Sunday, September 13, 2020
CHICO MARQUES REÚNE OS 25 ANIVERSARIANTES DA SEMANA NUMA PLAYLIST DE ARREBENTAR

ANIVERSARIANTES
DA SEMANA
BOBBY SHORT, MEL TORME, JON HENDRICKS, B B KING, DAVID-CLAYTON THOMAS, BROOK BENTON, BILL MEDLEY, CASS ELIOTT, AMY WINEHOUSE, CHARLES BROWN, PETER CETERA, FREDA PAYNE, MARCOS VALLE, NILE RODGERS, FIONA APPLE, JACK MCDUFF, ERIC GALE, PAUL KOSSOFF, DAVID BROMBERG, AL CASEY, LOUIS MEYERS, BILLY BOY ARNOLD, SNOOKY PRYOR, HANK WILLIAMS, CANNONBALL ADDERLEY
Monday, August 24, 2020
NOSSO COMENTARISTA DE CINEMA SÉRGIO PRIOR RECOMENDA DOIS ÓTIMOS FILMES QUE VIU RECENTEMENTE
"DEPOIS
DA TEMPESTADE", de Hirokazu Kore-Eda, tem como personagem central Ryota
(Hiroshi Abe), um escritor que não consegue sobreviver economicamente, com
compulsão por apostas, sempre endividado, que tem na atividade de detetive o
seu ganha pão. Separado de sua esposa, pai de um filho, que já se cansaram de
tantas promessas feitas por ele. O principal objetivo da vida de Ryota, por
incrível que pareça, é reatar os laços com a sua família. A ambição de
"botar a vida nos trilhos" por vezes parece ser irreal, mas está longe
disso. E é justamente nessas incongruencias de todos nós, no cotidiano sem
grandes sobressaltos, que o cinema do diretor Kore-Eda se debruça. Não há
grandes digressões filosóficas, tampoucos cenas céleres, repletas de ação. Seu
cinema analisa como se ele tivesse um microscópio e ampliasse a simplicidade da
vida de um homem comum. Ryota se pergunta numa certa altura a razão de sua vida
não ter dado certo. Kore-Eda não dá respostas. A personagem mais bela deste
filme é a mãe de Ryota, mostrada nos seus afazeres domésticos no seu
apartamento na periferia de Toquio. Uma senhora viúva representante, com gestos
de uma dignidade ímpar. Como todos sabem, o Japão é assolado por tornados com
frequencia, e o título do filme é uma alusão a esse fato. Mas de forma simbólica,
pois o que Ryota almeja é mudar a sua vida depois da tormenta em que esta se
tornou. Uma pequena obra-prima de um grande diretor. "DEPOIS DA
TEMPESTADE", de Hirokazu Kore-Eda, pode ser encontrado na Vídeo Paradiso.
O diretor polonês Jan Komasa viu seu "REDE DE ÓDIO" premiado no festival Tribeca, nos EUA, como melhor filme estrangeiro, versando sobre um tema bastante atual e relevante, particularmente no Brasil atual. A narrativa segue a vida de Tomasz (Maciej Musialowski), um estudante de direito da universidade de Varsóvia que é expulso da mesma por ter plagiado num de seus trabalhos. Importante notar a origem humilde de Tomasz, nascido e criado numa aldeia da Polonia, que teve a "sorte" de uma família de mecenas bancar os seus estudos. E é a esta família da elite financeira e intelectual polonesa, os Krazuckas, que Tomasz deverá se explicar. Importante notar que a família é também esnobe, olhando as classes operária e de trabalhadores comuns de maneira pretensiosa, do alto para baixo. Tomasz é apaixonado pela filha mais nova da família Krasucka, Gabi, que ao contrário da irmã que tem um desempenho academico elogiável, ainda tem uma dependencia de drogas. Impedido de se aproximar de Gabi, execrado pelos Krasuckas, Tomasz consegue uma vaga numa firma especializada em derrubar mitos da internet, claro que de acordo com os interesses financeiros de um interessado. Em suma, Tomasz mostra sua face sociopática ao se tornar um mestre em aniquilar pessoas através de fake news, e testemunhamos todos os mecanismos sórdidos usados pelo submundo das redes sociais, onde correm solta a xenofobia, o belicismo, as críticas mais vis que almejam destruir as pessoas e a "alma" da democracia e das pessoas de bem. O poder que pessoas com esse poder nas mãos têm, movidas pelos mais diversos tipos de frustrações psicológicas e/ou sociais, pode ser devastador. Vide as últimas eleições nos EUA e no nosso país varonil. Grande filme. "REDE DE ÓDIO", de Jan Komasa, está a disposição no streaming da Netflix.
