Modéstia
à parte, não foi das minhas melhores noites. A culpa não foi minha: preparei-me
para o que desse e viesse, mas nada de excepcional veio nem nada me foi dado -o
que é pena.
Oficialmente,
Rachel Welch vinha fazer uma curta temporada no Brasil. Profissional
competente, ela sabia o que valia naquela época. Tinha de ganhar a vida e o
fazia com seriedade. Em Las Vegas, seus produtores haviam bolado um enlatado de
trânsito internacional e lá foi ela, com 17 acompanhantes e 2 mil quilos de
bagagem, requebrar o corpo monumental em Paris, no México e no Brasil.
Não
se considerava uma atriz, muito menos uma cantora. Definia-se como
"entertainer" -- função que o Ratinho também poderia invocar. Tinha
consciência de que muita gente pagaria uma nota firme para ser entretida
"por" ela. E pagaria muito mais se fosse entretida "com"
ela.
Foi
com sabedoria -- e charme até demais- que ela se esmerou em provar, e sobretudo
em mostrar, que é um produto de consumo garantido. Quando se abre uma garrafa
de Coca-Cola, não se espera encontrar dentro dela um Dom Perignon de safra
nobre ou um pouco de água da miraculosa água da gruta de Lourdes. Encontra-se
Coca-Cola mesmo.
Provocou,
como só acontecer nessas horas, uma batalha campal com a imprensa. Os artistas
que aqui chegam para conhecer nossas maravilhas, ou apenas para defender o
leite das suas crianças, não se sentem obrigados a declarar nada de importante.
Nada têm a declarar, nem mesmo à alfândega, que generosamente dispõe de uma
saída encimada com o aviso, "nada a declarar", em pelo menos duas
línguas.
Daí
a irritação dos visitantes que não compreendam a insistência dos jornalistas em
saber o que pensam da vida sexual do presidente dos Estados Unidos ou da crise
das bolsas asiáticas. Afinal, quem se interessaria em saber o que Rachel pensa
-- se é que ela pensa realmente- sobre a queda do iene ou sobre a convulsão do
Ronaldinho?
O
pior que disseram a respeito dela, naquele ano em que se exibiu em São Paulo e
no Rio, foi típico da maledicência nacional: ela seria apenas um travesti
bem-sucedido. Para tirar essa dúvida, uma ida ao seu show seria esclarecedora.
E lá fui eu, não apenas ao seu show, mas a seu camarim.
Fora
do palco, Rachel é uma americana típica, de idade indefinível, saúde óbvia e
humor variável. Fala francês e espanhol, o pai dela era hispânico, não sei mais
de onde.
Consegue
até ser bonita, mas sem exagero. Jogada nas ruas, seria um rosto na multidão
porque se destacava sobriamente pelo estilo, pela classe padronizada das
mulheres habituadas ao sucesso, à admiração dos homens. Nada mais do que isso
-- e já é muita coisa.
Mas
em cima do palco -- mesmo sem ser uma atriz excepcional ou uma cantora de
talento -- a mulher comum se transformava num animal formidável, um espécime da
carne e da forma. Aprendeu diante do espelho, e com mestres entendidíssimos, a
arte de mexer com o corpo, o rosto e o resto.
De
botar a língua para fora na hora certa, no ângulo exato para sugerir aquele ato
que o presidente Clinton pede para as estagiárias da Casa Branca fazerem com
ele. De revirar os olhos e passar as mãos pelas próprias coxas.
Depois
do show, ela me recebeu em sua privacidade. Sua secretária conseguira vencer as
resistências do guarda-costas oficial da atriz, um mancebo de 24 anos, que
adota a tática do "nunca estar a mais de um metro" da pessoa a quem
dá proteção. Garantem que essa distância às vezes é bem menor, pois durante a
noite Rachel precisa mais do que nunca ser bem protegida.
Ela
descansava de um show para enfrentar outro. A fera que eu vira no palco estava
reduzida a uma jovem senhora gentil, bonita sem dúvida, mas sem nenhum apelo
que me fizesse subir pelas paredes ou descer aos infernos.
Acabara
de comer uma maçã, sua boca cheirava bem. Esperou pelo interrogatório que não
houve. Afinal, sem querer botar banca de original, não costumo perguntar quase
nada às pessoas que entrevisto. Converso as trivialidades do momento. Tempos
atrás, o Emerson Fittipaldi estranhou o meu modo de trabalhar. Ao fim de dois
dias de convivência, ele me perguntou quando a entrevista ia começar. "Já
acabou", respondi.
No
papo informal, praticamente em três línguas diferentes, fiquei sabendo (mais ou
menos) o que ela pensava de si mesma. Considerava-se um objeto sexual e não se
incomodava com isso. Se para defender o mundo de uma catástrofe nuclear,
tivesse de dormir uma noite com Yeltsin ou com um aiatolá, entraríamos todos
por um cano deslumbrante. Jamais repetiria aquele personagem de Guy de
Maupassant, "Bola de Sebo", que fez o sacrifício de sua carne para
salvar a viagem de uma diligência.
Admirava
gênios. Quando desejava elogiar alguém, dizia: "É um cérebro!". E
seus olhos brilhavam. De tanto rebolar o corpo pelos palcos do mundo, cultivava
furiosa admiração pelas pessoas que fazem sucesso em outros palcos sem
necessidade de mexer com as coxas e os quadris.
Infelizmente,
não houve tempo para que ela pudesse apreciar o meu cérebro.
(FOLHA DE S. PAULO, 14 Agosto 1998)
Carlos
Heitor Cony (Rio de Janeiro, Guanabara 1926-2018) foi um jornalista e escritor
brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000 e colunista da
Folha de S.Paulo. Autor de romances como O Ventre, Pessach: A Travessia e Quase
Memória, destacou-se pela oposição à ditadura militar, enfrentando prisões e
censura. Premiado com o Jabuti e o Machado de Assis, deixou vasta obra que
inclui crônicas, ensaios e adaptações para o cinema e televisão.






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