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Showing posts from February, 2018

POESIA POSSÍVEL - ARMANDO FREITAS FILHO #3

POEMA 100 Da casa dos três dígitos não saio mais. Trinco. Dia após dia de prisão na cidade em carne viva. Entre em si para sempre: tendo de seu, apenas o bodum ranzinza do corpo que vai se resignando a não perseguir o inominável nem a se persignar Armando Freitas Filho nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1940. Jornalista de profissão, começou a escrever poesia a sério em 1960. Trabalhou com Estudos e Pesquisas Literárias no MEC e na FUNARTE entre 1974 e 1994 . Modernista fortemente influenciado por Bandeira, Drummond e João Cabral, Armando faz versos repletos de imagens impactantes. Segue ativo  publicando uma nova coleção de poemas  a cada 3 anos. Em 1986 recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia por seu livro "3x4", mas sua obra-prima indiscutível é "Lar," publicado pela Companhia das Letras e grande vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2011. Seus poemas escritos entre 1960 e 2000 estão r...

FALA, RAUL! (uma entrevista póstuma com Raul Seixas extraída do Blog do Jiló)

Hoje a nossa entrevista é com um dos maiores malucos da história. Aquele que é considerado no Brasil o pai do rock e criador da “Sociedade Alternativa”… tão alternativa que nunca chegou a existir. Com vocês, o maluco beleza Raul Seixas. BJ – Raul, alguns músicos, produtores e amigos seus costumam dizer que você, apesar de maluco, era um sujeito muito inteligente. Mas eu dei uma fuçada na sua história e descobri que você repetiu 5 vezes o sétimo ano do Ensino Fundamental. É verdade isso? RS – Que porra é essa de sétimo ano do Ensino Fundamental? BJ – Desculpe. Na sua época equivalia ao segundo ano do ginásio. É verdade que você repetiu 5 vezes esse ano? RS – Cinco vezes? Tem certeza disso? Eu achei que era menos. (risos) Rapaaaaaazzz, vou ser sincero com você. A escola não me ensinou nada. Ela não me dizia nada do que eu queria saber. Tudo o que eu aprendi foi em casa, na rua e nos livros. Em casa, eu aprendi a respeitar… na rua, aprendi a me virar… e...

LEMBRA QUE O SONO É SAGRADO (por Germano Quaresma)

A falta de sexo, para Falópio, resultava numa insônia escruciante. Ele padecia de um priapismo crônico, e por tal razão passava os dias se arrastando, consequência das noites despertas. Não é que a rigidez peniana o impedisse de dormir, afinal todo homem, mesmo os impotentes, acordam em ereção. Verdade que a primeira urina leva a dureza embora, é o que o populacho, em demonstração de seu insuperável mau gosto, denomina "tesão de mijo". Falópio dormiria com seu phallus erectus não fosse o não menos rígido colchão ortopédico em que deitava, forçado por sua coluna sentimental. Ele se recolhia cedo, e logo a lembrança cívica das namoradas de antanho o assomava, fazendo o mastro erguer-se sem bandeira. Falópio usava dormir de bruços, mas o atrito do membro face à tábua do colchão o despertava. Foi quando o psiquiatra o aconselhou a dormir de lado. Deu certo até o ingresso no território da vigília. Uma vez dormido, a primeira mudança involuntária de lado o fazia ...

EDUARDO CAVALCANTI SAÚDA "LIFE IN 12 BARS", DOCUMENTÁRIO SOBRE ERIC CLAPTON, EM PRÓXIMA PARADA

Eduardo Rubi Cavalcanti é jornalista desde a década de 80. Trabalhou em A TRIBUNA de Santos e em várias outras publicações.  É Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo e leciona Jornalismo na Unisantos, onde cursou sua graduação. Publica domingo sim, domingo não, em A TRIBUNA de Santos, a página PRÓXIMA PARADA, que reproduzimos aqui.

O RAY-BAN (por Carlão Bittencourt)

"É muito difícil saber não trabalhar” (Jorginho Guinle) Bóris Fetcher teve várias profissões antes de se decidir por criar anúncios. Muitas. Até mesmo dono de circo. Mas era, antes de tudo, um grande redator. Na opinião de muita gente de peso, como Noé Sandino, Tom Figueiredo e Bjarn Norking, ele foi o melhor de sua geração. Bóris era mesmo brilhante. E não só na propaganda. Nascido na Rússia, rodou o mundo até vir morar na aprazível Vila Sonia, bairro popular na periferia de São Paulo. Essa incrível trajetória foi sua escola de vida, seu curso superior. Um P.H.D. em política de boa vizinhança, muito sereno e jogo de cintura. Inteligente, culto, rápido no gatilho, Bóris falava várias línguas. Mas conhecia mesmo era a língua do povo, grande segredo do seu sucesso como redator. Fosse qual fosse o veículo de comunicação, ele sabia como poucos falar a língua do homem comum. Era também um gozador. Um brincalhão nato, escondido atrás dos cabe...

"CATEDRAL", um conto de Raymond Carver

CATEDRAL Raymond Carver Aquele cego, um velho amigo da minha mulher, ia chegar para passar a noite em nossa casa. A mulher dele tinha morrido. Por isso ele estava visitando os parentes da sua falecida mulher que moravam em Connecticut. Ele telefonou para a minha mulher, da casa dos parentes da mulher dele. Ficou tudo combinado. Ele ia chegar de trem, uma viagem de cinco horas, e minha mulher ia encontrá-lo na estação. Ela não o via desde o verão em que tinha trabalhado para ele, dez anos atrás, em Seattle. Mas ela e o cego mantiveram contato. Gravavam fitas e mandavam um para o outro pelo correio. A visita dele não me deixou nem um pouco entusiasmado. Não era nem de longe um conhecido meu. E o fato de ser cego me incomodava. A ideia que eu tinha da cegueira vinha do cinema, cegos se movimentavam devagar e nunca riam. As vezes eram conduzidos por cães-guia. Um cego na minha casa não era uma coisa que eu pudesse aguardar com grande expectativa. Naquele verão em Seattle...