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POIS É, ACONTECE... (um conto de Antonio Luis Nilo)
Não fazia frio em Luanda, tampouco calor. O vidro da janela do banheiro estava aberto e o frescor do início do cacimbo não incomodava. Na África Meridional, existem duas estações: a das chuvas, que ocorre de outubro a abril, e a da seca, conhecida regionalmente como “cacimbo”, de temperaturas mais amenas. Abaixei a tampa e me preparei para mijar. Um mosquito cruzou a tábua da privada no exato instante em que o primeiro jato se desprendeu. Alvejado em pleno voo, o pernilongo foi arremessado de encontro à parede do vaso e escorreu para a superfície da água, ainda pouco misturada à urina. Direcionei o jato para o seu corpúsculo que flutuava, até ter a certeza de que estava liquidado, e pensei na possibilidade matemática de um mosquito ser abatido no ar por um jato de urina de alguém sonolento. Uma em mil... uma em um milhão. Afinal, eu não persegui o mosquito em seu voo. Nem tinha notado a sua presença. Ele que entrou na frente no momento exato em que eu desferia o primeiro jato. Muito azar do mosquito. Isso só acontece uma vez na vida. Na dele, com certeza.
Lembrei que eu tinha que ligar pro Felipe, meu filho mais velho. Ele que não esquecesse de jogar na mega sena no Brasil. Minha internet estava pra lá de luandense, não dava pra jogar de casa... e no celular, o 3G se arrastava. E o prêmio, acredite, acumulara em 115 milhões. Tinha transferido 380 reais... dava pra fazer um jogo de 9 dezenas. A chance de ganhar subia de 1 em 50 milhões para 1 em 590 mil. Eu sei que ainda seria difícil pra caralho. Mas eu tinha acabado de matar um mosquito em pleno voo com uma mijada... e sem mirar. Ou seja, podia ser o meu dia de sorte.
Luanda é a capital de Angola, um país pobre que amargurou uma história relativamente recente de 30 anos de guerra civil. Os negros reconquistaram seu país. E boa parte dos brancos (portugueses até então dominadores) vazaram para sua terra natal e alguns para a África do Sul e o Brasil. Mas, com a abertura da economia, os brancos voltaram... e trouxeram os amarelos. Os cerca de 400 mil chineses, mão de obra barata, se multiplicavam nas atividades menos nobres das obras de engenharia. Mas a sensação que se tinha é que não construíam apenas edifícios, pontes e estradas... mas uma torre de Babel. Além do português angolano malemolente e de acento lusitano, os dialetos umbundo, quimbundo e quicongo se misturavam ao inglês falado pelos executivos das multinacionais, ao português brasileiro dos odebrechtianos e ao mandarim de quem mais obedece do que fala.
Era sábado, dia de descanso. Como engenheiro, tinha o privilégio de viver num condomínio fechado em Talatona, excelente moradia. Tinha um salário do tamanho da saudade que sentia do Brasil, apesar de visitar a família de seis em seis meses. Vesti uma bermuda confortável e abri uma Cuca Ruiva, uma amber lager tradicional de Angola, e comecei a limpar os espetos da churrasqueira. A piscina estava azul e cristalina, à espera dos convidados. Eu não era um sujeito rico, mas a construtora me garantia uma moradia acima dos meus padrões brasileiros e eu não via mal nenhum nisso. Havia marcado um churrasco com os amigos da empresa por volta do meio dia. Ainda era cedo, teria tempo de preparar tudo com calma e tomar pelo menos umas 8 ou 10 Cucas.
