Saturday, March 11, 2017

COM VOCÊS, MAIS UM ELETRIZANTE EPISÓDIO (O 62°) DA SAGA CONJUGAL "AH, O AMOR"




— Você já está dormindo?

— Quase. Já não estou mais, é claro.


— Eu te acordei?


— Mais ou menos. Eu já tava no embalo, mas diz aí.


— Não sei bem. Queria conversar.


— Agora? Espero que seja uma coisa importante.


— Mas é importante. Estou com uma inquietação, preciso falar.


— Então fala, mas não eleva a voz, tira o clima.


— Que clima?


— A noite, o silêncio. Se você falar baixo eu volto a dormir mais fácil.


— Mas eu quero que você me escute, e sua cabeça já está pensando em voltar a dormir.


— Tô escutando, diz aí.


— Eu não sei bem o que é, mas preciso falar.


— Enquanto você resolve eu posso dormir um pouco?


— Você não me leva a sério.


— Você é que não respeita o meu sono. Eu sempre durmo antes, você fica se mexendo que nem siri na lata e me acorda.


— Não estou me mexendo. Só quero conversar.


— Então desembucha de uma vez.


— Não é tão fácil. É uma inquietação, já disse. Preciso de um tempo.


— E se a gente dormir e deixar isso pra amanhã?


— E se eu conseguir achar o jeito de falar?


— Anota no celular e depois a gente conversa.


— Posso gravar?


— Pode. Vai pro banheiro e grava lá. Agora me deixa em paz, tá me dando um nervoso. Eu fico assim quando interrompem meu sono, você sabe.


— Sei. Quando eu levanto par ir ao banheiro você sempre acorda e briga comigo, por mais que eu não faça barulho.


— Então tenta não fazer barulho e acaba com isso, quero dormir! Já estou até meio sonhando.


— Sonhando com os olhos abertos?


— Não estou com os olhos abertos. Só falta você acender a luz pra conferir.


— O que você está sonhando?


— Não te interessa. Para! Se continuar assim vou me deitar na sala.


— Mas o sofá é desconfortável.


— Pior é ficar aqui, nessa tortura. Estou indo pra lá. Fui.


— Espera um pouco.


— Pra quê? Eu só quero descansar, por favor, me deixa.


— É que agora eu achei o jeito de falar o que eu quero.


— Então fala. É a sua última chance. Anda logo.


— Assim você me inibe.






Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo, Professor e Músico.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
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www.luizcancello.psc.com




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