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Showing posts with the label Realejo Livros e Edições

NEM UM FOGUINHO (por Ademir Demarchi)

“Ao fim da vida, depois de dedicá-la à física e ganhar um Prêmio Nobel, o cientista Richard Feymann disse: ‘vivemos num universo misterioso e sem nenhum propósito’”. A frase, lida numa revista semanal, parecendo propositadamente misturada ao noticiário político, ficou ecoando na cabeça do ginecologista aposentado Dr. Aranha, atualmente ornitólogo e filósofo improvisado depois de dedicar-se uma vida à zoologia no consultório de madames. Também se vislumbrando uma espécie de inseto ainda não identificada por si próprio, no fim da vida tentava fazer a mesma constatação que Feymann, enquanto dava frutas e alpistes aos pássaros de sua gaiola tropical. Passou a tarde entre as duas funções. “O que intriga não é o mistério, que, afinal, move a curiosidade humana e dá um sentido à vida. Onde há mistério há um curioso. O problema está na falta de propósito do universo, da vida...” Banhara-se, ceara, dormira, acordara, fez o desjejum e eis ainda a remoer o mistério e a falta de sentido...

CUCARACHAS (por Ademir Demarchi)

Ir para os Estados Unidos pela primeira vez é algo que se deve planejar, pois se há uma coisa que americano tem é obstáculo pra marinheiro de primeira viagem. Começa que o pedido de visto tem que ser agendado num site confuso e cheio de janelas estranhas. Depois de se ler uma série de recomendações parte-se para o preenchimento de um interrogatório de fazer criança rir, pois há questões que nos soam tão ingênuas quanto “você tem algum desajuste mental?” ou “você cometeu abuso de drogas?” ou “você participou de algum tipo de tortura ou ato de violência?” E por aí vai, fazendo que o interrogado se perguntar se é a si próprio que se está considerando um tonto ou eles é que são mentalmente simplificados, digamos assim. Depois que se passa por várias páginas desse formulário que tem até tutorial de preenchimento, chega-se ao boleto salgado que chapa o sujeito em 160 dólares para obter o visto. Feito isso, faz-se um agendamento da primeira entrevista, pois é bom que se diga: há duas. En...

AS FOCAS AMESTRADAS DE NABOKOV (por Ademir Demarchi)

O enredo de "Gargalhada na Escuridão", romance de Nabokov, é descrito por ele mesmo, já de cara nos dois primeiros parágrafos, com uma banalidade atroz: “Era uma vez um homem chamado Albinus, que vivia em Berlim, Alemanha. Era rico, respeitável, feliz. Um dia abandonou a esposa por uma amante jovem. Amava-a; não era amado – e sua vida terminou em desastre." Eis aí toda a história, e bem poderíamos abandoná-la neste ponto, se não houvesse vantagem e prazer em contá-la. Embora haja espaço mais do que suficiente numa pedra tumular para conter, encadernada em musgo, a versão resumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem recebidos”. Nabokov, narrador sagaz, começa então a alinhavar o enredo, se detendo com ironia num meio intelectual de artistas, escritores e músicos medíocres, oportunizado pela pretensão da amante de Albinus virar atriz de cinema. Ingênua, ignorante, ambiciosa até mesmo em querer para si a casa da esposa de Albinus, ela atinge...

A MAIS BELA MULHER (por Ademir Demarchi)

As mulheres estão escravizadas pelos ditames da cultura contemporânea, que combina narcisismo e consumo com culto à superficialidade. São condenadas a se olharem ao espelho à procura de alguém parecida, por exemplo, com os traços esguios, os belos cabelos de lisas ondulações perfeitas, o sorriso, o charme de Giseles Bündchens. O espelho não mente e não é uma outra dimensão borgiana por onde se possa entrar. Ao se olharem e encontrarem uma “outra”, mesmo que com todas as qualidades, que recusam por não ser a idealizada, ganham seu bilhete para o inferno diário das seguidas trocas de roupas, estica-e-puxas, pinturas, penteados, tinturas, cremes, perfumes, e sabe-se lá mais o que andam inventando para tapar esse buraco sem fundo preenchido por coisas das quais paradoxalmente se tornaram apêndices – às quais se somam, é claro, quando há um homem por perto, seguidas perguntas de “está bom assim?” ou “fiquei bem?” O sintoma disso está presente nas ruas, no crescente e já exorb...

ALEGORIAS DO INTENSO RUMOR QUE SE OUVE (por Ademir Demarchi)

O vozerio está intenso, as notícias chegam mudando o sentido das coisas a cada hora, de tal modo que o que se entendia como uma realidade aceitável e possível na semana passada, hoje, visão envelhecida, deixou de valer totalmente ou sofreu uma mudança importante que altera o modo como podemos ver as coisas. Lendo os jornais constatamos que estamos no olho do furacão que está em todos os lugares, e isso vale para aqui, ali, lá e para o Planeta. Trata-se, verdadeiramente, sugere a mídia, de um furacão multifacetado e ambíguo, uma medusa andrógina e colorida de víboras ciclópicas e brilhantes que coloca a todos no limite da angústia e da opressão, a um passo de uma crise de nervosa e estresse. Daí talvez o pendor de muitos de buscar nas religiões das prateleiras de credos um conforto estofado e colorido como um sofá das casas Bahia. Todos odeiam apaixonadamente e amam odiosamente a ponto de alguém já ter constatado que todo esse ódio gerará muitos cânceres prolíficos, cujo tratamen...