Espetos lavados, cervejas a menos 6 graus, petiscos cortados. Abri a quarta Cuca e me recostei numa cadeira de praia pensando no e-mail de minha ex-mulher, mãe dos meus 5 filhos, me pedindo mais dinheiro. A pensão não era das mais robustas, mas tinha dúvida se deveria aumentá-la. Enquanto, de olhos fechados, fazia algumas contas de cabeça, poooffff: uma pasta asquerosa e fedida atingiu o meu rosto, inundando meus olhos, nariz e bigode. Corri para a pia da churrasqueira, lavei o rosto e usei o álcool de acender o fogo pra desinfetar o meu bigode. Parecia cocô de pombo. Corri para a piscina e olhei para o céu. Umas duas dezenas de cegonhas ainda sobrevoavam minha casa a uns 150m de altura ou mais. Porra, não é possível. Seria muito azar tomar uma cagada de cegonha na cara, no conforto da minha piscina. Pensei na possibilidade matemática de isso acontecer, mas logo desisti. Conta difícil, cheia de variáveis, que exigiria pesquisa científica e um mirabolante cálculo de probabilidade com amostragem, fatoriais, velocidade... impossível.
Sentia saudade dos meus filhos, do Rio de janeiro e até de minha ex-mulher. A vida em Luanda era uma merda, só valia o pé de meia. A campainha tocou... eram 11h10 da manhã. Quem seria tão cedo? Olhei pelo monitor da sala que mostra todas as câmeras da casa e vi a figura do porteiro acompanhado de um homem que eu nunca tinha visto na vida. Será que era convidado de algum convidado? Mas por que o porteiro não me avisou pelo interfone? Estranho.
Abri a porta e ouvi o estampido. O filho da puta me atirou na perna e entrou em minha casa arrastando o porteiro. O sangue esguichava, senti tontura. Só lembro de ver o porteiro amordaçado e amarrado na coluna da sala.
Acordei no quarto do hospital dois dias depois com o Felipe sorrindo e falando baixinho: “Porra, pai... que susto que você deu na gente”. Perguntei o que tinha acontecido e ele me falou do roubo, do tiro, da minha cirurgia e da viagem que fez sozinho por imposição da mãe. Achavam que eu ia morrer. Não sei porque, mas a primeira coisa que me veio à cabeça foi o jogo da mega sena. Peguei meu celular na mesinha e pesquisei no Google. Vi que não tinha acertado nem um número. Comentei com o Felipe e ele me disse que tinha sacado o dinheiro, mas que tinha esquecido de jogar. “Porra, pai... eu sabia que você ia ficar puto comigo então corri na banca do jogo do bicho do Jardim de Alah e joguei a grana toda no grupo da borboleta. Eu tinha sonhado com borboleta a noite toda. Deu na cabeça, pai. Você ganhou 6 mil reais, tá aqui a grana”.
Me deu uma fisgada na coxa que me fez contorcer inteiro. Olhei pro Felipe e falei pra ele ficar com mil reais e dar os outros 5 pra mãe dele.
Virei pro outro lado, fechei os olhos e só consegui pensar na borboleta. Borboleta na cabeça. Não é um mosquito, mas é o único inseto do jogo do bicho. Uma chance em 25.
Antonio Luiz Nilo nasceu em Santos,
e é redator publicitário e diretor de criação
há quase 30 anos,
com prêmios nacionais e internacionais.
Circulou a trabalho por todo o país,
com paradas prolongadas em Brasília,
Belo Horizonte e Salvador.
Publicou em 1986, o livro de poemas
"Poemas de Duas Gerações",
e, mais recentemente, o romance
"Ascensão e Queda de Pedro Pluma"
(disponível para venda em alnilo@gmail.com).
Além disso, atuou como cronista
para o diário Correio da Bahia.

CROSSES' CAVERN (Chapters 1 to 5) (by Manoel Herzog aka Germano Quaresma)
Chapter
The First
Capítulo
de número um
Good
Afternoon, folks. My name is Manny Duke. I am a farmer, sorry, eu sou um
fazendeiro (falemos portuguese, please) aqui do Estado de Idaho, EUA. Nem
sempre eu tenho sido um fazendeiro, isto é, eu usava ser um lawyer quando vivia
lá na cidade grande. Um lawyer, um homem de leis. Cirscunstâncias da life me
levaram, no entanto, a me tornar um farmer, recluso aqui no escondido Idaho, no
munícipio de Crosses Cavern (Caverna das Cruzes), onde possuía já, adquirida
com o dinheiro que ganhei como homem de leis, uma pequena propriedade rural.
