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Showing posts with the label leitura de fim de semana

O PALHAÇO (um conto de Alberto Moravia)

Naquele inverno, só para fazer alguma coisa, comecei a vagar pelos restaurantes tocando violão enquanto meu companheiro cantava. O companheiro chamava-se Milone apelidado "o professor" porque ensinara ginástica sueca. Tratava-se de um homenzarrão de mais ou menos cinquenta anos, não exatamente gordo, mas quadrado, com um rosto denso e ameaçador e um corpaço maciço que fazia com que as cadeiras rangessem quando se sentava. Eu tocava o violão do meu jeito, isto é, quase sem me mexer, com os olhos baixos, porque sou um artista e não um bufão; quem bancava o palhaço, ao contrário, era Milone. Começava meio sem querer, em pé, ereto, apoiado a uma parede, o chapeuzinho em cima dos olhos, os polegares sob a axila, a barriga fora das calças, o cinto embaixo da barriga: parecia um bêbado cantando ao luar. Depois, pouco a pouco, esquentava e, mesmo sem cantar de verdade, porque não tinha voz nem ouvido, acabava dando um espetáculo de si mesmo, ou melhor, como eu já disse, ...

O ROUXINOL E A ROSA (por Oscar Wilde)

– Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas não vejo nenhuma rosa vermelha no jardim. Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirao roudo... – Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – repetiu o Estudante, com os lindos olhos cheios de lagrimas. – Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida. E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte. – Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encon...

PARA ESMÉ, COM AMOR E SORDIDEZ (um conto de J D Salinger)

Outro dia recebi, por via aérea, um convite para um casamento que se vai realizar na Inglaterra, no dia 18 de abril. Acontece que eu gostaria muito de assistir a esse casamento e, quando o convite chegou, pensei em dar um jeito qualquer de fazer a viagem. Pegava um avião... e as despesas que se danassem. Mas desde então discuti exaustivamente o problema com minha mulher, que é uma moça espantosamente sensata, e nos decidimos contra a ideia: entre outras razões, tinha esquecido por completo que minha sogra esta planejando passar conosco as duas ultimas semanas de abril. Na verdade quase nunca vejo a mamãe Grencher, e os anos já lhe vão pesando. Esta com cinquenta e oito (como seria a primeira a admitir). Seja como for, quer eu afinal vá ou não, nunca fui dessas pessoas que, por mera preguiça, deixam que um casamento transcorra em meio à maior chatice. Por isso, pus mãos à obra e passei para o papel algumas observações reveladoras sobre a noiva, tal como conheci há quase sei...