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FÁBIO CAMPOS COMENTA "VICE", UM DOS GRANDES FILMES DESTE ANO



Você iria ao cinema assistir por pouco mais de duas horas a biografia de Michel Temer, mesmo que não fosse algo chapa branca?
Tentando contextualizar para a realidade brasileira, é mais ou menos isso que o diretor Adam McKay se propõe a fazer com a biografia de Dick Cheney, o vice-presidente dos EUA nos anos George W. Bush.
Assim como Temer, Cheney é um político de carreira, sempre trabalhou nos bastidores, nunca teve um grande eleitorado, conhecia os meandros da política como ninguém, mas, ao contrário de Temer, não tinha um impeachment como fato relevante que pudesse sustentar o filme.


Colocar isso num filme que fosse razoavelmente interessante já seria uma tarefa difícil, mas não para McKay, que anteriormente já havia conseguido transformar a crise dos sub-primes, que desencadeou a crise financeira de 2008, num thriller interessantíssimo, no ótimo A Grande Aposta, de 2015.
O diretor e roteirista recorre às mesmas ferramentas inusitadas do filme anterior, quando usou Margot Robbie numa banheira de espuma e Anthony Bourdain, entre outros, para explicar detalhes do mercado financeiro, que poderia deixar o filme monótono.
Aqui, novamente, ele usa esses mecanismos inusitados para reviver toda a trajetória de Cheney, vivido brilhantemente por Christian Bale, desde o aluno beberrão da faculdade até o dia a dia como o vice-presidente mais poderoso da história dos EUA.
Entre as ferramentas, filme utiliza um narrador surpreendente, que só é revelado no final, quebra com frequência a quarta parede e mantém num humor debochado, quase anárquico que se contrapõe ao ambiente sisudo da política.
Quase tudo que já havia sido utilizado em A Grande Aposta, o que perde um pouco em originalidade, mas não compromete o filme, entregando, ainda assim, algo bastante original.
A guinada de beberrão para político influente se dá através da esposa, Lynne Cheney, Amy Adams em mais uma atuação magistral – já passou da hora de dar um Oscar pra essa mulher –, que possuía muito mais virtudes políticas que o marido mas, sabia das limitações de uma mulher no mundo da política de 40 anos atrás, se contentando em ser a articuladora da carreira do marido.
Dick tem como mentor o ex-secretário de defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, vivido por Steve Carell também ótimo, e vai ascendendo na carreira com o seu auxilio e orientação, mesmo que em algum momento seja necessário sacrificar a própria família, algo relativamente comum entre políticos.
Na parceria com George W. Bush se dá o ápice da carreira, que parecia já ter atingido o ápice – nunca um vice-presidente americano teve tanto poder e isso fica muito claro no filme, juntamente com as manobras para favorecer amigos, algo tão comum por aqui também.


O filme tem uma um roteiro muito bem costurado, uma montagem dinâmica, que faz com que o filme nunca canse, uma direção segura e um elenco afinadíssimo – se houvesse Oscar para cast seria uma babada –, Sam RockWell como George W. Buch está divertidíssimo e até o careteiro Tyler Perry está muito bem como o general Colin Powell.
Em época de queda de audiência, seria uma boa aposta para o Oscar de melhor filme, se o Oscar realmente quisesse dar uma guinada na previsibilidade da premiação, trazendo algum frescor ao prêmio. Mas, acredito que, mais uma vez, vencedor vai ser um daqueles filmes “com cara de Oscar”, que tanto tem contribuído para a previsibilidade e o desinteresse ao prêmio, especialmente entre as novas gerações.
Qualquer um com um mínimo de interesse em política provavelmente vai se divertir bastante no filme. Recomendadíssimo, já está entre os melhores do ano que mal começou.

VICE
(Vice 2018)

Diretor
Adam McKay

Escritor
Adam McKay

Elenco
Christian Bale
Amy Adams
Steve Carell
Sam Rockwell
Jesse Plemons

Duração
2h 12m



Fábio Campos convive com filmes e música
desde que nasceu, 52 anos atrás.
Seus textos sobre cinema passam ao largo
do vício da objetividade que norteia
a imensa maioria dos resenhistas.
Fábio é colaborador contumaz
de LEVA UM CASAQUINHO.








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