Sunday, January 1, 2017

AH, O AMOR #53 (por Luiz Antonio Cancello)



— Me larga um pouco.

— Mas você não gosta de carinho?

— Gosto até certo ponto. Você gruda demais.

— Mas eu gosto de você.

— Também gosto de você, mas isso não é motivo pra gente ficar o tempo todo grudado.

— O tempo todo? Eu só tento de vez em quando, e olha aí o resultado.

— Você exagera. Nunca vi tanta carência.

— Quer dizer que sou carente só por que gosto de pegar em você?

— E não é?

— Não. Sou normal. Todo mundo gosta de carinho. Você é que é um gelo, uma geladeira. Com freezer.

— Na sua casa é a mesma coisa. Quando eu vou lá todo mundo quer me abraçar, me dar aqueles beijos melados.

— Só evite limpar a cara com a mão na frente deles, por favor. Vão ficar magoados.

— Vocês acham que gostar das pessoas é isso? Se esfregar o tempo todo?

— Não é só isso, mas é também. E na sua casa, como é? A gente vai lá e parece visita de cerimônia. Só dão aqueles cumprimentos formais.

— Somos educados. Fomos criados desse jeito.

— Não sei como vocês nasceram.

— Como assim?

— Seu pai deve pedir licença pra sua mãe, quando quer transar com ela.

— Que besteira! Você pede licença pra mim?

— Não. O estranho é que, quando a gente transa, você participa.

— Tudo tem sua hora. Ali na cama é outro momento.

— Mas tem dias que eu queria começar a transar na sala, ou no banheiro.

— Tudo bem. Mas avisa.

— Não é só chegar e dar uns agarros?

— Assim, sem avisar, eu não gosto. Me dá aflição. Preciso saber do que se trata.

— Você quer uma solicitação por escrito, lavrada em cartório?

— Não me enche. Com o tempo a gente vai se acertando.

— A gente tá junto faz tempo, e até agora isso é um problema.

— O que você quer? Que eu force a minha natureza?

— Você precisa se soltar mais. Tipo fazer expressão corporal, teatro, terapia reichiana, essas coisas.

— Ah, você gosta desse pessoal soltinho? Por que não vai você fazer essas coisas ridículas? Quem sabe encontra alguém do seu gosto.

— Meu bem, eu só gosto de você. Acho até que esse teu jeito me excita.

— Como assim?

— Esse teu jeito esquivo. É um desafio. Vou ficar tentando até a morte.

— Ai... você acha isso um bom projeto de vida?

— Não.

— Tem um plano B?


Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
ou pelo website
www.luizcancello.psc.com






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