Sunday, April 9, 2017

COM VOCÊS, MAIS UM ELETRIZANTE EPISÓDIO (O 65°) DA SAGA CONJUGAL "AH, O AMOR"




— Por que você botou água pra ferver?

— Começou logo de manhã?

— Começou o que?

— Você controla tudo o que eu faço!

— Mas é só curiosidade, nada a ver com controle.

— Fica observando todos os meus movimentos.

— Para com isso. Não é tão complicado.

— Então deixa a minha água fervendo.

— Custa muito me dizer pra que tá fervendo?

— Custa. Espera pra ver.

— Uma pergunta tão besta e você fica desse jeito.

— Por que você não se preocupa com alguma coisa mais grave?

— O quê? A violência, o desemprego?

— Por exemplo.

— Eu me preocupo. Mas agora só queria saber pra que a água está fervendo. O café já está feito, então deve ser pra outra coisa.

— Não é segredo nenhum, mas não quero falar. Espera. Enquanto isso vai se preocupando com a violência e o desemprego.

— Estou me preocupando, e muito. Eu não quis falar ontem pra você dormir bem. Mas preciso dizer.

— O quê?

— Talvez eu não fique na empresa. É quase certo.

— Cacete! E fica me perguntando para que eu estou fervendo água.

— Pois é. Vai ter um corte pesado no fim do mês.

— E como vamos fazer?

— Em princípio, economizar. Por exemplo, não gastar gás à toa, fervendo água sei lá pra quê.

— Para de implicar comigo e fala sério.

— Tenho de ter algum gancho pra desabafar. Estou com os nervos à flor da pele.

— E implicar comigo te acalma.

— Não, o que me acalma é o senso de humor. É a nossa conversa maluca.

— Mas a situação é séria, o desemprego está chegando aqui. Acorda, não se trata de maluquice nem piada, é realidade. Tenho muito medo.

— Já que você não tem senso de humor, me fala. Pra que está fervendo água?

— Ok. Não tem mais graça nenhuma. Vou escaldar os talheres que você lavou. Ficaram meio engordurados.

— Tô entendendo. Uma declaração de incompetência ao quadrado. Não sei lavar os talheres e estou prestes a perder o emprego.

— Escuta bem, larga mão de se fazer de vítima, temos que nos planejar.

— Eu sei. Podemos começar não fervendo água à toa.

— Não foi à toa, já disse. Foi para desengordurar os talheres.

— Foi pra escancarar a minha incompetência.

— Deixa disso e presta atenção, faz um esforço, cai na real!

— Agora não.

— Quando, então?

— Depois que você escaldar os talheres.

— Que doideira. A crise desabando sobre nós e você insiste nessa bobagem.

— Por favor, faz isso. Depois a gente pensa no resto.

— Já que é tão importante... estou fazendo. Pronto, escaldei.

— Não é um alívio?

— Alívio? Que alívio? Alívio é ter estabilidade no emprego.

— Estou falando de outra coisa.

— Que coisa?

— É difícil explicar. Muito difícil.

— Nossa, por que você ficou tão triste, assim de repente?



Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo, Professor e Músico.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
ou pelo website
www.luizcancello.psc.com


O lançamento do livro AH, O AMOR,
com os episódios da série reunidos
acontecerá dia 5 de Maio, 18h30,
na Realejo Livros, em Santos SP

FELIZ SEMANA SANTA
PARA TODOS

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