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Showing posts from May, 2018

AS LUAS QUE SE PASSARAM (uma ficção por Ademir Demarchi)

A Lua Crescente passou e a Lua Cheia se acabou ontem à noite. Sobre muitos dos que habitam a Terra elas terão deixado seus rastros indeléveis, que não se pode apagar. Perdidos a esmo por aí, alguns ainda devem caminhar trôpegos e bêbados, sem sequer imaginar que trem os atropelou. E se há dúvida sobre isso, há para ver o episódio “O mal da Lua”, que está no filme Kaos, dos Irmãos Taviani, que acabaram de ganhar em Berlim um Urso de Ouro pelo já esperado filme César deve morrer. Eles adaptaram contos de Luigi Pirandello em Kaos, em cujo livro diz: “Ao virar-se para correr até a casa, Sidora percebeu, aterrorizada, a Lua Cheia, abrasada, violácea, enorme, recém-saída das lívidas alturas da Crocca”. Pois essa Lua temível que se vê fulgurante no filme é ainda mais poderosa quando está em seus tons avermelhados e com cornos e os espalha sobre os humanos, graças aos desnorteios físicos e psicológicos que provoca. Sob seus efeitos, quem recebe seus eflúvios perde as estribeira...

O SILÊNCIO DA GASOLINA (por Marcelo Rayel Correggiari)

Pessoas numa praça domingo à tarde. A amedrontadora manifestação de ‘gate keepers’ em redes sociais. Um hino nacional envolto nas cores amarela e verde. O sistema da técnica que engole reputações: sob o nobre motivo de um país mais justo e menos corrupto, o discurso se refez pelos desejos obscuros de força e potência para as soluções de um caos antevisto e avisado. A democracia se resumiu a bater panelas, cantar hinos em praças e apertar teclas de urnas eletrônicas. Na perfeita impotência diante de gigantes bem maiores, a raiva nas formas de uma arregimentação política com base no “contra o humano” ganha seus primeiros contornos. A anomia no século XXI apresenta seu primeiro desafio: tornou-se uma bomba-relógio cujo desarme perpassa pela completa incompetência em descontinuar o inumano. Diante desse fracasso, esse fracasso pessoal e social, rangem-se os dentes e rosnam-se vídeos em mensageiros instantâneos. Desamor e desunião: as boas pessoas, pela técnica, matam. Cada...

TEATRO OFICINA:SÍMBOLO TRANZMODERNO (por Flávio Viegas Amoreira)

Da passagem da matéria-forma ‘a matéria-força:   um signo carregado de significados tendo ´´O Rei da Vela´´ como estandarte , o Teatro Oficina é metalinguagem para sua própria luta de ´desencanamento´ visceral   da civilização paulistana, no mínimo paulistana.   Deleuzianamente o Oficina não pensa ´isso ou aquilo´, - vibrátil pensa ´com´   todos instrumentos do devir, do instante que passa a partir e adentrando o magma mesmo das coisas apresentadas.    Máquina radicalmente desejante,   teatro- esponja, onívoro carregando por toda epiderme da urbe-entorno as inquietudes convergentes de tradição-vanguarda.   A epopéia pelo Bexiga é ela mesmo metalinguagem, intertextualidade do carma subversivo de sua tessitura aos solavancos da História de desconstrução dos macro-micro fascismos.   O fetiche tosco do progresso sempre com suas artimanhas para novo ´apartheid social´   :   a falácia da eficiência, do pragmatismo,   a ver...

O ESPÍRITO DA LETRA (um poema de Bruno Tolentino)

Ao pé da letra agora, em minha vida  há a morte e uma mulher... E a letra dela,  a primeira, me busca e me martela  ouvido adentro a mesma despedida  outra vez e outra vez, sempre espremida  entre as vogais do amor... Mas como vê-la  sem exumar uma vez mais a estrela  que há anos-luz se esbate sem saída,  sem prazo de morrer na luz que treme?!  O mostro que eu matei deixou-me a marca  suas pernas abertas ante a Parca  aparecem-me em tudo: é a letra M  a da Medusa que eu amei, a barca  sem amarras, sem remos e sem leme... Bruno Tolentino nasceu no Rio de Janeiro em 12 de Novembro de 1940. Conviveu desde crianças com intelectuais e escritores como Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto  Deixou o Brasil em 1964  para viver  na Inglaterra  por 30 anos  co mo professor  em O...

EDUARDO CAVALCANTI SAÚDA O NOTÁVEL TOM WOLFE EM PRÓXIMA PARADA

Eduardo Rubi Cavalcanti é jornalista desde a década de 80. Trabalhou em A TRIBUNA de Santos e em várias outras publicações.  É Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo e leciona Jornalismo na Unisantos, onde cursou sua graduação. Publica domingo sim, domingo não, em A TRIBUNA de Santos, a página PRÓXIMA PARADA, que reproduzimos aqui.

