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Showing posts with the label ATELIER DAS LETRAS

O LEITOR MISTERIOSO (por Marcus Vinícius Batista)

No domingo à noite, vi o primeiro suspeito. Parecia ser uma senhora – eu estava a uns 50 metros de distância -, vestindo um casaquinho verde, daqueles de senhora mesmo, como uma personagem do jogo de tabuleiro Detetive. Descobri sem querer, havia descido para deixar o lixo na rua, mas percebi que ela parou uns dois segundos antes de subir a escada, tempo suficiente para medir os livros, ler as capas e levá-los para casa. Tinha colocado os livros ali, no hall de entrada do prédio, há menos de duas horas. A intensidade e a frequência do sumiço das obras reforçavam o modus operandi e a suspeita das especulações: alguém estava montando uma biblioteca a partir da minha. O quase flagrante – ou a alucinação literária – é mais um episódio da história que começou há um ano e meio. No prédio onde moro, há uma caixa de correspondência grande, de quase um metro de diâmetro, no hall de entrada. Nessa época, inspirado por projetos semelhantes, passei a deixar livros e revistas...

O MACHO NA MINHA CAMA (por Marcus Vinícius Batista)

Não sei a data precisa. Acho até melhor porque seria mais uma forma de cristalização na memória, com chances reais de traumas. Numa noite dessas, eu e minha mulher Beth tínhamos acabado de deitar, estávamos naquele sono inicial, com o sinal de alerta no botão mínimo, quando senti os pelos dele roçarem na minha perna. Minha mulher não era. Beth nunca precisou depilar as pernas. Levei alguns segundos para processar a informação. Meu filho não era também. Vini não estava em casa e, com sete anos, seria impossível que eu não tivesse notado um garoto-lobisomem como herdeiro. Vini ainda tem aquela pele de nenê. O sujeito subiu mais um pouco na cama. Esfregou-se em mim e se encaixou ao lado do meu quadril. Tentava achar um canto entre eu e Beth. Criança entre os pais a esta altura da paternidade? Eu e Beth não tivemos filhos. Meus dois eram grandes já, e não gostavam de dormir entre a gente. Ainda bem. Preferiam o espaço deles. Uns minutos depois, o visitante resolveu se ...

ENTRE ALUNOS E PROFESSORES, O HUMANO (por Marcus Vinícius Batista)

Passei 33 dos meus 42 anos de vida dentro de uma sala de aula. A maior parte do tempo como aluno. 14 anos como professor. Os últimos três, nos dois lados do balcão, dentro da mesma universidade. Voltei à graduação e convivo com colegas com metade da minha idade ou menos. Duas vezes por semana, desço um lance de escadas para trocar de papel. Do Jornalismo à Psicologia. O aprendizado se funde em ambos os papéis. Conheço, infelizmente, uma escola em seus intestinos. Conheço, com alegria, uma escola em sua alma. Por suas almas que passam pelas roletas todos os dias. O tempo, as leituras, as relações humanas, as vivências e o peso da idade derrubaram todas as ilusões. Ilusões diferem de sonhos e desejos. Ilusões se aproximam de fantasias, de delírios e alucinações. Desconfio de datas comemorativas. Elas nos trazem o reconhecimento do instante, mas também nos entregam as convenções sociais. O resto do ano é o único termômetro para medirmos em qual dos dois endereços moram os...

QUANDO OS MUDOS CONVERSAM (uma crõnica de Marcus Vinícius Batista)

Duas pessoas em um local público ou numa conversa do dia-a-dia. O diálogo seria uma atitude previsível, com troca de experiências, de valores, de percepções de mundo. Se você não é uma delas, basta esticar as orelhas para captar o fenômeno. Ambas falam, gesticulam, contam suas vidas. Ambas fingem esperar uma reação do interlocutor. O diálogo, muitas vezes, é estéril. Jamais existiu. O que presenciamos são dois monólogos, nos quais o outro sujeito é público, audiência cativa, e não alguém com papel interativo. O homem atual fala demais. Fala tanto que falseia a necessidade de ser ouvido. Não se trata daquela tia tagarela ou do vizinho para quem não podemos perguntar se está tudo bem. O homem de hoje deseja uma caixa de ressonância, confirmadora de teses, uma cabeça que balance positivamente a cada frase exalada com veemência. Estamos interessados em ouvir outras pessoas? Realmente nos importamos com aquilo que elas têm a dizer sobre suas rotinas anônima...

MINHA RELIGIÃO (uma crõnica de Marcus Vinícius Batista)y

Levantei apressado. Tinha perdido a hora. Deve ter sido a insônia, que insistiu em ficar até às três da manhã. Ainda bem que tinha deixado pronta, na sala, a roupa da missa. Hoje é dia de rezar. Caminhei as dez quadras preocupado porque perderia parte da oração. Pela fé, madrugo sem reclamar, chego ao templo sem tomar café, ansioso para conhecer a nova casa do Senhor. Quando virei a esquina, escutei o falatório. Muitos louvavam à Ele, pulavam e corriam diante do evangelho. O culto era a céu aberto. Senhoras observavam do ponto de ônibus. Três operários assistiam e conversavam sobre a palavra ali pregada. Motoristas de carros, passageiros de ônibus aproveitavam o semáforo vermelho, na avenida Afonso Pena, para dialogar com os fiéis. Um ajudante de caminhão de refrigerantes começou a narrar um trecho da celebração. Sorria e vibrava com a força da palavra àquela hora da manhã. O diácono Carlos Júlio, um dos comandantes do culto, acenava de volta, agradecendo pela si...

A PLACA DESBOTADA (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)

Quando eles me contaram, parecia uma daquelas histórias exageradas de final de ano. Mas as versões de Paulo e Renata batiam. Episódio por episódio. E haviam tido as ideias juntos. Mas só tive certeza quando pisei no calçadão da Ponta da Praia. A placa estava ali, presa com perfeição na parte dianteira do carro que me daria carona. Estava ali desbotada, com uma mancha roxa e outra esverdeada sobre o cinza claro. Paulo e Renata tinham voltado de uma viagem do interior pouco antes do Natal. Enfrentaram chuva forte. Dois dias depois, no dia 24, eles resolveram comprar as últimas lembrancinhas no Supercentro Comercial do Boqueirão. Renata está grávida de seis meses. Paulo tem as expressões do pai do ano. Na saída, os dois conversavam sobre os preparativos para uma nova viagem, quando um senhor chamou a atenção deles: “Olha, a placa dianteira do seu carro sumiu!” Paulo ficou preocupado porque viajariam novamente, na sexta dia 26, para o interior de Minas Gerais. Renata o tra...

PROCURA-SE O NATAL (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)

As festas natalinas parecem conceder uma autorização especial. Um passe para que se sofra de amnésia das mágoas inexistentes do resto do ano. Um acordo para que se finja tolerar o outro, símbolo do insuportável quando a normalidade é reinstalada. Esta autorização especial seria uma espécie de concessão de princípios antes abandonados. Seríamos transformados em cobaias temporárias de valores que ocupariam prateleiras de artefatos arqueológicos. Mas o Natal talvez esteja divorciado deste passaporte ecumênico. O Natal talvez esteja flertando com outra data, o Carnaval, quando tudo pode, quando tudo é permitido desde que se enterrem as transgressões na quarta-feira de Cinzas. Natal e Carnaval são primos irreconciliáveis. São de naturezas e origens diferentes. A incompatibilidade de gênios se reforça quando importamos, como um Frankstein esquizofrênico, os exageros da folia para o Natal. As festas de final de ano viraram um Carnaval de consumo, período em que comprar se const...