por Chico Marques
Antes de John Updike e antes de Richard Ford, John Cheever escreveu sobre a classe média norte-americana com uma maestria impressionante, revelando por trás da aparente normalidade de seus personagens as entranhas da vida americana.
Resultado: Cheever tornou-se nos anos 1940 e 1950 referência mais do que obrigatória obrigatória para todos os autores empenhados em promover um mergulho profundo neste mesmo universo -- entre elas, seu próprio editor na revista New Yorker, William Maxwell.
Cheever escrevia sobre os prazeres da vida em família e sobre a mediocridade aparentemente feliz em que a maioria dos americanos quietos trata de se acomodar, e revelava de forma magnífica as turbulências e os sobressaltos são desequilibravam o cotidiano de seus personagens até conseguirem romper o celofane que os separa da realidade nua e crua.
O aconchego na prosa de Cheever é brilhantemente enganador, pois ele consegue, logo na arrancada de um conto, criar um cenário vívido e personagens extremamente palpáveis -- seja nos cinco romances curtos que escreveu, ou nos quase 100 contos que escreveu para a New Yorker, que acabaram reunidos no monumental volume "The Stories Of John Cheever" -- que aqui no Brasil ganhou uma versão abreviada, organizada por Mário Sérgio Conti e intitulada "28 Contos".
O termo “contos da New Yorker” -- cunhado por Harold Ross, um dos diretores da revista -- indicava um entretenimento suave, sem violência, sexo ou expressões chulas, e também sem experiências formais.
Acolhia escritores com uma atitude literária mais conservadora, e rejeitava escritores mais experimentais influenciados por James Joyce, Samuel Beckett e Franz Kafka.
Pouco a pouco, esses "contos da New Yorker" acabariam estigmatizados pelos críticos e escritores mais jovens como sendo "subliteratura", reduzindo a um mesmo denominador comum, de forma indistinta, todos os colabradores da revista.
Mas John Cheever conseguiu se sobressair entre eles, e se afirmar como um exímio contador de histórias.
Seu sucesso acabou por trazer aos "contos da New Yorker" a atenção que eles mereciam, e não tinham, dos críticos.
Nesses contos, que na verdade não eram tão conservadores assim, escritores como John O'Hara e Irwin Shaw, habituados a escrever romances para o grande público, revelaram-se contistas extremamente criativos.
Escritores mais desalinhados como Richard Yates e Walker Percy passaram a ter uma boa acolhida nas páginas da revista.
Pouco a pouco, com o passar dos anos, quase todo tipo de entretenimento literário inteligente passou a ser bem recebido por lá.
Começar a ler uma história escrita por Cheever tem o efeito de entrar numa sala depois de abrir a porta: os personagens e o cenário estão ali, bem na sua frente.
Existe algo de aconchegante no texto de Cheever, na maneira como ele consegue, logo na arrancada de um conto, criar um cenário vívido e personagens palpáveis.
Mas não se engane: nesse universo de aparência pacata, há sempre um ruído. Algo está fora do lugar.
Um desastre, prestes a acontecer.
O motivo pelo qual decidi escrever sobre John Cheever hoje é que acabo de receber pela Library Of America sua obra completa em dois generosos volumes: um com os cinco romances e outro com os contos completos.
Por enquanto, estou apenas contemplando os dois livros, e reli rapidamente no fim de semana dois de meus contos favoritos de Cheever: "The Swimmer" e "The Five-Forty-Eight", só para matar a saudade.
O próximo passo é criar um ritual e começar a ler um a cada noite antes de dormir.
Acredite: são contos aconchegantes a este ponto.
Chico Marques devora livros
desde que se conhece por gente.
Estudou Literatura Inglesa
na Universidade de Brasília
e leu com muito prazer
uma quantidade considerável
de volumes da espetacular
Biblioteca da UnB.
Vive em Santos SP, onde,
entre outros afazeres,
edita a revista cultural
LEVA UM CASAQUINHO
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