Montaigne, um sábio francês, e nós norteamericanos adoramos os franceses, viveu
experiência parecida à minha, a determinado ponto de sua life decidiu abolir
todo contato humano e se recolheu na sua quinta, nos arrebaldes de Paris, de
onde passou a escrever memórias e reflexões.
Eu
também decidi abandonar por completo o contato com os seres humanos, e devo
acabar por expor as razões que me levaram a tal decisão ao longo deste relato.
Não o faço agora por dupla razão: primeiro, não há uma lógica ou um ponto
determinante que me tenha feito optar pela vida em eremitério, the lonely life;
e segundo, se eu fosse enumerar o conjunto de razões por certo haveria de
inviabilizar este que denominei first chapter, capítulo primeiro, passando a já
fazer uma novel do que seria um simple chapter.
Meus
chapters, nesta historinha country, terão sempre o padrão de três parágrafos,
de forma a não cansar os leitores que se disponham a acompanhar. Aliás, here am
I já no terceiro parágrafo deste chapter de hoje, de onde devo estacionar.
Antes, contudo, vou adiantar dois substantivos que bem se podem incluir entre
as razões de minha escolha pelo isolamento no campo: um simple, Galinhas (sim,
chickens) and um nome próprio, Tiffany.
Chapter
The Second
Capítulo
Segundo
Hi,
Folks. Passei o weekend no meu private
Idaho, com minhas galinhas. Que animais fantásticos. Desde que resolvi me
isolar no Idaho, em Crosses' Cavern, tive bem clara a ideia de empreender uma
criação de chickens. Foi então que adquiri, num fornecedor do Alabama, um lote
de cento e cinquenta pintainhos (tweeties), de variadas raças, para corte,
postura de ovos, ornamento, sacrifício religioso, etc. Há três semanas os tenho
acompanhado, e como crescem! Começa a surgir até mesmo alguma afeição entre me
and my tweeties, e é sobre isso que quero filosofar today.
Viver
a rural life pode nos ressignificar a relação com os animals. O homem urbano,
constato, se acanalhou de tal forma que passou, em sua arrogância, a pretender
humanizar os bichos, aos quais atribuiu a detestável alcunha de
"pets". Um pet é a derrota da civilização. Famílias urbanas reservam
mais cota de amor a seus bichos de estima que a outros de sua espécie, que são
capazes de ver nas ruas, em absoluta miséria, com indiferença. Já presenciei
festa de aniversário pra cachorro, batismo de hamster, desfile de moda de
coelhos. Os próprios animais se tornam canalhas, como se humanos fossem, com
tais procedimentos. Ficam arrogantes, enjeitam alimento, avançam na mão que os
provê etc.
Eu
com meus pintos mantenho uma relação de bem querer e respeito mutual. Sabem que
minha função ali é alimentá-los e devem saber, se a intuição lhes sopra, que
meu intuito é o de um dia devorá-los, se necessário. mas não se restringe a uma
troca econômica a nossa relação, e só isso já a justificaria, segundo Karl
Marx. Há, sim um relação de afeto: não os crio em confinamento, não lhes
ministro hormônios para que cresçam mais e vivam menos, serão lançados a campo
onde viverão em liberdade e à noite terão ração fresquinha e água gelada com
que matar suas fome e sede, além de um poleiro limpo pra dormir ao abrigo das
intempéries. Tudo isso justifica sobremaneira a relação que um homem possa ter
com seu animal, é justo para ambos e mais, é digno. Aliás, dignidade é o que a
Tiffany faltou - a cretina usava manter aqueles gatos imundos como dois
parasitas, dois funcionários públicos estáveis, gordos e soltando pelos pela
casa. Paro por aqui hoje. Said papa Hemingway: just three chapters a day. Bye,
folks.
3rd.
Chapter
'Mornin,
folks. Yesterday eu estava muito bitter, amargo. Gostaria de me desculpar por
um excesso, ao dizer que Tiffany carecia de dignidade. It's not true. Ela
apenas tem uma predisposição maior que a minha, a nisso a invejo, de suportar a
vida em society, a urban life. O fato de colocar ametistas no chacra frontal de
nossa Shit-su, ou de me recriminar por querer comer ao molho madeira um dos
coelhinhos de nossa daughter, não a torna indigna. Apenas confirma que não
serve pra mim esta relação, e that´s allright, ninguém é obrigado.
