Skip to main content

A FALSA LOIRA (por Carlão Bittencourt)



A imaginação é a pipa que
se pode empinar mais alto
(Lauren Bacall)


Mais do que um publicitário de sucesso, o herói desta história é uma lenda viva da propaganda brasileira. Criou a agência mais famosa dos anos 70/80 e, muito mais difícil, tratou de reinventá-la nos anos 90, em parceria com outros craques. O homem não é fraco.

Seu nome é Alex. Alex Periscinoto. E esta passagem trata da sua imensa criatividade, que extrapola em muito o circuito da propaganda.

Na época em que o fato aconteceu, Alex ainda estava longe de ser um poderoso dono de uma grande agência. Era, então, Diretor de Arte de uma grande loja de departamentos, em São Paulo. O Mappin.

Alex era casado, mas não era santo. Depois, de trocar olhares com uma bela loira, colega de trabalho, o assunto prosperou. Bastante. E a dupla partiu para a criação de algo bem mais interessante do que um mero tablóide de ofertas.

Acontece que o demo não pode ver ninguém feliz. Vacilou, o tinhoso atrapalha a vida do alheio.

Depois do dever cumprido, Alex estava saindo do hotel com a loira. De repente, no meio do trânsito viu o cunhado, no carro ao lado. Rápido, cumprimentou o contraparente e pegou a primeira rua à direita, sem que o outro pudesse ver o rosto da jovem.

Antevendo os problemas que teria pela frente, posto que o cidadão era um tremendo dedo duro, Alex deixou a garota num ponto de táxi e voltou ao trabalho. Na loja, pegou um manequim feminino e tratou de deixá-lo o mais parecido possível com a sua acompanhante. A começar por uma peruca loira, quase igual aos cabelos da moça. Feito isso, colocou a boneca gigante no banco da frente do carro e foi para casa. Sua cara era a imagem da pureza. Um santo.

Mal tinha aberto a porta e a bronca começou. Feia. Sua mulher, já envenenada pelo irmão, via telefone, pois o celular ainda não era nem projeto, ela só não lhe disse boa noite. O resto foi serviço completo. Esculhambou o marido.

Com a maior cara de inocente, Alex negou tudo. Lógico. Disse que havia saído do trabalho, passado num fotógrafo para pegar uns cromos e, de lá, ido diretamente para casa. Só isso, mais nada. Não adiantou. A patroa estava mesmo virada num siri. E continuou a espinafração.

Quando a expressão loira oxigenada foi proferida pela enésima vez, Alex virou a mesa. Soltou uma gargalhada gostosa e disse à esposa ofendida que sabia exatamente o que tinha acontecido. E que tudo não passava de um mal entendido. Bobo. Tranqüilo, convidou-a para ir à garagem.

Assim que chegaram junto do carro, disse, apontando para o manequim:

"Pronto, querida, eis a sua Marilyn Monroe!!!"


Carlão Bittencourt
é redator publicitário
e cronista.
É autor de
"Pela Sete - Breves Histórias do Pano Verde"
(2003, Editora Codex),
um mergulho no universo
dos salões de bilhar de São Paulo.

Comments

Popular posts from this blog

VINGANÇA (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.

A SURRA DE PICA QUE MEU IRMÃO DE DEU (um conto devasso de Emmanuelle Almada)

Meu nome é Sara e sempre fui uma menina muito caseira. Morava em um sítio no interior do Rio Grande do sul, e levava uma vidinha bem pacata. Cedo pela manhã eu tirava leite das vacas, alimentava os animais e fazia comida para meu pai e meus irmãos: um de 12 e outro de 14 anos. Sempre cuidei deles. Minha mãe morreu quando ainda eram muito pequenos, e eu assumi as responsabilidades da casa, mesmo sendo ainda uma menina. Nossa casa ficava longe da cidade mais próxima e para mim era praticamente impossível sair de lá para fazer qualquer coisa, daí vivia praticamente confinada naquele lugar. Meu pai é que saía, às vezes acompanhado por um dos meus irmãos, para levar leite para alguns mercadinhos da cidade, e passavam o dia inteiro fora. Eu ficava em casa cuidando do meu irmão menor, que era muito apegado a mim, me seguia onde quer que eu fosse. Era um menino franzino, de pele pálida e cabelos lisos, negros. Eu admirava a ingenuidade daquele anjo, sempre muito prestativo e car...

DOMADA PELO SEXO (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.