correm. Nada sério, por enquanto.

— A rádio peão é poderosa.

— E pensar que eu quis tanto te encontrar, um tempo atrás.

— Por que não ligou?

— Você trocou o número do celular quando a gente se separou, lembra? E me excluiu do face.

— Mas se você quisesse mesmo me encontrar teria conseguido. Sempre se dá um jeito. Tínhamos um monte de amigos em comum

— É verdade. Mas não sei como seria a sua reação. Você falaria comigo?

— Esse papo está ficando meio perigoso. Melhor parar.

— Também acho. E aqui, no meio das gôndolas, não é um bom lugar.

— Não vem com indiretas. Você falou das gôndolas pra lembrar dos nosso plano de viajar pra Veneza.

— É lógico. E você pulou fora na hora H. Não me esqueço. Mas já foi, passou.

— O que eu ia dizer em casa?

— Agora é difícil pensar. Viagem de trabalho, talvez.

— Ninguém ia acreditar. E vamos acabar com essa conversa. É uma tortura desnecessária.

— Encontrar você, mesmo depois de tanto tempo, é um pouco de tortura.

— É tenso. Também me perturba.

— Você vem fazer compras sempre a esta hora?

— Não, estou fora do meu horário. Nunca venho à noite.

— Eu sempre venho à noite.

— Eu venho à tarde, em geral trago o meu filho. Trabalho muito em casa, home office. Fico no computador de manhã e à noite.

— Eu tinha ouvido falar que você teve um filho.

— Tenho uma foto dele no celular. Quer ver?

— Não sei se quero. Quero, vai.

— Olha ele.

— É muito bonitinho.

— Você não pretende ter filhos?

— Pretendia. Já não sei mais.

— Para com indiretas. Vamos fazer nossas compras e acabar com isso.

— Tá certo. Ainda é muito difícil te ver.

— É complicado pra nós dois. Melhor manter os horários diferentes.

— Não garanto.

— Pensa bem. Vou fazer minhas compras, está ficando tarde. Não me queira mal.

— Jamais. Pra que lado você vai?

— Vou pra seção de legumes.

— Então vou pro lado do açougue.

— Agora você come carne?

— Pois é, a gente muda.

— Algumas coisas mudam, outras não.

— É verdade. Tchau.

— Tchau.


Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
ou pelo website
www.luizcancello.psc.com




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