Comprei
um lote de cem tweeties, como disse no chapter anterior, mesclados. Havia ali
galinhas brancas, dessas inúteis de granja que só prestam pra comer, havia
galinhas francesas Label Rouge, do pescoço pelado, havia galinhas poedeiras
Rhode Island e galinhas inteiramente negras, de belos olhos e crista vermelhos.
Estas se vendiam caríssimo, um old tycoon, um feiticeiro do underground de
Crosses' Cavern, as comprava para rituais satânicos. Os galináceos são seres
especialíssimos. Têm uma graça natural, não há quem não simpatize com eles,
sempre em volta da gente a nos olhar inquisitivos, curiosos da nossa tão sem
sabor humanidade. Comem o que quer que
se lhes apresente, vegetal, animal, mineral ou celestial. Carne, até a das
companheiras elas comem. Restos de ossos, pelos, cabelos, vísceras, sangue,
pele, pelanca e toda sorte de muxibas, em que estado de frescor ou putrefação
se encontrem. Vegetal, comem de tudo, a casca dos legumes, os grãos, as raízes,
os caules, os frutos e as sementes, inclusive a erva, o capim, e o que mais
viceje. Comem também areia, pedra, casca de ovo, comem, comem e, na medida em
que comem, defecam. Suas fezes têm um teor de nitrato e calcário absurdo, o que
retroalimenta as plantações que haja numa farm ou cottage, e assim criar
galinhas se torna um círculo fechado em que se aduba o que se planta pras
galinhas comerem. São engraçadas e, glória maior, absolutamente burras. Uma
galinha é dos seres mais idiotas e primários que Deus criou, quase tão estúpida
quanto uma anêmona. Não tem sentimentos, o que come é por ela processado com
uma rapidez e indiferença exemplares, não possui memória e nem guarda rancor. E
come, come desesperadamente. Diz-se que se um homem deitar no pasto e mantiver-se inerte elas o
devoram. Creio seja verdade. Billy J., de Oklahoma, garante que seu avô
nonagenário adormeceu sob um pé de oak e quando encontraram o corpo este se
reduzia a um esqueleto, já bastante bicado, pois as galinhas comem ossos
também. Mais um dia de esquecimento do Old Papa J. resultaria em nada se
encontrar além de titica calcárea.
Nem
só a galináceos, contudo, se resume a minha rural life. Ontem, for example,
passei o dia podando apple trees. Com uma tesoura de poda manual fui
desbastando os galhos que as arvorezinhas insistiam em fazer germinar pra
dentro, no sentido do tronco. É sabido, vi-o num curso de youtube com Dan T.,
um velho plantador de mirtilos, que se devem eliminar os galhos concorrentes
numa árvore, aqueles que nascem pra dentro, priorizando os externos, mais
propensos a floração e frutos. A natureza é isso, babies: algo a ser dominado,
instruído, dirigido, orientado por uma entidade mais sábia, como o é um homem
frente a uma estúpida galinha ou a uma árvore de maçãs. É a missão de um homem,
dirigir sua propriedade no sentido, não de oprimi-la, mas de lhe promover o
desenvolvimento. Todas as vezes que pretendi podar os comportamentos de Tiffany
foi justamente por a fazer evoluir, e ela nunca quis entender isso, a rebelde.
E eu sempre, todas as vezes, fui eu quem se deixou podar, direcionar, governar
por ela.
4th.
Chapter
Hi,
folks. Esta noite fui despertado por um nightmare, um pesadelo horrivel. Um
alarido vindo dos lados do galinheiro. Corri lá por ver o que havia, e
presenciei uma coisa inusitada: as galinhas de postura deblateravam numa
plenária de partido. A vermelhinha Rhode Island presidia os trabalhos e deu voz
à galinha preta, que estava inscrita. "Toda semana, especialmente às
sextas-feiras, uma galinha preta é assassinada! E a mando de um capitalista,
que lucra com o sacrifício." A caipira pé duro, namorada do galo índio,
inscreveu-se também: "Os galos têm fixação por cu. Meu namorado vive
naquelas rinhas de galo, e agora só come os franguinhos viados. É preciso
lembrar que nós também temos cu. Os humanos, pelo menos, nos querem pelo que
temos de melhor, botar ovos. Eles valorizam nosso cu."
