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E O QUE É GOIABA? (uma Bofetada do Passado de Zuenir Ventura)

 

Não é a primeira vez que mudo de emprego, deve ser a décima, mas espero que seja a última. Agora, no que depender de mim, só saio desta para melhor. Não mudo mais nem de assunto. Mudança dá sempre um friozinho no estômago, mexe com nossas inseguranças e mobiliza nossas velhas incertezas. Por melhor que seja, ela não existe sem dor. Ah, é horrível.

 

Em compensação, o desafio tem a vantagem de despertar energias adormecidas, de nos revigorar e revitalizar. Enquanto a mudança é transformadora, a inércia, por natureza, não leva a lugar nenhum, ou leva ao desastre. O Brasil, por exemplo, acaba de ir para o beleléu por não saber ou não ter tido a coragem de mudar na hora certa — de política, de economia ou de presidente. Aliás, a história dos fracassos brasileiros se resume à falta de correção de rumo. E, mais uma vez, lá vem o Brasil descendo a ladeira. 

 

“Há tempo de abraçar e tempo de se afastar”, ouço o conselho do Eclesiastes. Se o mundo gira, se o GLOBO muda, se o câmbio flutua, se a Lusitana roda, se a tecnologia se transforma, se a metamorfose é geral, por que eu não haveria de mudar? — ainda mais num país de desempregados e eu pertencendo à faixa etária que Fernando Henrique transformou em faixa otária.

 

Dizem que a gente grita ao nascer por medo da mudança, por pânico do desconhecido. A perspectiva de trocar o confortável útero por uma situação nova seria responsável pelo tal grito primal, um grito que, sob outras formas, vai nos acompanhar metaforicamente por toda a vida. Estamos sempre gritando, senão literal pelo menos simbolicamente.

 

Só esqueci de perguntar ao psicanalista que me ensinou isso por que então não se grita também antes de morrer? Será que o medo da vida é maior do que o da morte? Será que algum misterioso pressentimento nos avisa que nada no além pode ser pior do que o que se vive aqui, no aquém?

 

Acho que não perguntei por ter ficado muito impressionado com as histórias patológicas que ele me contou, de pessoas que gritam até para trocar de roupa ou de pasta de dente. Graças a Deus não cheguei a esse ponto: de pasta, nem tanto, mas de roupa troco todo dia numa boa, sem gritar.

 


Se grito agora ao trocar de jornal após um longo casamento profissional é por motivos bem razoáveis: medo de recomeçar, de nascer de novo. Medo sobretudo de não agradar, porque por trás de qualquer medo há sempre o temor do fracasso.

 

Por isso, o pior da mudança é a expectativa — não só a que se tem, mas a que se cria: uma espécie de expectativa da expectativa alheia. O que estão esperando de mim? O que vão achar? Será que vai dar certo? Que assunto escolho para a primeira crônica? E vai interessar?

 

 

Sabia que o perigo da estreia era ficar falando da ansiedade de mudar, enquanto as coisas estavam mudando em volta. O país desestabilizado por uma turbulência e eu, autocentrado, tentando controlar minha crisezinha boba. Os dólares se esvaindo, os salários sendo confiscados, a inflação pressionando, um presidente mais desvalorizado que um real e eu (vai ver que por tudo isso mesmo) fugindo para dentro do espelho.

 

Teria que evitar essa alienação, me prometi, e bem que tentei, mas agora vejo que o espaço está acabando e continuo dando voltas em torno de mim. É evidente que deveria tocar no tema; afinal, mudança de emprego é uma das principais causas de trauma psicológico, ao lado da separação no casamento. Mas não desse jeito, só de passagem. O que vão dizer as pessoas que não dão bola para essas frescuras existenciais?

 

Tenho um amigo que é assim, não esquenta com mudança; ao contrário, adora esse clima de desafios e expectativas. Volúvel, vive trocando de namorada, de preferência para uma mais jovem. Reclama apenas de um inconveniente: ter que explicar a cada nova conquista o que já explicou às anteriores: quem são seus amigos, sua família e, sobretudo, “quem é Ferreira Gullar? Foi ele que fez ‘A banda’?”

 

Otto Lara Resende não tinha muita paciência para essas ignorâncias juvenis e se irritava particularmente quando a amnésia atingia não só as pessoas mas também as frutas. Um dia desabafou com Fernando Sabino: “Chega, não quero mais conhecer ninguém que não saiba o que é goiaba.”

 

Talvez por isso, O GLOBO tomou a sábia providência de mostrar antecipadamente quem era sua nova conquista, quer dizer, esta velha novidade. Pelo menos assim diminui o risco de jovens leitores saírem por aí perguntando: “Quem é Zuenir Ventura?” “É com ele que se faz goiabada?”

 

Crônica publicada em O GLOBO 

no dia 30 de janeiro de 1999

 

O jornalista e escritor Zuenir Ventura, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), morreu nesta terça-feira, aos 95 anos. Autor de reportagens premiadas e de livros que se tornaram clássicos, como “1968 — O ano que não terminou” e "Cidade Partida", o mineiro radicado no Rio assinou uma coluna no GLOBO durante décadas. Esta foi a primeira delas. Parte da ansiedade do próprio escritor diante do desafio da estreia no jornal para refletir sobre o peso de grandes mudanças ao longo da vida. "Dizem que a gente grita ao nascer por medo da mudança", escreve Zuenir. Publicado em meio a uma grave crise cambial que desvalorizou o Real, o texto também faz críticas ao governo de Fernando Henrique Cardoso, pouco depois da reeleição do presidente, e lamenta que o Brasil não tenha tido a "coragem de mudar na hora certa". Aos 67 anos, o jornalista vinha de um longo período no Jornal do Brasil e havia se curado de um câncer na bexiga. No texto, ele não cita a doença, mas pondera sobre o medo da morte.





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