Monday, January 16, 2017

COM VOCÊS, MAIS UM ELETRIZANTE EPISÓDIO (O 55°) DA SAGA CONJUGAL "AH, O AMOR"



— Amor, o pessoal da minha família vai fazer uma feijoada.

— Como assim, o pessoal vai fazer?

— Minha sobrinha convidou todo mundo pra participar. Vai ser nos meus pais.

— Todo mundo vai cozinhar? Mas não cabe essa gente toda na cozinha.

— Meu irmão e ela vão um dia antes, meu pai também ajuda. Tem de fazer umas carnes, arroz, farofa, essas coisas. Cada um faz um pouco. Vamos?

— Você sabe que eu sou uma negação pra esse negócio.

— Vai me dizer que não sabe picar couve, por exemplo?

— Nunca cortei. Posso causar um acidente.

— Que desculpa mais besta, essa. Vamos lá confraternizar.

— Mas começa a que horas?

— Vou ligar para minha mãe, mas deve começar cedo.

— Eu tenho umas coisas pra fazer. Se quiser, vai antes. Encontro vocês lá.

— Eita... tá tirando o corpo fora. Depois você aparece só pra comer.

— Chego um pouco antes, faço um auê qualquer. Deixa que eu me viro. A que horas deve começar o almoço?

— Fizeram um grupo no face. Tá escrito que é almojanta. Sei lá, acho que fica pronto mais ou menos às 3 da tarde.

— Você sabe que eu tenho fome a partir da uma. Se não como me dá tontura.

— Come uma banana e para de colocar problema nas coisas. Faz como você quiser.

— Não é assim. Se eu for antes, não faço as minhas coisas. Se eu chegar depois vai parecer descaso.

— Bem, eu não posso resolver isso. Você disse que se virava. Decide.

— Você podia me ajudar.

— Não, não. Tô fora dessa.

— Diz pro pessoal que eu estou me recuperando de ontem à noite.

— Recuperando de quê? Não fizemos nada, não bebemos, dormimos cedo.

— Inventa alguma coisa.

— Não. Isso nunca.

— Caracas, você não colabora mesmo! Está em jogo a minha imagem frente à sua família. Isso interessa a você, também. É sério.

— Depois de todos esses anos a minha família sabe exatamente quem você é. Nem se preocupe.

— E como é que eu sou?!

— Ah, pergunta pra eles. Ou compra um espelho.

— Pô, aposto que você sabe e não me conta.

— Não sei, mas imagino.

— Aí deve ser pior ainda.

— Tchau, meu amor. Aparece lá quando quiser.

— Vai me deixar no vazio?

— Já deixei. Fui.





Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
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www.luizcancello.psc.com







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