A
galinha branca, de granja, também deu seu pitaco: "Uma galinha trabalha
duas vezes a jornada de um frango, e ganha menos. Há uma hegemonia no mercado
profissional, podem ver, só galo branco adulto e hetero ganha bem nessa porra.
Não passarão!" E foi assim que passei a me apropriar do conceito de
postura, uma postura radical. Minhas aves tinham sido levadas ao verdadeiro
"empoderamento".
Era
de fato um dream bem idiota. Mesmo depois de desperto e do dream estar over,
contudo, eu continuei muito impressionado. Uma tristeza de opressão me apertava
o peito fazendo lágrimas brotarem de my eyes. Ai ai ai I should have done
better, tocava essa música chata na rádio mental. A tristeza e a solidão me
invadiram na night solitária do Idaho. Eu tinha visto muito bem na plenária das
galinhas comunistas, o rosto da branca que deblaterava contra os homens era o
dela. Tiffany.
5th
chapter
A
sensação ruim do nightmare, a visão do rosto de Tiffany num corpo de ave me
acusando de todas as culpas pela desgraça do mundo acabou evanescendo com cinco
minutos na doce atividade de poda de apple trees. Era como se, manuseando a
tesoura, a livrar a árvore do excesso de galhos, eu próprio livrasse minha aura
de satélites obscuros, pensamentos ruins que orbitavam em torno de minha
cabeça. Estava já bastante distraído e leve, sentindo o prenúncio dessa
Springtime em pleno frio de agosto, quando um homem soturno bateu à porteira da
Farm:
"'D'morne.
Estou procurando Mr. Emmanuel Duke."
"Seu
criado."
"Big
Morgan P., muito prazer. Me recomendaram sua cottage, preciso de um fornecedor
de galinhas fixo."
Admiti-o
à propriedade e lhe mostrei as instalações do pinteiro, com os primeiros
animais em plena adolescência. Contou-me que era um capitalista, e que sua
atividade principal era o off-shore. Mesmo sendo um intelectual, um lawyer com
absoluto domínio da língua inglesa, eu embatuquei. Achei a princípio que fosse
um insólito piloto de lanchas off-shore, atividade de todo incompatível com as
gélidas montanhas do Idaho. Mas ele me fez ver que era outra coisa: cambalacho
financeiro, pilantragem, obtenção de ganho sem trabalho, especulação. Era
riquíssimo, um verdadeiro Tycoon. Propôs um preço bem razoável apenas pelos
pintainhos negros, aqueles sem uma única pluma de outra cor. Compraria quantos
eu produzisse."
(CONTINUA
SEMANA QUE VEM)
EDUARDO RUBI CAVALCANTI SAÚDA EM PRÓXIMA PARADA OS 40 ANOS DO MAIOR FILME DE TERROR JÁ REALIZADO
PÃES E LIVES, SEGUNDO MARCELO RAYEL CORREGGIARI
No
início, eram somente ‘duas semanas’.
“Ah! Dá
‘pra’ levar”, pensaram muitos. “O que são duas semaninhas recolhido em casa,
sem poder ir à praia... passam logo”.
Até que
se vão cinco meses. É bom não esquecer que Santos já vinha com alguns bloqueios
sanitários por causa das atividades portuárias, e que o prefeito efetivou o
bloqueio às praias — a fim de se evitar os chamados ‘clusters’ — no dia 06 de
março.
Bom,
final de agosto... e nenhum sinal de que as agruras cessarão. O pessoal que já
não batia bem dos pinos começou a dar ‘tilt’ direto: fácil de testemunhar,
mesmo em casa, uma vez que os(as) ‘panguá’ publicam os passeios com tons
idílicos — o bom e velho lance do “eu tenho direito a um banho de sol!” — em
redes sociais. Incrível, isso!
A
justificativa não é nem um pouco inovadora: “... o médico falou que não é bom
ficar sem tomar sol...”, “... precisamos de banho de sol! Como fica nosso
sistema imunológico?!” ou coisas do tipo “... até presidiários têm banho de
sol...” entram na tentativa de dar aquela volta na malandragem — alô, Bezerra
da Silva! Aquele abraço! — sem se ater à excepcionalidade do momento histórico.
O lado bom da coisa: a pandemia serviu como
peneira, ‘caça-talentos’, nos campos da medicina e execução penal.
Um troço!
