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...E O BRASIL DESFILOU NU EM PLENA SAPUCAÍ (por Denise Marino)




Aos poucos a vida vai voltando ao normal, com uma preguiça danada.

Preguiça também da polêmica em torno do desfile da Tuiuti. Que é que tem? Foi bacana. Propuseram uma reflexão sobre as cicatrizes deixadas pela escravidão. Poderiam até ter aprofundado mais e visto como a própria preguiça e a aversão ao trabalho fazem parte da cultura brasileira e estão relacionadas ao passado escravista.

Em vez disso, questionaram a reforma trabalhista. Beleza! Colocaram o vice da Dilma vestido de vampiro. Achei engraçado. Ironizaram os manifestantes pelo impeachment? Sem problemas, direito deles. É assim nas democracias.

Que diferença! Antigamente não havia isso de democracia. No começo, quando as primeiras escolas de samba receberam o reconhecimento oficial, receberam também o “delicado” pedido de apoio à propaganda patriótica do governo. O chefe de Estado era o ditador e populista Getúlio Vargas.

E assim foi, sob censura e controle mesmo durante o curto período democrático entre o fim do governo de Getúlio e o início do governo dos militares. No governo militar então, nem se fala. As escolas eram obrigadas a enviar o samba e os croquis das fantasias para serem avaliados.

Aliás, foi nesse período que começou a ascensão da escola Beija Flor com enredos sobre a ordem e o progresso.

Lembrei da Beija Flor porque achei que, neste ano, as críticas da escola à corrupção foram ainda mais fortes e contundentes do que as da Tuiuti à reforma trabalhista. Esculhabaram do Petrolão a Sérgio Cabral.

Mas aí vem o jornalista Josias de Souza e informa que o patrono da escola, o contraventor Anísio Abrão David foi condenado a 48 anos de cadeia por corrupção. Está livre graças ao STF – que, pelo andar do carro alegórico, em breve, será enredo na Sapucaí.

E eu me lembrei também que, há 3 anos, a Beija Flor foi campeã com um enredo sobre a Guiné Equatorial, país que vive sob uma ditadura há mais de três décadas. A Guiné é rica em desigualdade e em petróleo. A Odebrecht e o Lula ganharam destaque numa história de suspeita de desvios de recursos do BNDES para financiamento de obras no país, mas não apareceram no enredo da escola de Nilópolis.

Enfim, são enredos muito complicados e que não combinam com a alegria do Carnaval. Mas eu não ficarei nem um pouco surpresa se descobrirem que a Tuiuti emprega pessoas sem carteira assinada.














Meu nome é Denise Mattos Marino,
mas fui sintetizada: Denise Marino
ou, simplesmente, Dê,
acompanhada ou não do Marino.
Sou historiadora e professora de história.
Atualmente aposentada – fui mais rápida
que a reforma. Mas ainda levo
para os meus aposentos a curiosidade,
o “só sei que nada sei”
e a vontade de ensinar.
Ah! Sou libriana.


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