Vou
precisar de uma lápide relativamente grande, já que, segundo meus cálculos, meu
epitáfio vai ser relativamente grande.
Epitáfios
de uma, duas ou três frases quase nada dizem sobre quem era e o que fazia
aquele monte de ossos e carne enquanto estava em cima – e não debaixo da terra,
misturando-se a ela num longo processo de apodrecimento e transmutação –
cósmica?
Claro,
se você for cremado, a coisa acontece de outro jeito. No fim dá no mesmo.
Além
disso, por minhas previsões, estou quase certo de que serei enterrado – e não
incinerado, o que seria até um espetáculo interessante: o monte de carne e
ossos se transformando, primeiro, numa fogueira, depois em fumaça e cinzas, que
alguém vai guardar em vasos de formatos estranhos ou jogar ao vento de algum
lugar, alguns às vezes também muito estranhos.
Mas
essa parte final, quando você vai à cremação de alguém, não deixam você
assistir.
Acontece
escondido, depois que o caixão some dos olhos da gente.
Estávamos,
contudo, falando de epitáfios, do meu, mais precisamente, e não sobre as
maneiras de como nos livrar dos corpos quando eles param de funcionar de vez.
Claro,
se você morrer numa explosão, por exemplo, esse problema de se livrar do corpo
– do seu corpo, no caso – se resolve por si mesmo.
E
continuo falando de enterros, velórios e lápides, não do meu epitáfio.
É
que me lembrei agora também daquela técnica de deixar que urubus, corvos e
assemelhados façam o serviço, com os corpos sendo suspensos a determinada
altura, para facilitar a deglutição dos visitantes aéreos.
Ah,
e existe ainda o que eu chamo de cremação ¨punk-romântica¨, aquela que os
vikings faziam, atirando flechas incendiárias num barco deslizando sobre a água
e levando dentro um corpo que não funcionava mais.
Linda
cerimônia, sem dúvida.
Mas,
com certeza, deve haver uma lei proibindo queimar cadáveres ao ar livre.
Lógico
que você não iria preso – pois já estava morto. A bronca, porém, ia acabar
sobrando pra seus parentes e os amigos que tivessem aceitado seu convite para
estar lá.
Além
disso, você teria que encontrar três ou quatro arqueiros capazes de acertar um
barco flutuando a uma distância consideravelmente grande da margem, com flechas
flamejantes, é claro.
Supondo
que esses arqueiros existissem e você conseguisse contatá-los, imagine quanto
cobrariam para participar de um troço esquisito desses.
E a
cremação “punk-romântica” envolveria também outra complicação séria.
Você
teria que organizar e pagar tudo com antecedência, correndo dois grandes
riscos: talvez você morresse antes de terminar de organizar e quitar a coisa
toda ou talvez você continuasse vivo por muito tempo, tempo em que você se
amaldiçoaria por ter gasto toda aquela grana em seu próprio funeral e agora
estar duro pra caralho por ter pago um troço que só vai acontecer lá na frente
– e que você não vai poder nem assistir, por motivos óbvios.
Vamos,
porém, deixar de lado essa coisa de enterros e flechas incendiárias para nos
concentrar no epitáfio.
Repetindo,
a lápide, além de grande, talvez precise ser usada em ambas as faces, quer
dizer, o texto começará na frente e se estenderá até o lado de trás. Isso
exigirá a colocação de um pequeno aviso, de preferência escrito com fontes
diferentes, ao final da parte da frente do texto, dizendo: “continua do outro
lado.”
Não
é muito estético, concordo, mas talvez não exista outro jeito.
Devia
ter avisado lá em cima, mas acho que agora já está claro que eu mesmo
escreverei meu epitáfio.
quase
metade dele já está praticamente pronto – na minha cabeça. Eu repito esse
trecho inicial de duas a três vezes ao dia, em voz alta. Troco uma palavra
aqui, outra ali. Tiro uma vírgula, coloco um ponto, mas basicamente o texto não
muda.
Ocorre
que, de uns tempos para cá, cada vez que eu recito o texto, o tamanho da lápide
vai aumentando e aumentando na minha cabeça.
O
negócio passou a ser físico, quer dizer, minha cabeça começa a latejar,
latejar, até que eu me calo, pela certeza absoluta de que, se prosseguir, minha
cabeça irá literalmente explodir, espalhando pedaços do meu cérebro pelo chão.
Apesar disso, insisto em continuar a repetir
essa parte inicial do epitáfio todos os dias, duas, três, quatro vezes, mas o
processo está se tornando cada vez mais
doloroso.
Agora
já sinto a lápide aumentando na cabeça assim que pronuncio as primeiras
palavras.
E o
grande problema é que ainda há muita coisa a dizer. Começo a duvidar que
consiga levar isso adiante, se a lápide continuar aumentando na minha cabeça,
ameaçando explodi-la.
Então,
por mais que isso me contrarie, vejo-me obrigado a pensar na possibilidade de
mudar de rumo.
Quem
sabe um poema relativamente curto não consiga expressar tudo o que gostaria que
estivesse escrito sobre mim em meu túmulo?
Estou
quase certo de que, se procurasse com cuidado, encontraria algum poema já
escrito que dissesse tudo o que queria dizer sobre minha vida.
Essa
busca, contudo, poderia ser muito longa. É possível que eu levasse anos para
encontrar um poema que me definisse exatamente – para os que ainda estariam
vivos e para aqueles que iriam nascer.
Sinceramente,
eu não estava disposto a ter essa missão como objetivo central na parte final
da minha vida.
Isso
me parecia uma grande perda de tempo: procurar por um poema enquanto minha vida
acabava dia após dia.
Então,
a saída seria eu mesmo escrever o poema.
Mas
o que eu diria nele sobre mim?
Cheguei
a um impasse que vem bloqueando qualquer tentativa de seguir adiante.
Vai
daí, surgiu a ideia de que talvez vocês possam me ajudar nessa tarefa de compor
o tal poema.
Então,
espero que vocês compreendam e me ajudem.
Aos
que se interessarem, peço que, por favor, sejam rápidos, pois, já que não
pretendo cometer suicídio, não posso prever quando vou precisar desse poema
pronto para ser gravado na minha lápide.
Obrigado
pela atenção. E até a próxima.



Comments
Post a Comment