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Wednesday, December 28, 2016

LEVA UM CASAQUINHO ESCOLHE OS DEZ MELHORES FILMES DE 2016 (por Chico Marques)

1. A JUVENTUDE (Paolo Sorretino)
Depois de um filme repleto de superlativos como A Grande Beleza, ninguém imaginava que Paolo Sorrentino retornasse com um filme ainda mais contudente. E não é que ele fez justamente isso? A Juventude traz Michael Caine e Harvey Keitel como dois velhos amigos que enxergam a velhice por ângulos diferentes. Enquanto Caine faz um músico renomado que só quer curtir em paz seus últimos dias mergulhado no tédio -- a ponto de esnobar um convite da Rainha Elizabeth --, o segundo é cineasta e pretende realizar seu último filme, uma espécie de longa-testamento protagonizado pela atriz que lançou 50 anos atrás -- Jane Fonda, em uma aparição hipnotizante e inesquecível. Rachel Weisz, interpreta a atormentada filha do músico, e é seu personagem que ajuda a equilibrar essa história com doçura, conflito e afeto. O filme lança olhar irônico e ferino não só para a velhice ou a juventude, mas para a vida em si, incluindo aí a fogueira das vaidades do mundo do show business. É uma obra repleta de lirismo, com roteiro preciso e intenso, cercado de imagens deslumbrantes para onde quer que o espectador olhe, e com personagens desempenhados por atores próximos à perfeição. Paolo Sorrentino é, sem sombra de dúvida, o cineasta europeu mais talentoso de sua geração. E A Juventude é um filme fundamental para que as mulheres entendam melhor os homens. E também para que os homens se situem melhor no tempo e no espaço de suas existências.
2. ANOMALISA (Charlie Kaufman)
Assim como acontece em A Juventude, Anomalisa é um filme intensamente masculino. O atormentado Michael Stone (voz de David Thewis) é um palestrante motivacional que acaba de chegar à cidade de Connecticut. Ele segue do aeroporto direto para o hotel, onde entra em contato com um antigo caso para que possam se reencontrar. A iniciativa não dá certo, mas Michael logo se insinua para duas jovens que foram ao local justamente para ver a palestra que ele dará no dia seguinte. É quando ele conhece Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh), por quem se apaixona. Trata-se uma história de amor irrealizado absolutamente melancólica que se desenvolve num tom agridoce rumo a um desfecho surreal. E de um filme de animação absolutamente único na história do cinema. Mesmo quem é fã de carteirinha do trabalho de Charlie Kaufman vai se surpreender com Anomalisa. Positivamente, com certeza. 
3. CAROL (Todd Haynes)
Chega a ser inusitado ver nos dias de hoje um filme como Carol, que mostra de forma delicada e paulatina, mas contundente, o romance entre duas mulheres de backgrounds sociais diferentes dentro das regras sociais dos Anos 50. A jovem Therese Belivet (Rooney Mara) tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos. Um dia, ela conhece a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha. Carol, que está se divorciando de Harge (Kyle Chandler), também não está contente com a sua vida. As duas se aproximam cada vez mais e, quando Harge a impede de passar o Natal com a filha, Carol convida Therese a fazer uma viagem pelos Estados Unidos. O canadense Todd Haynes faz maravilhas com a história de Patricia Highsmith, e realiza mais um filme magnífico. E que elenco ele reuniu! Eque interpretações ele conseguiu desses atores! Um grande e belíssimo filme.

