Friday, May 26, 2017

COM VOCÊS, MAIS UM ELETRIZANTE EPISÓDIO (O 68°) DA SAGA CONJUGAL "AH, O AMOR"



— Eu não curto muito esses teus papinhos inbox no face.

— Mas o que te incomoda?

— Quando é na linha do tempo eu posso ver.

— Mas você precisa ver tudo?

— Talvez. Acho que sim. Dá uma insegurança.

— Mas que insegurança? Você sabe tudo da minha vida.

— Quase tudo. Menos esses teus papos no face.

— Para com essa nóia, é conversa com amizades antigas, nada que te interesse.

— Ah, é? Então me dá a senha do teu face pra eu dar uma olhada.

— De jeito nenhum. Você tem de confiar em mim.

— Eu confio, mas às vezes me dá umas cismas.

— Problema seu.

— Se você me der sua senha eu te dou a minha.

— Mas eu não quero a sua senha.

— Você não quer saber o que eu escrevo inbox?

— Pra que eu ia querer?

— Pra saber tudo sobre mim. Tudo

— Eu sei bastante sobre você e te gosto assim. Pra mim basta.

— Eu gostaria de ser como você. Mas não consigo.

— Como assim? Você não me gosta?

— Claro que gosto, mas queria saber o que tá escrito inbox.

— Então só vai gostar completamente se souber isso.

— Não é tão grave. Eu gosto de você, mas queria ver as mensagens.

— Não sei por que uma coisa depende da outra.

— Não depende. Mas eu queria que a gente não tivesse segredos.

— Não são segredos.

— Então por que não deixa eu ver?

— Não tenho nada a esconder. É uma questão de privacidade. Acho que nós dois temos de ter pelo menos uma coisa nossa, que o outro não fique interferindo.

— Eu não preciso disso.

— Mas eu preciso.

— Controla essa obsessão com a senha.

— É que eu quero você por completo.

— Impossível.

— Você não quer se dar por completo?

— Não se trata disso. Ter o outro por completo é pura ficção. Ainda mais se o caminho for uma senha do face.

— Deve existir um caminho.

— Acho que não. Essa impossibilidade é da natureza humana.

— Você acha?

— Tenho certeza.

— Mas eu quero continuar tentando.

— Tá bem. Eu te dou a senha, só pra você ver que não adianta nada.

— Não, não. Por favor, não faça isso.

— Ué, não quer mais?

— Me deu medo.

— Medo?

— É, medo. E cansaço, muito cansaço.






Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo, Professor e Músico.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
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www.luizcancello.psc.com


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