O REAL E O ARTIFÍCIO por Bruno Carmelo para ADORO CINEMA No filme A Idade do Ouro (1930), um homem passeia pela cidade e, sem razão aparente, agride um morador de rua. O diretor Luis Buñuel confessou, mais tarde, que sempre foi perturbado pela presença de mendigos, porque eles o faziam sentir culpado por ter uma boa condição de vida. Este incômodo, de certo modo, constitui o tema de Fome , produção de Cristiano Burlan que analisa a inserção de um morador de rua (Jean-Claude Bernardet) na cidade de São Paulo. Burlan constrói sua tensão pelo combate de opostos: os longos planos acompanhando o personagem indicam um registro realista, mas a fotografia em preto e branco impecável remete à ficção. Por um lado, moradores de rua reais prestam depoimento à câmera, em tom documental, mas os registros são feitos a uma pesquisadora fictícia (Ana Carolina Marinho) coletando dados para uma tese. Por um lado, transeuntes reais do centro de São Paulo encaram a câmera, revelando o dis...
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