O que se
pode entender dessa pandemia, pelo enorme desconhecimento que a ciência ainda
tem da doença no que tange à sua dinâmica, virulência e possível terapia, é que
‘o trem’ é meio parecido com o “Hotel California”, do Eagles: “(...) Você pode
pedir a conta/Mas sem essa de picar a mula”.
Como tem
hora para entrar, mas não para sair, — um detalhezinho que não estava nos
‘planos de negócio’ de absolutamente ninguém — é nessa que você vê o quanto o
ser humano é tudo, menos criativo. Aliás, se fosse, não enlouqueceria da forma
que já vinha rolando antes dos decretos de quarentena.
Bom,
para quem tem crianças em casa, deve ser um suplício — aqui vai a tentativa de
abrandar, pelas palavras, um evento que se revelou para papais e mamães como um
verdadeiro martírio. Vai ser osso. E ‘quando tudo isso passar’, mais paulada na
cabeça: um mundo bem pior, longos passeios familiares a clínicas psiquiátricas
e um cagaço ‘da gota’ em deixar os filhos na escola.
Cinema,
teatro, praia e jogo de futebol encherão a veia do pescoço no intuito de
cumprir com o ‘distanciamento social’ suficiente em seus retornos: justamente
para aqueles velhos paradigmas em que “quanto mais lotado, melhor”. O lance da
bilheteria, ‘casa cheia’, ... podem esquecer: por baixo uns três anos dando nó
em pingo d’água. De repente, as supracitadas são franca-favoritas a
desaparecerem no ‘pós’ pandemia.
Será um
furdunço caso isso ocorra. A prova de honra: micareta em Salvador com
‘distanciamento social’. Carnaval em risco: a seguir, cenas dos próximos
capítulos.
Uma
coisa também parece ser fato: algumas atividades têm tudo para desaparecem
iguais a tantas outras que já não existem mais — curso de datilografia,
motorneiro, carrinho de algodão doce pelo bairro. “Tudo muda”, não é o que
dizem?! Se nessa lista entrar teatro, cinema, bares e restaurantes, qual o
problema, não?!
A
sociedade não chegou até aqui sem o encontro regado a alguma bebida, mas não
temos notícias de que as grandes mutações e revoluções que nos guiaram a esse
angustiante momento foram engendradas dentro de um bar. Afinal, o homem do
terciário, ou do quaternário, vivia em cavernas... não em bares e restaurantes.
Então...
se sumir, ... sumiu! Simples. Sem dramas ou maiores desatinos: a humanidade é
sempre maior do que quaisquer de suas criações e manifestações. Algumas
desaparecerão para dar lugar a tantas outras que pintarão na área.
Como,
por exemplo, o retorno da panificação caseira. O(A) sujeito(a), para não surtar
no confinamento da cela de sua casa, saiu danando a fazer pão. É abrir o
Instagram e se deparar com receitas de pães que jamais tínhamos ouvido falar.
“... olha que coisa boa!”. Não é?! É pão ‘pra’ tudo quanto é lado!
“Pão
disso”, “pão daquilo”, “pão daquilo-outro” ... pães, pães, pães. Pandemia
serviu para encher barriga, engordar horrores e salvar a vida financeira de uma
penca de moinhos. Nunca se vendeu tanta farinha, Deus-do-Céu! Isso também recai
sobre formas, fornos, gás de cozinha, fermentos... e toda aquela parafernália
para se fazer pão.
Mas não
foram somente “os(as) padeiros(as)-de-pandemia” que azucrinaram ‘timelines’ com
aquela tsunami de pão: quem recebia as benesses, na hora de se empanturrar com
o acepipe, enchia a paciência das redes sociais com mais e mais pães de tudo
quanto era jeito.
Rede
social para pão! Vejam, senhoras e senhores! Fotos de gatinhos, comilança,
ginástica em casa e... pão! Pão, pão, pão! Quem fazia e quem comia. A fim de se
evitar o enlouquecimento precoce, danou-se a fazer pão. Não querer enlouquecer
é um direito de todos. Enlouquecer todos os(as) demais com aquela infinitude de
pão em ‘timeline’ de rede social, aí, já é um certo exagero que só faz subir um
pouquinho mais as cercas já erguidas.
E as
‘lives’?!
Acho que
nem precisa, não?!