E TEMER ERA PIOR DO QUE SE IMAGINAVA... (por Alvaro Carvalho Jr.)

Alguns aspectos devem ser levados em conta com relação a essa inacreditável greve que completou uma semana este final de semana. O mais claro: acabou o governo Temer,   mais por sua fraqueza do que por seus atos. O presidente tomou muitas decisões importantes ao longo de seu governo que vieram para aliviar as contas do país e só não chegou onde deveria, muito mais pela inoperança de nosso Congresso do que outra coisa. Mas faltou pulso, faltou liderança e, principalmente, representatividade. Mas, definitivamente, Temer é bem pior do que se imaginava. Essa greve, anunciada alguns meses atrás, só explodiu por conta da irresponsabilidade da equipe presidencial e dele mesmo. O problema é que a incompetência dos auxiliares presidenciais é tão grande que nã dá para mesurar. Imaginem um presidente da República recebendo orientações e conselhos de figuras como Eliseu Padilha,   Moreira Franco e o inconcebível Carlos Marun. Ninguém merece...todos citados na Lava Jato, inclu...

A FALSA LOIRA (por Carlão Bittencourt)

A imaginação é a pipa  que se  pode empinar mais alto (Lauren Bacall) Mais do que um publicitário de sucesso, o herói desta história é uma lenda viva da propaganda brasileira. Criou a agência mais famosa dos anos 70/80 e, muito mais difícil, tratou de reinventá-la nos anos 90, em parceria com outros craques. O homem não é fraco. Seu nome é Alex. Alex Periscinoto. E esta passagem trata da sua imensa criatividade, que extrapola em muito o circuito da propaganda. Na época em que o fato aconteceu, Alex ainda estava longe de ser um poderoso dono de uma grande agência. Era, então, Diretor de Arte de uma grande loja de departamentos, em São Paulo. O Mappin. Alex era casado, mas não era santo. Depois, de trocar olhares com uma bela loira, colega de trabalho, o assunto prosperou. Bastante. E a dupla partiu para a criação de algo bem mais interessante do que um mero tablóide de ofertas. Acontece que o demo não pode ver ninguém feliz. Vacilou, o tinhoso a...

JOÃO e JEREMIAS - A PORRA DA HISTÓRIA (um folhetim beat de JR Fidalgo - 14ª de 16 partes)

CAPÍTULO XXIV Olhando para o mar, ele pensou que devia achar algo mais importante pra dizer a respeito da porra daquele mar. Mas não conseguia pensar em nada mais importante, além do fato daquela porra daquele mar banhar a porra da cidade onde ele viveu grande parte da porra da sua vida. Contudo, se alguém tinha mesmo que contar a porra daquela história, ele estava disposto a tentar. Por quê?  Ele não fazia idéia. Isso, contudo, não importava. Afinal, era apenas uma porra de uma história. Era preciso, porém, encontrar alguém para escrever a tal história, já que ele mesmo, por uma série de razões que agora não vinham ao caso, nunca faria isso. Mas quem faria isso, quer dizer, quem contaria aquela história? E que história era exatamente aquela? Estar naquela cidade novamente, depois de tanto tempo, era estranho e assustador. Se havia algo sensato a fazer, depois de tudo o que passara, era nunca voltar àquele lugar. Ironicamente, foi exatament...

UMA SAUDAÇÃO A PHILIP ROTH (publicado originalmente em 25 de Agosto de 2015)

por Chico Marques Estou feliz. Chegou ontem pelo Correio minha edição da Library Of America com a coleção completa dos escritos de Philip Roth em 10 volumes. Pretendo em breve começar a reler todos os romances que li -- às vezes em traduções, outras no original em inglês -- ao longo desses últimos 35 anos, sempre com imenso prazer. Dessa vez não num paperback qualquer, mas numa edição capa dura que, se não é exatamente luxuosa, chega bem perto. Sou admirador incondicional de Mr. Roth. Vibro com tudo o que ele escreveu. Não conheço nenhum outro romancista que me desperte esse tipo de sensação. É um estilista denso e admirável -- e o melhor romancista americano, judeu ou não, surgido no Século XX. Ouso dizer que ele é melhor que Dostoievski e Tolstoy juntos  (tem gente que vai querer me apedrejar por isso, mas tudo bem, eu aguento o tranco) . Philip Roth é uma figuraça. Quando afirmou à revista francesa Les Inrockuptibles que abandonaria a literatura em novem...