Monday, October 24, 2016

AH, O AMOR #47 (por Luiz Antonio Cancello)



— Não sei se vou gostar desse doce. Tem outra sobremesa?

— Psiu! Não estamos em casa.

— Ué, pensei que a gente tinha liberdade aqui na casa dos seus pais.

— A gente tem, mas não abusa. Fica chato perguntar. E se não tiver outra coisa?

— Tem razão. Faz o seguinte: põe um pouco a mais no seu prato.

— Pra quê?

— Pra eu provar e ver se gosto.

— Não sou a fim disso. Me irrita um pouco. Vamos fazer de outro jeito.

— Como?

— Você pega um prato e põe só pouco de doce.

— E se eu não gostar?

— Depois de acabar o meu vejo se como o que sobrar do seu.

— Mas acho chato seus pais verem que eu não gostei.

— E não é chato ele verem eu dando comida do meu prato pra você?

— Sei lá. Eles ficam de olho na gente?

— Mais ou menos. Chato é eles verem a gente cochichar. Pega lá o doce.

— Vou ficar sem jeito, se não comer tudo.

— Então não experimenta, pronto, fica sem sobremesa.

— Muito egoísmo da sua parte. Põe bastante no seu prato e me dá um pouco. Você já fez isso diversas vezes.

— Eu sei, mas nunca achei legal. Me incomoda.

— E eu vou ficar sem sobremesa?

— Você nunca fez questão de sobremesa.

— É que hoje estou com vontade.

— Escuta bem, de uma vez por todas. Vou pegar pra mim e não vou dar uma amostra pra você.

— Caramba, tá chutando o pau da barraca.

— E faça o favor de não me pedir um pedaço, principalmente quando eu estiver no finzinho do prato. Odeio.

— Eu faço isso?

— Faz.

— Acho que você está inventando, mas tudo bem. Já entendi o recado.

— Vamos ficar quietos. Meu pai já está olhando pra cá.

— O que será que ele está pensando?

— Não faço ideia.

— Ele gosta de doce?

— Às vezes come, outras não.

— Algum dos seu pais dá um naco do prato pro outro experimentar?

— Nunca vi isso acontecer aqui em casa.

— Ah, deve ser essa falta de intimidade da sua família.

— Mas que falta de intimidade? Tá dizendo que a gente não tem intimidade?

— Presta bem atenção. Há uma certa cerimônia e falta de sentido comunitário. Por isso você não me deixou perguntar se tem outra sobremesa.

— Nada disso. Perguntar essas coisas é falta de educação. Muito simples.

— Vocês precisam deixar o formalismo de lado. Libertar-se.

— Que desespero, você agora cismou com isso e ninguém tira da sua cabeça. Você acha mesmo que nós somos formais?

— Tenta sair dessa, faz uma força.

— Como assim, sair dessa?

— Põe o doce no seu prato e me dá um pedacinho.


Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
ou pelo website
www.luizcancello.psc.com


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