DESCASAMENTOS (por Ademir Demarchi)

Sempre se fala que o brasileiro é o mais festeiro do mundo, apesar de ultimamente o mal humor estar causando a diminuição das festas. Que é festeiro, todos sabem, basta lembrar da imensa folia do carnaval, as festas coloridas das copas do mundo e uma infinidade de outras pelo país. Mas há um tipo de festa em que o brasileiro anda imbatível: as de casamento. Nesse quesito, os brasileiros arrombam, adoram um espetáculo e gastam os tubos nele. E a coisa cresceu tanto que as festas aspiram ser um grande espetáculo da Broadway ou uma apoteose do carnaval. Tem cenário, roteiro e uma equipe de técnicos e produtores que não para de crescer. Há casal que improvisa entrando nos cenários de motocicleta, arriscando cheirar a óleo, ou até de cavalo alazão branco, arriscando uma bela defecada verde vegetariana, mas ainda assim de cheiro questionável e bem no meio do salão. E há quem precise de técnico para encontrar helicóptero, avião, paraquedas, disco voador... Estes dias vi cenas de ...

CENAS URBANAS NUM DIA E NO OUTRO (uma crônica de Ademir Demarchi)

I - Numa manhã, ao sair do prédio, um flamboyant enche os olhos e a rua, saindo da calçada como um imenso volume verde que se espalha em longos galhos de folhas e flores enternecendo os que passam com a sensação física de cruzar sob ele, benzidos por seus braços sobre as cabeças. Ele está ali desde sempre, porém hoje a incidência de luz especial proporciona uma majestade inesperada. O impacto de sua visão não cessa e se transfere, enquanto se transita, como uma continuada sensação de ver novos seres verdejantes pelas ruas, que entram pelos olhos, não por suas particularidades, mas pela massa e volume de verde vistosos. Noutra manhã, ao sair do prédio, o flamboyant é apenas o tronco e alguns galhos mais grossos que restaram, amputado de sua massa verde e dos galhos que, sem impedir o trânsito, se debruçavam sobre a rua. Os pássaros que nela habitavam ou faziam algazarra, sumiram. Os prédios azulejados estão à vista, toda a beleza se foi, roída pela incompetência administrativa mu...

TEMPO DE BUSCA DE CRISTO EM OVO (por Ademir Demarchi)

publicado originalmente em 23-03-2016 no Diário do Norte do Paraná, de Maringá Com a crise se tornando rotina, o judiciário tira folga pascoal de semana inteira para procurar Cristo em ovo, isso que mal saíram os juízes de uma emendada federal de 20 dias entre natal e ano novo, mais outra no carnaval, fora férias e licenças prêmio. A toga não se toca. Ganhadores dos mais altos salários do país, acima dos tetos constitucionais, graças a jeitinhos criados para burlar essa lei, eles se somam aos políticos nessa benesse paga por nós, ganhando “salários” de vinte mil a oitenta mil reais. Justiça no Brasil é coisa de fantasia divina, daí que as velhinhas religiosas atingidas pelo vazamento daquela barragem amadora da Samarco devem estar dizendo em Minas que “ela tarda mas não falha”, referindo-se à tragédia que atingiu Roger Agnelli, que morreu com toda sua família numa queda de avião neste sábado. Ele era um dos responsáveis pela exploração ávida de minério e, indiretamente, por cons...

VENDO MEU CORPO (por Marcus Vinícius Batista)

A gripe, sobrinha da dor de garganta e neta da alergia respiratória, me fez tomar uma decisão: colocar meu corpo à venda neste feriado de Corpus Christi. Não me entenda mal. Jamais ousaria me comparar ao corpo mais famoso neste dia santo. É mais senso de oportunidade, de acompanhar tendências e comportamentos. Nada de crise, é trabalho. Apenas quero aproveitar o momento para fortalecer a estratégia do negócio. Até porque o Corpus eterno opera milagres e tem índole irrepreensível. O meu corpo, por outro lado, apenas se levanta todos os dias para trabalhar. E vem impregnado de defeitos e vícios. Antes de discutirmos o preço, acho importante falar sobre o produto. A área é grande, seja na extensão ou na largura do terreno. O metro quadrado já foi 30 quilos maior; em compensação, hoje o solo é mais estável, com alguns desníveis e pedaços de terra fofa, nada que uma reforma - ou repaginada - não seja capaz de dar jeito. A compra é investimento e, claro, exige adaptações ao novo p...

LAÇOS EM RECLUSÃO (por Ademir Demarchi)

O México é um país maravilhoso, de cultura estranhíssima. Sua sociedade também e talvez por isso não saia das manchetes pelos motivos mais banais e também engraçados. Se alguém perguntar o que vem à mente em primeiro lugar, corremos o risco de ouvir que será o Chaves, o querido super herói dos jovens irreverentes, Chapolim Colorado, ou as novelas mexicanas, verdadeiros dramalhões que o SBT tornou populares por aqui, com mulheres carregadas de cosméticos e lágrimas e parecendo tão mal feitas diante do padrão Globo que, parecidas com o Chapolin, caíram no gosto por engraçadas. Tal como as lutas livres ou Telecatch, que foram muito populares no Brasil nos anos 1960/70, mas que em verdade vieram do México, onde existem até hoje. Fantomas, o Múmia ou o Homem Montanha, todos eram inspirados nos mascarados mexicanos, que usavam uniformes muito mais estilizados que os daqui. Esses lutadores se foram e nos restaram hoje em dia os picolés mexicanos, que nada têm a ver com os verdadeiros, ...