Skip to main content

'CASADENTRO": UM RETRATO MELANCÓLICO SOBRE A SOLIDÃO DA MATERNIDADE

por Marcelo Hessel
para Adoro Cinema


Longa-metragem de estreia da roteirista e diretora Joanna Lombardi, o peruano "Casadentro" faz, a meia distância e sem pressa, ao longo de um dia e meio, um melancólico retrato sobre a solidão de ser mãe - um fardo que, no filme, reflete divisões sociais.

Às vésperas de completar 81 anos, Pilar tenta se manter ocupada. O filme começa quando ela levanta de madrugada para descongelar a geladeira, o que logo desperta a governanta Consuelo, a empregada Milagros e a cadela Tunda. As três mulheres moram com o cachorro numa enorme casa provincial, onde o que não faltam são pequenas tarefas banais para manter essa ilusão de importância, de pertencimento.


A câmera de Joanna Lombardi preserva a meia distância porque, no seu julgamento, os close-ups são importantes demais para ser desperdiçados - e quando "Casadentro" decide usá-los seu efeito dramático aumenta. Um desses momentos é quando Milagros está tirando a poeira dos móveis da sala e pega na mão uma fotografia em preto e branco, provavelmente de Pilar na adolescência, sorrindo. O close-up não deixa dúvidas: essa alegria do passado, como tantas outras coisas trancadas a chave nos armários do casarão, não tem lugar no presente.

O começo do filme dá a entender que seria sobre a velhice, sobre a inevitabilidade das coisas, esse luto velado que não ousa dizer seu nome. Mas então Pilar recebe um telefonema; uma de suas filhas liga para avisar que está vindo da capital Lima e passará a noite no casarão, levando consigo a neta e a recém-nascida bisneta de Pilar. E eis que mesmo a jovem mãe já parece esgotada com excessos de zelo e com falsas preocupações, agarrando-se a memórias dos tempos mais felizes que os cheiros da casa lhe trazem.


É quando percebemos que as mulheres de "Casadentro" não estão sofrendo de um mal-estar hereditário apenas, o vazio deixado por uma vida dedicada aos filhos, mas principalmente de um mal social. A onipresença da empregada Milagros em todos os lados da casa - aflita com seu celular no bolso para se comunicar com o mundo lá fora, verdadeira prisioneira das chaves do castelo - é suficiente para pontuar: "Casadentro" é menos um filme sobre os dilemas da maternidade do que sobre uma certa aristocracia latino-americana que não reconhece seu ocaso.

CASADENTRO
(Casadentro, 2013, 87 minutos)

Direção e Roteiro
Joana Lombardi

Elenco
Élide Bueno
Grapa Paola
Aneliese Friedler
Giovanni Ciccia





Comments

Popular posts from this blog

VINGANÇA (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.

A SURRA DE PICA QUE MEU IRMÃO DE DEU (um conto devasso de Emmanuelle Almada)

Meu nome é Sara e sempre fui uma menina muito caseira. Morava em um sítio no interior do Rio Grande do sul, e levava uma vidinha bem pacata. Cedo pela manhã eu tirava leite das vacas, alimentava os animais e fazia comida para meu pai e meus irmãos: um de 12 e outro de 14 anos. Sempre cuidei deles. Minha mãe morreu quando ainda eram muito pequenos, e eu assumi as responsabilidades da casa, mesmo sendo ainda uma menina. Nossa casa ficava longe da cidade mais próxima e para mim era praticamente impossível sair de lá para fazer qualquer coisa, daí vivia praticamente confinada naquele lugar. Meu pai é que saía, às vezes acompanhado por um dos meus irmãos, para levar leite para alguns mercadinhos da cidade, e passavam o dia inteiro fora. Eu ficava em casa cuidando do meu irmão menor, que era muito apegado a mim, me seguia onde quer que eu fosse. Era um menino franzino, de pele pálida e cabelos lisos, negros. Eu admirava a ingenuidade daquele anjo, sempre muito prestativo e car...

DOMADA PELO SEXO (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.