Sunday, January 8, 2017

E A SAGA CONJUGAL DE LUIZ ANTONIO CANCELLO CHEGA AO SEU 54° EPISÓDIO



— O que você tem?

— Por quê?

— Estou te achando com uma cara meio fechada.

— Não tenho nada.

— O seu rosto está todo contraído, tá com um sulco na testa, os lábios apertados.

— Você fica me filmando o tempo todo?

— O tempo todo não. Só quando você está assim.

— Me deixa em paz. Não é todo dia que a gente está de ótimo humor.

— Mas seu astral quase sempre é muito bom.

— Quase sempre. Tem dias que não está bom.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada de importante. Aborrecimentos pequenos, do dia a dia.

— Mas você não pode me contar?

— Para com isso, não vale a pena. É coisa passageira, daqui a pouco está tudo bem.

— Eu te fiz alguma coisa?

— Eu sabia. Era isso que você queria saber desde o começo, não era?

— E que mal tem? Quero saber se te fiz alguma coisa e não percebi.

— Não fez nada, desencana.

— Não mesmo?

— Não, já disse.

— Pode ser que eu tenha feito e você não quer me dizer. Pode dizer.

— Não é nada disso, para com essa mania de achar que tudo é com você.

— Muito estranho. Não fiz nada e você fica de cara feia pro meu lado. Ainda por cima não diz por que está assim.

— Você não fez nada pra me chatear, mas está começando a fazer.

— Mas se eu não te fiz nada até agora, não mereço esse tratamento ríspido.

— Ai, meu Deus, já expliquei tudo o que tinha pra explicar.

— Menos a razão dessa cara fechada.

— Eu tenho aborrecimentos no trabalho, às vezes tenho dor de cabeça, minha irmã me enche o saco com as confusões dela, descobri que o cachorro está com pulgas. O que mais você quer?

— Calma, calma. Eu só queria saber o que te aflige. Qual dessas coisas está te chateando mais?

— Está me chateando ficar aqui respondendo seu interrogatório e não resolver nada disso.

— E se você não estivesse aqui estaria resolvendo tudo isso?

— Não, claro que não. Mas estaria com mais sossego para pensar nas soluções.

— Ok, vou te deixar em paz, mas não sei como você consegue se aborrecer tanto com coisas pequenas.

— O problema é que você se acha o centro do mundo. Aliás, o centro do meu mundo.

— Uai, o que te deu?

— Esse teu raciocínio pretensioso. Se está tudo bem entre nós, eu não teria outras razões para me aborrecer.

— Mas entre nós tá tudo bem, né?




Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
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www.luizcancello.psc.com







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