4. CAFÉ SOCIETY (Woody Allen)
Bobby (Jesse Eisenberg) abandona o trabalho de joalheiro com o pai no Brooklyn, NY, para sonhar com uma carreira em Hollywood, ao lado do tio materno, Phil (Steve Carrell), um agente de sucesso. Bobby é o próprio jovem ingênuo, cheio de sonhos, que o contato com a realidade vai esculpindo aos poucos e à sua revelia. Sua guia inicial nesse ambiente é Vonnie (Kristen Stewart), a secretária que o tio designa para aclimatá-lo na selva do cinema, ensinando-lhe os nomes das feras. Mas Bobby se apaixona por ela, sem imaginar que ela é amante do tio, casado há 25 anos. Tio e sobrinho vivem esse triângulo amoroso sem saber, até que surge um momento em que se exige uma decisão dela. Decisão feita, Bobby volta para Nova York, passa a trabalhar administrando os negócios do primo mafioso, e vira uma personalidade na cidade. Mas quando reecontra Vonnie, percebe que um buraco enorme ficou aberto em sua vida. Um filme admirável de Woody Allen: agridoce na medida certa, charmoso na medida certa, e absolutamente bem equilibrado. Tem um padrão de perfeição em Café Society. Veja e comprove.
5. AVE CÉSAR (Joel & Ethan Coen)
A história se passa no período de um dia, no auge do clima da paranoia anti-comunista dos anos 1950, quando a principal estrela dos estúdios Capitol Pictures, Baird Whitlock (George Clooney) – , é sequestrada bem no meio das filmagens da superprodução de época chamada... "Ave, César!". Caberá ao leão-de-chácara da companhia, Edward Mannix (Josh Brolin) trazer o artista são e salvo de volta ao set naquele mesmo dia. Uma premissa deliciosa que acaba rendendo mais um filme extremamente inusitado na carreira dos Irmãos Coen. Uma espécie de "madcap comedy" em tom menor, ou coisa que o valha. Não perca.
6. JULIETA (Pedro Almodóvar)
O longa acompanha uma mulher de meia idade prestes a recomeçar sua vida com um novo namorado em Portugal, até que encontra com uma antiga amiga de sua filha, que coloca a protagonista num espiral de lembrança. O espectador, logo após esse encontro casual, é transportado para esse turbilhão de emoções e memórias marcado por flashbacks, e Julieta é exatamente sobre essa presença do passado que faz seus personagens reféns do tempo e da vida. Essa obsessão é notada como os flashbacks vão se tornando cada vez mais constantes até dominarem completamente a linha narrativa do longa. O passado toma conta de Julieta e do longa também. e nos envolve em seu fluxo da memória e em sua loucura maternal. Um mergulho maduro e intenso no universo feminino, sem o humor habitual de Almodóvar, mas com uma grandeza de espírito contundente. Um ítem incomum na filmografia do grande diretor espanhol.
7. A GRANDE APOSTA (Adam McKay)
Michael Burry (Christian Bale) é o dono de uma empresa de médio porte, que decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, já que nunca antes alguém havia apostado contra o sistema e levado vantagem. Ao saber destes investimentos, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Paralelamente, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda a um guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso. Com certeza, o melhor filme sobre a quebradeira da Wall St. realizado até agora. Quem não viu ainda, precisa ver.
8. SPOTLIGHT (Tom McCarthy)
Baseado em uma história real, o drama mostra um grupo de jornalistas do Boston Globe que reúne milhares de documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças, causados por padres católicos. Durante anos, líderes religiosos ocultaram o caso transferindo os padres de região, ao invés de puni-los pelo caso. Não é exagero algum afirmar que este é o melhor filme sobre o meio jornalístico desde The Paper (1994), pequena obra-prima de Ron Howard com Michael Keaton.
9. MOGLI O MENINO LOBO (Jon Favreau)
Impressionante como Jon Favreau conseguiu acertar a mão nesta animação criada a partir do desenho clássico da Disney. A trama gira em torno do jovem Mogli (Neel Sethi), garoto de origem indiana que foi criado por lobos em plena selva, contando apenas com a companhia do urso Baloo (Bill Murray) e da pantera negra Bagheera (Ben Kingsley), sem nenhum contato com humanos. O menino é amado pelos animais, mas visto como uma ameaça pelo temido tigre Shere Khan (Idris Elba), que está decidido a matá-lo. Com a família de lobos ameaçada, Mogli decide se afastar. Baseado na obra de Rudyard Kipling. Um filme delicioso. Com certeza, o grande filme-pipoca familiar de 2016.
10. STAR TREK SEM FRONTEIRAS (Justin Lin)
O terceiro episódio com o elenco atual da série não deixa absolutamente nada a desejar em relação aos dois anteriores. Desta vez, Kirk (Chris Pine), Spock (Zachary Quinto) e a tripulação da Enterprise encontram-se no terceiro ano da missão de exploração do espaço prevista para durar cinco anos. Eles recebem um pedido de socorro que acaba os ligando ao maléfico vilão Krall (Idris Elba), um insurgente anti-Frota Estelar interessado em um objeto de posse do líder da nave. A Enterprise é atacada, e eles acabam em um planeta desconhecido, onde o grupo acaba sendo dividido em duplas. Com mais ação que os dois filmes anteriores e com passagens extremamente bem humoradas fazendo contraponto ao climão "space opera" original da série, Star Trek Sem Fronteiras é um acerto e tanto. Garantia de que este elenco ainda há de render mais dois ou três filmes para a série.




