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"CATEDRAL", um conto de Raymond Carver

CATEDRAL Raymond Carver Aquele cego, um velho amigo da minha mulher, ia chegar para passar a noite em nossa casa. A mulher dele tinha morrido. Por isso ele estava visitando os parentes da sua falecida mulher que moravam em Connecticut. Ele telefonou para a minha mulher, da casa dos parentes da mulher dele. Ficou tudo combinado. Ele ia chegar de trem, uma viagem de cinco horas, e minha mulher ia encontrá-lo na estação. Ela não o via desde o verão em que tinha trabalhado para ele, dez anos atrás, em Seattle. Mas ela e o cego mantiveram contato. Gravavam fitas e mandavam um para o outro pelo correio. A visita dele não me deixou nem um pouco entusiasmado. Não era nem de longe um conhecido meu. E o fato de ser cego me incomodava. A ideia que eu tinha da cegueira vinha do cinema, cegos se movimentavam devagar e nunca riam. As vezes eram conduzidos por cães-guia. Um cego na minha casa não era uma coisa que eu pudesse aguardar com grande expectativa. Naquele verão em Seattle...

AFOGADO EM PAPEIS (uma crônica de Marcus Vinicius Batista)

Não consigo fugir deles. Guardo cada vez menos. Imprimo o mínimo necessário. Repasso cada vez mais. Um país cartorial como o nosso, quando a papelada chegou nas caravelas antes da nação, não perdoa: tudo precisa de papel. E, com ele, vem os "donos" das pilhas de folhas, os reis do frente e verso: os burocratas. A burocracia é um esporte cotidiano brasileiro. Tudo passa por um carimbo, um código, um número, uma assinatura, uma sigla, um registro que se sobrepõe a outro registro, que anula o registro anterior, que renova o registro para que tudo esteja devidamente registrado. Por quem? Para quê? Sempre desconfiei da burocracia. Você aprende com o tempo que, quase sempre, é uma cena para qual você foi convocado, jamais convidado. Seu papel é providenciar e entregar papéis. Folhas que cumprem protocolo, que se avolumam e ganham importância pelo tamanho, quase nunca pelo conteúdo. Poucos leram ou lerão a papelada. Prevalece a conferência, olhar que a ordem é a corre...

JOÃO e JEREMIAS - A PORRA DA HISTÓRIA (um folhetim beat de JR Fidalgo - 5ª de 16 partes)

CAPÍTULO VIII Não era exatamente uma reprodução exata do e-mail que Jeremias lhe enviara alguns dias antes. A linguagem original era truncada, volta e meia havia frases soltas, expressões em inglês (várias delas escritas de forma incorreta) e algumas palavras num dialeto semelhante ao castelhano que Jeremias parecia ter inventado para se expressar sempre que não encontrava as palavras que queria. Havia, no entanto, uma certa coerência naquele fragmento de história que ele tentava contar. Ou seja, Jeremias conseguia, pelo menos, passar a idéia do que queria dizer. Talvez por isso João tenha decidido perder um tempo considerável tentando dar um pouco mais de fluidez e ritmo ao texto que Jeremias mandara. Só depois de terminar de mexer no texto, percebeu que, embora houvesse decidido no dia anterior não pensar mais em Jeremias nem na sua história maluca, ele estava justamente começando a fazer o que Jeremias queria: começara a escrever a história que Jeremias achava tão i...