A
vida às vezes é insuportável, assim como quando oferecem pela milésima vez uma
sacolinha de plástico com um sorriso de código de barras. E bem depois que você
viu fotos de montanhas delas, que nunca vão se degradar, pois é terrível, você
vai morrer e elas vão continuar ali, coloridas, com a cor da felicidade que
deram, num dia qualquer, para qualquer um.
Não
entendo nada da capacidade de sobrevivência da sacolinha, assim como também não
entendo como tem quem consegue continuar fumando com aquelas fotos todas de
gente perdendo pedaços de si própria estampadas nos maços.
A
velha que passou, por exemplo, devia acreditar que chegaria lá, pois veio e se
foi, dando passos de tartaruga pela falta de ar, enquanto arfava como se
estivesse nas pontas dos pés sobre algum abismo que não consegui vislumbrar,
segurando um cigarro queimando mais vivo que ela entre os dedos. Onde achava
que ia chegar?
Com
certeza não era no mesmo lugar que a outra, de botas, parecendo que ia montar.
Essa disse para o telefone móvel – sim, é o que parece, as pessoas estão sempre
falando com um pedaço de plástico que acham que é um aparelho, há as que até
olham para ele, acho que tentando ver algum par de olhos que quem está longe
não vê. Então, ela disse com a maior naturalidade ao pedaço de plástico que
vendera o carro pelo melhor preço, o objeto pareceu compreendê-la, e que agora
ia comprar outro pela menor parcela, sem nada de culpa pelo fato de que aquele
plástico pudesse achar que ela ia fazer o mesmo com ele, mas logo explicou que
fez porque precisava da grana para uns negócios imperscrutáveis − seus olhos
estavam inacessíveis por trás de um ray-ban de espelhamento degradado e foi aí
que pensei que as sacolinhas não, mas os ray-bans sim se degradam...
Mas
difícil mesmo não é minha prima ter sobrevivido, difícil foi ter que assistir
ao vídeo que ela fez questão de mostrar de todos os seus órgãos internos sendo
pinçados por buracos na cirurgia de laparoscopia, aquelas coisas vermelhas se
mexendo vivas dentro dela – já não bastava vermos suas banais fotos nos pontos
turísticos mais óbvios e seus poemas escritos todos na primeira pessoa
inacreditável que ela é.
O
mundo está cheio de gente incapaz de entender alguém que abre o melhor bombom
que existe e o come apenas pela metade. Meu cachorro mesmo sempre cavuca
buracos improváveis e esconde ossos que não acabou de roer e faço de conta que
não vejo, achando que ele deve estar guardando para quando a hecatombe nuclear
canina chegar − cachorros devem saber das coisas, apesar de que tenho muitas
dúvidas quanto a isso quando os vejo cagando.
Sou
um cara de sorte, ontem achei uma moeda de 10 centavos, hoje encontrei-me com
uma caixa de fósforos faltando apenas um palito, todos os outros por queimar.
[publicado
originalmente em 17/07/2008]
Ademir Demarchi é santista de Maringá, no Paraná,
onde nasceu em 7 de Abril de 1960.
Além de poeta, cronista e tradutor,
foi editor da prestigiada revista BABEL.
Possui diversos livros publicados.
Seus poemas estão reunidos em "Pirão de Sereia"
e suas crônicas em "Siri Na Lata",
ambos publicados pela Realejo Livros e Edições.




Comments
Post a Comment