Tuesday, August 30, 2016

AS IMPRESSÕES DE FÁBIO CAMPOS SOBRE "CAFÉ SOCIETY", O NOVO FILME DE WOODY ALLEN



Sempre procuro evitar spoilers, mas, nesse caso, as conclusões podem levar a pistas sobre o desenrolar do filme. Portanto, mais uma vez, recomendo a leitura depois de assistir ao filme.

Woody Allen é, sem duvida, o mais bem-sucedido caso de cineasta autoral da história. Consegue entregar quase que anualmente o sonho de todo o cineasta, um filme com total controle criativo e nenhuma preocupação com bilheteria. Com uma carreira longa e prolífica fica difícil não ser repetitivo. Particularmente enxergo os filmes europeus como um respiro, mas foram tantos que a volta pra casa acaba gerando um novo respiro. Talvez por isso, Café Society seja o mais divertido dos seus filmes em anos. Só rivaliza com Tudo Pode Dar Certo, mas esse era uma comédia rasgada (coincidentemente se passava em Nova York) e Café Society está mais para comédia romântica.

Bobby (o cada vez melhor, Jesse Einsenberg) é o filho mais novo de uma família judia de Nova York que cansa da vida monótona que é trabalhar com o pai e resolve tentar a vida em Los Angeles. Para isso procura o tio (o sempre bom Steve Carell), agente bem-sucedido na Hollywood dos anos 30, a procura um emprego. Depois de muita insistência, consegue o emprego e, de quebra, uma cicerone em LA, Vonnie (Kristen Stewart, deslumbrante). Obviamente Bobby acaba se apaixonando por Vonnie, mas ela tem um namorado nada presente. Bobby logo se cansa da superficialidade de LA, quer casar com Vonnie e voltar a NY.

A história é, como sempre ultimamente, uma desculpa elegante para o desfile das neuroses, cinismos e ironias de Woody, além de um confronto entre LA e NY que é uma covardia. NY não aparece tão linda no cinema desde Manhattan, enquanto LA se resume a casas de celebridades e restaurantes sem charme. Todo o glamour das cenas em LA se resume a Kristen Stewart, sempre mostrada como a única coisa luminosa em cena, enquanto NY é um cenário deslumbrante onde, talvez por isso, ninguém se destaque.

Há tempos não vejo tanto cinismo e a auto ironia como nesse filme. Apresar de sempre se auto depreciar em seus filmes, Woody nunca foi tão debochado com si mesmo quanto com o personagem do intelectual. Aquele que consegue ser profundo sobre tudo, mas incapaz de resolver problemas banais do cotidiano. A contrapartida com o gangster – o excelente Correy Stoll, que vem aparecendo cada vez mais desde que foi o Peter Russo de House of Cards – que resolve tudo sem pensar em nada é hilária. As habituais observações cínicas sobre religião nunca estiveram tão afiadas, arrancando gargalhadas da plateia.

Mas é a visão cínica do casamento que transborda no filme. Todos os casais do filme são mostrados de forma monótona e\ou neurótica. Até personagens encantadores e sedutores se tornam monótonos e apagados após o casamento. Não à toa, nessa visão, o único casal interessante do filme não tem filhos e é, obviamente nova-iorquino. Com tanto cinismo o filme não poderia terminar com conclusão melhor: o amor que nos trás as melhores lembranças é aquele não consumado.












CAFÉ SOCIETY
(Cafe Society, 2016, 96 minutos)

Roteiro e Direção
Woody Allen

Direção de Fotografia
Vittorio Storaro

Elenco
Jesse Eisenberg
Kristen Stewart
Steve Carell
Parker Posey
Blake Lively
Corey Stoll
Jeannie Berlin
Ken Stott
Tony Sirico

em cartaz no
Roxy Iporanga 4
e no Cinespaço Miramar Shopping





Fábio Campos convive com filmes
desde que nasceu, 49 anos atrás.
Seus textos sobre cinema passam ao largo
do vício da objetividade que norteia
a imensa maioria dos resenhistas.
Fábio é colaborador contumaz
de LEVA UM CASAQUINHO.






Thursday, August 25, 2016

DUAS VIDEO-ENTREVISTAS COM WOODY ALLEN SOBRE SEU "CAFÉ SOCIETY", QUE ESTREIA HOJE




  


ENTREVISTA CONCEDIDA
AO WEBSITE OMELETE

O quanto a figura de Bobby, um roteirista em busca de um lugar ao sol na indústria, reflete um pouco do seu próprio passado no cinema?

