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ADEUS BRASIL (por Beth Soares)

Hoje acordei com um soco no estômago. Uma dor de cabeça insistente me fez permanecer na cama por mais tempo. Agora percebo que talvez fosse o prelúdio do que eu veria dali a instantes. Ontem eu soube que o Programa Mais Médicos deixaria de atuar no Brasil, por conta das declarações do eleito. Desisti de adjetivar a palavra “declarações”, porque nenhum adjetivo traduz com exatidão o que eu penso sobre o que ele fala, assim como mais nenhum é capaz de definir o que eu penso do próprio. O fato é que fiquei profundamente incomodada. De um jeito que detesto estar. Então, passei o dia tentando não pensar nisso. Assim que li a notícia pela primeira vez, levantei-me da minha cadeira, no trabalho, e fui conversar com uma colega, a Silvana, uma portuguesa de Guimarães, sobre uma cidade linda na terra dela chamada Aveiro, na qual descobri haver um curso de edição de livros, que se tornou meu mais novo sonho. Aquela era a maneira de fugir da minha atual realidade. Era também a tradução...

O JOGO DO DESAPEGO (por Beth Soares)

Volta e meia a questão do desapego volta à pauta de destaque entre os milhares de assuntos que se intrincam na minha mente. Passei longos dias inconscientemente bolando um discurso no qual eu era, ao mesmo tempo, oradora, ouvinte e personagem desapegada. Reuni provas, testemunhos, dediquei meus ouvidos analíticos a histórias sobre mim que legitimavam essa ideia, ainda que quem as contasse fosse eu mesma, do alto do meu posto de observadora profundamente parcial. Eu, desapegada, doei tantas roupas, sapatos, móveis, ao longo da vida emprestei tantos livros que não foram devolvidos e nunca mais fiz questão deles. Doei tanto à caridade, seja em forma de dinheiro, comida, ouvidos atentos ou trabalhos não-remunerados. Não é este um grande exemplo de desapego ao presente? Além disso, não sinto essa tal saudade do passado, que observo permear a vida de tantas pessoas. Não tenho interesse em querer revivê-lo, como tantos tentam. Para dizer a verdade, acho mesmo é triste que ...

JOÃO E A ESCOLA DE BABEL ou SEVEN NATION ARMY (A Viagem e a Cura #4 - por Beth Soares)

Sete da manhã. Lá estava eu, pronta para o primeiro dia de aula em terras estrangeiras. A gente tem mania de achar que, porque virou adulto, nada mais pode ser motivo para causar insegurança. Se eu levasse isso a sério, teria que admitir meu notório fracasso em virar gente grande. Eu e Isabella, minha parceira de escola, pegamos o trem tão pontual quanto lotado (de pessoas muito bem-educadas que, ao invés de nos acotovelarem e empurrarem, pediam licença calmamente, respeitando nossa velocidade). A primeira parte da viagem nos levaria até a estação Waterloo, uma espécie de Sé, que nós, paulistas, conhecemos tão bem. De lá, um ônibus nos levaria até o outro lado da ponte, para Holborn, nossa parada para o número 2 da Southampton Place, onde ficava nossa escola, a Stafford House. Aqui, um parêntese: todos os dias, bem no meio da Ponte Waterloo (nome dado em homenagem à famosa batalha que levou o exército britânico à vitória sobre o francês Napoleão), pela janela do ôni...

A VIAGEM E A CURA #3 (ou Bitter Sweet Symphony - por Beth Soares)

Agora era desfazer as malas e entrar no clima londrino... que, diga-se de passagem, era de congelar. Adoro! Minutos após a chegada na casa, conhecemos a Helena, de Floripa, e a Rhayza, mineirinha de Uberlândia (que faz o melhor bolo de cenoura com cobertura de chocolate do mundo!), duas meninas lindas e doces, que estavam no quarto em frente ao nosso, e nos deram as boas-vindas. Em seguida, passeei um pouco com o Rodrigo pelas redondezas, fizemos nossas primeiras compras no Sainsbury’s, supermercado que nos fazia poupar muitas libras, já que os restaurantes de Londres eram um luxo do qual não poderíamos desfrutar diariamente. E mais gente foi chegando: a Tati, curitibana como o Rodrigo, e que dividiria o quarto David Bowie conosco; e a Isabella, vinda de Tocantins, que madrugaria comigo diariamente, pois iríamos toda manhã juntas para a aula na Stafford House. Todos jovens, bonitos e cheios de gás. Eu, a peça vintage, depois de um banho complicado (é um pouco complexo decif...

A VIAGEM E A CURA #2 (ou STARMAN) (por Beth Soares)

E lá fui eu enfrentar minhas 11 horas de viagem. Era a primeira internacional de toda minha vida. Estava muito empolgada, até me dar conta, lá no alto, de que eu estava cruzando um oceano. E se algo desse errado? Não, eu não tive medo de descobrir que muitas vezes o inglês nativo era incompreensível para mim, ou que o frio poderia ser congelante, ou ainda que é difícil ficar sem arroz e feijão por 30 dias. Meu único medo era sobrevoar o oceano. Tentei assistir a alguns filmes de comédia, mas nenhum deles conseguiu me tirar do terror de imaginar a todo instante a possibilidade de o avião ter que pousar antes de haver terra por perto. E então, zapeando quase sem esperanças, o nome de um filme me chamou a atenção: Perdido em Marte. O que poderia ser pior do que se perder, cair, nadar sem rumo no meio do Oceano Atlântico? Se perder em Marte, claro! A desgraça do outro atiça nossa curiosidade, porque faz a nossa própria parecer menos importante. É triste, mas é real. O Matt...