Tudo é
‘live’, como se transmissões ‘ao vivo’ (= ‘live’) fossem a “... invenção do
momento”. Puta merda! Está sendo osso! ‘Live’ de conversa, ‘live’ de música,
‘live’ de debate político ou literário, ‘live’ de pão, ‘live’ de peça de
teatro... só faltou ‘live’ de sexo — até o fechamento desse texto, seu autor
não teve notícias de tal empreendimento.
E tome
‘live’!
Mundo
despreparado, que acha que a energia elétrica “é tudo” e “será para sempre”,
quando é pego por algum viés de onde menos se esperava, acaba partindo “’pro’
arremedo”. Um troço! Aí... vejam só... descobriram que não conseguem sobreviver
sem público e sem ‘bordereaux’. Sem público, até dá para contornar. Sem
“bufunfa”, aí... é sem chance.
A
instituição gratuita do ‘live’, que pode ser realizada por qualquer um e ter
uma assistência completamente longe de uma interação mediada por pecúnia, acabou
sendo tutelada pelo boleto bancário. Afinal, nem relógio trabalha de graça, não
é mesmo?! Se há profissionais na música, na mesa de som, na luz e no
espetáculo, cabe sem sombra de dúvidas a remuneração justa e já bastante comum ‘nos
bares da vida’ bem antes dos decretos de quarentena.
Só
que... ficou... um arzinho de... “sambarilóvi!!!”. A velha disputa com aquela
penca de shows, um melhor que o outro, com seus artistas preferidos e
totalmente de graça nos ‘streamings de vídeo’ (como o ‘VocêTubo’, por exemplo),
colocou os(as) artistas menos renomados(as) em situação espinhosa ‘pacas’. Em
geral, pagamos por apresentações “concretas”, com interação imediata do(a)
‘performer’ bem na nossa frente, na nossa cara. Socorremo-nos aos ‘streamings’
somente quando perdemos o show, o(a) artista em questão faleceu ou a
apresentação ocorreu no outro lado do planeta. Caso contrário, pagar, só se for
de corpo presente.
“Ah...
mas é igual a TV a cabo! Você também paga para ver show lá...”, mas... que
diabos! Quem é que disse que eu pago TV a cabo para ver show?! Quem é que
realmente sabe se tenho assinatura de TV ou não na minha residência?! E se eu
não tiver? Continuo vendo show em ‘VocêTubo’, Vimeo, esses trens, sem pagar
nada por isso.
“Ah! Mas
você acha justo?!”. Sinceramente, nem um pouco. Acho injusto pacas. Só que não
inventei esse cenário: o ‘mundão’ é injusto ‘pra’ burro e já se vão uns dez mil
anos nessa injustiça. A ‘furação-de-olhos’ é antiga e ruim ‘pra’ corrigir,
fazê-la parar. Então, se cada um se vira com orçamento que tem por aí, ...
Ficou
meio óbvio que as ‘lives’ entraram na base do ‘sufoco’, na falta de dinheiro e
na impossibilidade de ganhá-lo pelos métodos “pré-pandemia”. Acho que esses
métodos retornam: deve tomar um pouco mais de tempo para recuperar a confiança
da galera, mas estarão de volta mesmo com alguma dificuldade (re)inicial.
O ponto
é que, aos poucos, o povão experimenta um fato que pode ser bastante incômodo,
perturbador, mas muito revelador ao mesmo tempo: o de descobrir que não
precisava de tanta quinquilharia assim para tocar a vida.
O pior:
economizaram uma penca e nem sentirão tanta falta assim.
Pois, é
isso o que ocorre: pães para não enlouquecer, ‘lives’ para pagar as contas. A primeira não segura a onda de uma rica
nutrição e a segunda não pega nem beira para a sustentação do espírito. Para
ocupantes da segunda (ou terceira?!) década do século XXI, de repente, é bem a
nossa cara: tudo tão fraco, insípido, tênue e tépido que não deveríamos ter
tamanho estranhamento. Fim-de-carreira, fim-de-feira, fim-dos-tempos...
apocalipse.
Pães para os(as) candidatos(as) a loucos(as), ‘lives’ para os(as) aspirantes à fome — ou seria o contrário?!? Bem... não importa! O importante é sacar o que vem por aí: se, porventura, o que já está é o que se estabelecerá, “êita” estreia mais sem graça, “sô”!



























