Saturday, May 20, 2017

COM VOCÊS, MAIS UM ELETRIZANTE EPISÓDIO (O 67°) DA SAGA CONJUGAL "AH, O AMOR"



— Você me ama?

— Amo você mais que tudo no mundo.


— Mais que tudo?


— Mais que tudo.


— E seus pais?


— É um amor diferente.


— Como assim, diferente?


— Eu amo você de um jeito ímpar.


— Quer dizer que você só ama a mim, desse jeito ímpar?


— Só você.


— Então não tem vantagem nenhuma em dizer que me ama mais que tudo, se só eu sou objeto desse jeito... ímpar.


— Meu bem, é um modo de dizer que eu te amo muito.


— Agora já tá dizendo outra coisa.


— De jeito nenhum. Você é que está complicando.


— Escuta aqui, e se a gente tiver um filho, quem você vai amar mais?


— Não faz confusão. Filho é outro tipo de amor.


— Ah, engraçado. Se pra cada pessoa tem um tipo de amor, então não dá pra falar que me ama "mais que tudo".


— Catso, pra que tanto rolo? Não é claro que eu te amo?


— Vamos fazer um teste. Eu, sua mãe e seu filho estamos doentes. Quem você socorre primeiro?


— Sei lá, quem estiver mais grave.


— Vamos supor que todos estão doentes com gravidade igual.


— Não me obrigue a entrar nas suas pirações. Não vou responder.


— Faz um esforço. Responde.


— Essas situações a gente só resolve na prática, na real. É impossível pensar em hipóteses.


— Você escorrega mais que sabonete.


— Nada disso. Só não quero discutir e brigar.


— Então responde o que eu pergunto e a gente encerra o assunto.


— Com você os assuntos nunca se encerram, sempre tem uma pergunta ou um comentário a mais. Tenho de dar um breque.


— Vou tentar resumir. Você me ama mais que tudo, mas o tudo sou eu. Logo, você me ama mais que eu. Não faz sentido.


— Vamos entrar num acordo, de outro jeito. Você é tudo. Assim tá legal?


— Eu sou tudo? E seus pais, e o filho que a gente quer ter, não são nada?


— Tá querendo me ferrar. Cada um é tudo a seu modo. A gente não está numa disputa de lógica.


— Mas a vida tem de ter alguma lógica.


— Eu só queria fazer uma declaração de amor.


— Eu me sinto um tudo que é nada.


— Já tentei de tudo. Não posso fazer nada.


— Você acha que suas gracinhas inteligentes vão me dobrar?


— Não, amor. Você é indobrável.


— Calma lá. O que você quer dizer com isso?







Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo, Professor e Músico.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
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www.luizcancello.psc.com



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