Ele não é um espelho do que eu fui e sim um elemento de um conto moral sobre deslumbramento com um mundo de glamour. Jesse Eisenberg é um ator excelente que tem autonomia criativa suficiente para fazer as escolhas certas em relação ao personagem que eu ofereci a ele: um homem que está aprendendo a lidar com o estrelato. E aquele é um universo cruel. Basta você mergulhar na literatura de F. Scott Fitzgerald, o autor de O Grande Gatsby, que trabalhou no cinema nesse início do século XX, para entender a selvageria que foi a Era dos Estúdios. Ali, ideias eram propriedades das grandes companhias cinematográficas, não dos diretores. Já eu sou fruto de um tempo onde os filmes são responsabilidade dos cineastas. A diferença é que, no meu caso, só o que eu faço é deixar quem sabe de verdade sobre cinema trabalhar em paz, ou seja, os fotógrafos, os atores...

O que levou o senhor a esta Hollywood clássica, aos anos 1930?

Eu não sou uma pessoa saudosista, daquelas que consideram o passado um lugar perfeito. Não gostaria, por exemplo, de ter vivido em um mundo onde não houvesse penicilina. Mas eu tive Hollywood como minha babá e nada pode mudar isso. O que acontece aqui é algo relativo à tradição: se você quiser entender como o cinema se estabeleceu como indústria, precisa revisitar a época na qual os estúdios mandavam na criação, tendo peixinhos pequenos do processo artístico nadando entre tubarões. Os agentes dos estúdios, por exemplo, eram figuras de muito poder, com secretárias lindas como estrelas de cinema. Era esse clima que eu queria. Um clima no qual obras-primas foram geradas.

Mas como o senhor se reportou ao cinema americano dos anos 1930 na hora de construir a narrativa? Houve diálogo com algum cineasta específico daquela época para criar a linguagem do filme?

Essa linguagem veio da literatura, porque eu tentei construir um filme que se parecesse com um romance sobre relações familiares e satélites amorosos. No fundo, Café Society é sobre como a família de Bobby se estrutura e se redefine conforme ele amadurece. E essa estrutura de romance seria melhor delineada se eu fizesse um filme narrado. E narrado por mim mesmo, já que eu, como autor, sou uma espécie de escritor dessa história.

Entra década, sai década, em seus 50 anos de cinema, e o senhor está sempre falando do amor. O que de novo para se falar sobre o verbo amar?

Talvez eu seja um romântico, uma vez que eu fui educado pelo cinema, num tempo onde a gente crescia às voltas com histórias de amor. Tenho certeza de que eu não sou um romântico como os personagens do Clark Gable, um ator que em E o Vento Levou... e tantos outros filmes encarnou um ideal romântico épico. Eu sou um romântico que erra, que vacila... mas alguém com a percepção de que amar pode ser divertido e doloroso. Aliás... todas as histórias têm algo de cômico e um quê de dor. O que vai prevalecer? Bom... isso vai depender da maneira como se encara a vida. E a palavra “amor”, indefinível para mim, ela pode ter vários sentidos. Um amigo é um indício de amor. Pais e mães amam... do jeito deles. Eu não tenho mais idade para ter certezas absolutas. Aos 80 anos, eu só tenho a certeza de que é bom fazer exercício físico e comer direitinho.

Existiria um “método Woody Allen” de dramaturgia? Como o senhor escreve seus roteiros?

Não tem método. Tem um processo de guardar ideias. Às vezes, eu tenho uma ideia, rascunho e guardo na gaveta. Um dia, ao mexer nas anotações, percebo que aquela tal ideia esparsa pode caber num projeto que estou começando. O que vale é a atenção à equipe. Eu tento me cercar dos melhores. Neste filme, por exemplo, vi que o Vittorio Storaro estava livre e resolvi convidá-lo. Tive a sorte de ele aceitar. Daí é só deixar ele fazer o trabalho dele e não atrapalhar.














CAFÉ SOCIETY
(Cafe Society, 2016, 96 minutos)

Roteiro e Direção
Woody Allen

Direção de Fotografia
Vittorio Storaro

Elenco
Jesse Eisenberg
Kristen Stewart
Steve Carell
Parker Posey
Blake Lively
Corey Stoll
Jeannie Berlin
Ken Stott
Tony Sirico

em cartaz no
Cinespaço Miramar Shopping
e no Roxy Iporanga 4