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Showing posts with the label Fábio Campos

"BLUE MOON", MAIS UMA PARCERIA ESPETACULAR DO ATOR ETHAN HAWKE COM O DIRETOR RICHARD LINKLATER (por Fábio Campos)

    Tenho grande admiração pelo diretor Richard Linklater, poucos diretores no cinema atual conseguem escolher projetos tão interessantes e diversos.   Desde a trilogia do "Antes", passando por "Boyhood", até "Nouvelle Vague" e "Blue Moon", ambos lançados ano passado, Linklater faz cinema de primeira.   Num cinema cada vez mais centrado em ação e efeitos visuais, onde os espectadores têm cada vez mais dificuldade de manter a concentração, chega a ser heroico fazer um filme totalmente focado em diálogos.   Já foi assim na deliciosa trilogia do "Antes", acompanhamos por três filmes, através de diálogos, o encanto, os dilemas, as virtudes, as fraquezas e decepções de possíveis amantes em três diferentes fases da vida.   Em "Nouvelle Vague", também lançado recentemente, acompanhamos as filmagens de "Acossado", de Godard, que revolucionou o cinema da época, com recriações deliciosamente bem-feitas de c...

O MAL NOSSO DE CADA DIA (por Fábio Campos)

  O sul e o norte dos EUA guardam muitas diferenças, gerando inclusive a tão conhecida guerra civil. O sul, mais agrícola, mais religioso e menos educado acabou sendo obrigado a engolir a abolição da escravatura depois da derrota na guerra civil. Curiosamente, a maior religiosidade nunca pareceu conflitar com a convivência com a escravidão, um argumento comum aos que questionam a religião como bússola moral. Essa parece ser a questão fundamental do filme de Antônio Campos – filho do apresentador do Manhattan Conection, Lucas Mendes –, O Diabo de Cada Dia, em cartaz no Netfilx. Apontando para duas pequenas comunidades do meio-oeste americano, o filme mostra as consequências da mistura de ignorância, religião, pobreza e violência e a imensa dificuldade de alguém nascido ali escapar do que parece ser um destino imutável.   Baseado no livro O Mal Nosso de Cada Dia, Campos convidou o autor do livro, Donald Ray Pollock, para fazer a narração em off, recurso que, se por um lado, tira...

FÁBIO CAMPOS FOI ASSISTIR "UM ATO DE ESPERANÇA" E SAIU ENTUSIASMADO

Um Ato de Esperança parte de uma premissa nada sutil, Adam, um garoto prestes a completar 18 anos, com um problema de saúde, necessita de uma transfusão de sangue, mas, como a família é Testemunha de Jeová, ele a recusa, o que poderá causar sua morte. O hospital, então, solicita à justiça que uma transfusão seja efetuada no paciente mesmo que sem o seu consentimento. Emma Thompson, numa grande atuação, é a juíza Fiona Maye que fica encarregada do caso justamente no meio de uma crise conjugal.  O que deixa o filme bastante interessante é que o roteiro, que é de Ian McEwan, baseado num livro também de sua autoria, carrega a trama com sutilezas.  Após seu marido – Stanley Tucci, sempre um ótimo coadjuvante – decide sair de casa, acusando Fiona de não dar a atenção devida ao casamento, ela toma uma decisão inusitada, visitar o paciente no hospital antes de tomar sua decisão, mesmo correndo o risco de autorizar a transfusão tarde demais.  Durante essa visita Adam...

