Uma cena ocorrida hoje, trouxe de volta uma velha imagem da infância. Fazia calor. Na parece branca da cozinha, uma fila de formigas se dirigia para algum lugar (as formigas, às vezes, parecem caminhar sem rumo). Fui até o armário e peguei o veneno que, talvez por pudor, insistimos em chamar “remédio”: remédio para formigas; remédio para mosquitos, remédio para baratas. O remédio, certamente, é para nosso alívio; não para o deles. Mas, enfim, apliquei uma carreirinha daquele veneno que já vem preparado numa espécie de seringa no parapeito da janela. É um veneno bonito: cor de rosa translúcido. Até eu me sinto atraída por ele, imagine as formigas! Acredito que elas tenham vontade de mergulhar. É o que eu sentiria se visse um riacho de gel cor de rosa, brilhante e transparente. Ainda mais num dia de calor. Imagino, além disso, que o sabor seja doce e com cheiro de doce. Irresistível. Algumas horas depois voltei à cozinha. O veneno havia escorrido pela par...
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