Saturday, June 3, 2017

COM VOCÊS, MAIS UM ELETRIZANTE EPISÓDIO (O 69°) DA SAGA CONJUGAL "AH, O AMOR"



— Você decide tudo na última hora!

— É, eu sei.

— Mas por que isso?

— Eu tava muito tempo sem namorar.

— E daí?

— Daí eu ia ao shopping, chegava no andar dos cinemas, por exemplo, via os filmes que estavam passando e decidia na hora. Mesma coisa com bares. Saía de casa, dava uma geral nos points e decidia ali mesmo.

— Ótimo. Mas agora você está namorando comigo. Não dá mais pra ser assim, somos duas cabeças. A gente precisa combinar onde vai.

— Mas não dá pra resolver na hora?

— De vez em quando. Não é possível ficar sempre discutindo aos 45 do segundo tempo.

— Mas eu acho tão bom, tudo parece uma surpresa.

— Eu não sou assim. Se vou ao cinema, já sei antes que filme quero ver.

— Às vezes eu também faço isso, às vezes não.

— Esse jeito dá muita insegurança pra quem vive junto com você.

— É, pode ser.

— Não “pode ser”. Dá insegurança.

— Um amigo me falou sobre uma tia dele, que morava longe e resolvia tudo de última hora. Uma vez ela passou um telegrama pra mãe dele: “Sigo hoje, talvez não vá.” Minha ídola.

— Muito interessante como causo. Terrível pra quem convive com essa doida.

— Mas o telegrama é fantástico.

— Olha, não sou a tia do seu amigo. Vamos tentar combinar os programas com antecedência?

— Posso tentar. Dá um exemplo.

— Daqui a pouco é hora de jantar. Onde vamos?

— Pode ser no restaurante indiano. Ou no árabe. Se você quiser muito, vou no japonês.

— Tá vendo? Fala um, unzinho só. Tenta.

— Mas pra mim tá legal qualquer um. Pode ser outro, se for do seu agrado.

— Ok, eu decido. Vamos no árabe.

— Combinado. Mas se a gente chegar lá e você mudar de ideia, tudo bem.

— Eu não vou mudar de ideia.

— Como é que pode?

— O que tem de errado?

— Incrível. A gente vai passar na frente de outros restaurantes. Você não pode ficar com vontade de ir em outro, de repente?

— Bem, até posso, mas não costuma acontecer.

— Ah, então ainda há uma esperança.

— Mesmo quando aparece a tentação de mudar de ideia eu me controlo.

— Mas a troco de quê? Pra que se controlar?

— É óbvio. A decisão anterior foi tomada com base racional. A escolha intempestiva é irracional.

— Intempestiva. Era só o que me faltava. Minhas escolhas são intempestivas. Sou irracional. Eu sirvo pra alguma coisa?

— Claro, benzinho. Sua impetuosidade é encantadora.

— Ao menos de alguma coisa você não se queixa.

— Mas prefiro com hora marcada. Gosto de me preparar.

— Acho que não ouvi direito.

— Quer que eu repita?

— Melhor não.







Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo, Professor e Músico.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
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www.luizcancello.psc.com



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