FÁBIO CAMPOS ASSISTIU E RECOMENDA "NÓS", NOVO FILME DE JORDAN PEELE

Sempre tive um problema em relação a Corra! . Foi difícil aceitar o Oscar de roteiro quando eu torcia para Três Anúncios Para Um Crime , mas o Oscar e o filme elevaram Jordan Peele à categoria de celebridade. A grande maioria dos críticos se curvou ao filme, viu uma forte e elaborada metáfora ao racismo, enquanto eu só consegui ver um filme divertido com uma pegada forte de filme B.  Agora veio Nós , que teve um trailer instigante, e eu fui assistir tentando compensar a má vontade que tive com o filme anterior. O filme começa com uma garotinha que se perde dos pais num parque de diversões e vai parar num labirinto de espelhos – daqueles típicos de parques de diversões toscos – e então acaba encontrando com uma cópia de si mesma, numa cena deliciosa, que antevê o clima de tensão do filme. Depois disso avançamos no tempo e reencontramos Adelaide, a garotinha já crescida – Lupita Nyong’o, num grande papel –, voltando para o mesmo lugar, agora com a família, marido e doi...

FÁBIO CAMPOS ASSISTE E RECOMENDA A COMÉDIA ARGENTINA "UM AMOR INESPERADO"

Já estamos acostumados a tomar lavada do cinema argentino quando falamos em drama, a novidade é que também tomamos uma lavada quando o assunto é comédia, mais especificamente, comédia romântica. Tudo bem que os filmes argentinos passam por um filtro para chegar aqui, não recebemos qualquer coisa, então acabamos recebendo os mais bem-sucedidos ou os com boa recepção da critica – Um Amor Inesperado foi a segunda maior bilheteria de 2018 por lá –, mas, mesmo comparando com as melhores produções nacionais, no geral, eles se saem melhor. No filme, Marcos e Ana (o onipresente Ricardo Darín e Mercedes Morán) estão casados há 25 anos, são aquele tipo de casal bem entrosado, com piadas internas, auto ironia, gostos em comum, mas que, inevitavelmente, já foram contaminados pelo dia a dia. Quando o filho vai fazer universidade na Espanha é justamente a mudança no dia a dia que levanta questões em ambos. Agora que há mais tempo livre, os questionamentos vão aparecendo. Ao...

FÁBIO CAMPOS COMENTA O FILME MAIS TRISTE DO ANO: "BEAUTIFUL BOY"

Na primeira cena de Querido Menino vemos o jornalista David Sheff (Steve Carell) conversando com um interlocutor que não aparece no enquadramento, ele questiona se aquela é uma entrevista para a New Yorker e Sheff explica que não, que ele é um jornalista freelancer, mas que ele está alí por questões particulares, para entender mais sobre o vício de seu filho em drogas, especialmente metanfetamína. Existem vários filmes com o mesmo foco, mas essa é principal diferença deste filme em relação a outros. Normalmente existe um conflito de gerações, uma falta de dialogo que vai deteriorando a relação, algum fato específico, que nos tenta, como expectadores, a julgar. Neste caso, ao menos no início, não há nada disso. David é um bem-sucedido jornalista, com artigos publicados em revistas consagradas – na parede de seu escritório há uma entrevista dele com Steve Jobs para a Playboy, por exemplo. É o exemplo de pai “cool”, sempre aberto ao dialogo, surfa junto com o filho e a...

FÁBIO CAMPOS COMENTA "VICE", UM DOS GRANDES FILMES DESTE ANO

Você iria ao cinema assistir por pouco mais de duas horas a biografia de Michel Temer, mesmo que não fosse algo chapa branca? Tentando contextualizar para a realidade brasileira, é mais ou menos isso que o diretor Adam McKay se propõe a fazer com a biografia de Dick Cheney, o vice-presidente dos EUA nos anos George W. Bush. Assim como Temer, Cheney é um político de carreira, sempre trabalhou nos bastidores, nunca teve um grande eleitorado, conhecia os meandros da política como ninguém, mas, ao contrário de Temer, não tinha um impeachment como fato relevante que pudesse sustentar o filme. Colocar isso num filme que fosse razoavelmente interessante já seria uma tarefa difícil, mas não para McKay, que anteriormente já havia conseguido transformar a crise dos sub-primes, que desencadeou a crise financeira de 2008, num thriller interessantíssimo, no ótimo A Grande Aposta, de 2015. O diretor e roteirista recorre às mesmas ferramentas inusitadas do filme anterior, quand...