Sunday, February 5, 2017

COM VOCÊS, MAIS UM ELETRIZANTE EPISÓDIO (O 57°) DA SAGA CONJUGAL "AH, O AMOR"



— A gente já se encontra há um mês e nunca te vi de mau humor.

— Eu sou assim mesmo.


— Você nunca se preocupa com nada?


— É bem raro.


— Como é que você consegue?


— Não consigo. Quer dizer, não me esforço para conseguir. É a minha natureza.


— Entendo. Mas você acha que está sempre tudo bem?


— Mais ou menos isso. Se alguma coisa não vai bem agora, amanhã vai ficar. Tudo se ajeita.


— Você lê jornais?


— Pouco. Para quê? Só dão notícia ruim.


— Mas você sabe das coisas, presumo.


— Do que você está falando?


— Da miséria, da violência, da corrupção, de tudo.


— Sei. Não sei em detalhes, mas estou por dentro. Não sou uma pessoa alienada.


— Então você sabe o que acontece por aí.


— Sei, já disse. Mas o que está te incomodando?


— Essa felicidade sempre estampada na sua cara. Não é possível.


— Não pode? Você acha que as pessoas precisam ser infelizes?


— Não digo infelizes, mas, com o mundo como está, não entendo alguém despreocupado. Ou que não esteja indignado.


— Eu vou mudar o mundo, se ficar infeliz?


— Se estiver sempre feliz nunca vai mudar nada.


— Você é feliz?


— Não sou infeliz, mas procuro me preocupar com mundo e me indignar com o que está errado.


— O tempo todo?


— Quase.


— Deve ser estressante.


— É mesmo. Mas é necessário.


— Não quero isso pra minha vida.


— A vida não é sua. Isso é individualismo. Ninguém é uma ilha, vivemos em comunidade.


— Mas eu adoro viver em comunidade. Amo as pessoas.


— É estranho. Não concordo em nada com sua a postura, mas você me encanta.


— Você também me encanta. É o mistério do amor. Vê como a vida é maravilhosa.


— A vida? Não. Você é uma pessoa maravilhosa.


— Então eu sou uma ilha?


— Queria mergulhar nas suas águas.


— Oi?


— Eu queria mergulhar...


— Psiu! Não precisa falar nada.


— Mas eu...


— Me dá um beijo.





Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
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