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LEVA UM CASAQUINHO RECEBE UMA NOVA CARTA DE NOSSA CORRESPONDENTE NA ITÁLIA

Microscópica Biografia Solange Menegale Piasentin nasceu no Rio de Janeiro e foi pra Brasilia aos 6 anos. Tem 58 anos. Cursou Letras na Unb, fez curso de extensão em Linguística na Universidade Clássica de Lisboa, professora de português e de italiano na UnB (Universidade de Brasília), funcionária no Consolado-Geral do Brasil em Milão (grandes merdas), e dedicou a vida toda à poesia, com livros publicados e vencedora de concursos em Roma e Pistoia. Vive na Itália há 20 anos e hoje é proprietária/gestora do Café Blondel, um café literário que promove apresentações de livros, autores novos, peças de teatro, música, quartetos de jazz, duo de blues, encontros sobre mercado business, saúde, naturopatia, xamanismo, filosofia etc. De fato, faliu...

WHITMAN, MEU BROTHER (por Flávio Viegas Amoreira)

I “discorre sobre o tempo Inconcluso a lua ovula encarnada domesticado o maldito medo rente ao rio olhar distante o astro agora de boa monta assoma o cristal divino inclina-me o rosto amado nessa lenda intima na soleira chovia com imprecisão num canto a noite se deteve artificial antúrio para o absurdo atente ao cotidiano do caminho: entretêm neste a colheita nos minutos: o desespero é o infinito para negar-me achei-me linha turva estreito e profundo rompendo qualquer som que reverbere limite que estenda até rota que se quebre aí vou destemor aí sigo se o que dou é todo meu destino avio-me no teu mesmo passo avanço porque sem teu rastro inacabado” II- “agora que dei contigo por que não há de amar–me um dia? e eu por que fui tão desatento à tua chegada? quero fazer contigo o poema das coisas inconcretas desfiar a abstração erguida do teu sexo o mais das coisas sem tradução e quand...

IMPUNIDADE GERAL (por Alvaro Carvalho Jr)

Diz a Constituição Brasileira de 1988 em seu artigo 84, sobre as atribuições do Presidente da República, parágrafo XII: “conceder indulto e comutar penas, com audiência, se necessário, dos órgãos instituídos em lei; ”. Portanto, Michel Temer, atual presidente (a gente sempre esquece dele...) tem todo o direito de dar indulto de Natal para aqueles que se encaixem nas regras já pré-estabelecidas. Portanto, o resultado do STF apenas confirma o que diz a lei e deve ser respeitado. Moral? Imoral? Essa é a questão a ser discutida. Não concordo com o indulto, muito bem definido nas redes como insulto, e considero que se Temer tiver só um pouquinho de vergonha na cara, não dá indulto para ninguém. Simples assim. Porém, devemos considerar que Temer não é um bom exemplo de dignidade moral. Basta listarmos todas as sujeiras que apareceram e que incluíam seu nome como um dos envolvidos. Particularmente aquela reunião com um dos irmãos Wesley na calada da madrugada, quando se deu o pont...

E O NARIZ NEM CRESCE (por Marcelo Rayel Correggiari)

Na primeira semana de novembro (ou segunda), esse modesto merceeiro soltou uma que não seria nada demais (ou para se pensar!) no caso das coisas jamais se tornarem sérias: sobre o talento nacional de se (só!) mudar as moscas. No interiorzão de Minas (válido também para o Vale do Jequitinhonha e Goiás Velho), há uma instituição chamada “mentira benta”. Em outros lugares do país, vai de “mentira santa”, mentirinha dita quando os efeitos colaterais da verdade são arrasadoras. A “mentira benta” (ou “santa”!) não seria necessariamente uma mentira, mas uma ocultação. Tipo de troço que não é mentira, mas a verdade. Contudo, apenas uma pequena porcentagem da segunda. Não é mentira, apenas a verdade, porém longe de sua totalidade: quem sabe, somente 20% do fato. Mesmo! É uma ‘omissão do holístico’: afinal o(a) corno(a) sempre será o(a) último(a) a saber. Costume popular de se poupar a vítima (ou alvo) de uma verdade aterradora (quando em sua totalidade) até para quem ficou a cargo...

O REMÉDIO DA PRÓXIMA PÁGINA (por Marcus Vinícius Batista)

Estava há dois meses sem escrever. Ainda sou incapaz de detectar a fonte deste comportamento, mas tenho minhas desconfianças. Desconfio que tenha relação com uma percepção de papéis. Meu papel e o papel da literatura. Nestas oito semanas de abstinência, cheguei a ficar incomodado com o fato de não produzir um texto sequer, exceto uma contracapa de livro. Cheguei a encarar como uma espécie de paralisia, algum tipo de transtorno que padecesse de tratamento. Estava, segundo este olhar, à frente da porta da depressão literária. A reflexão sobre a angústia que me acometia me levou a uma resposta tão iluminadora quanto uma notícia de cura. Eu havia sido vítima de um falso diagnóstico. Erro meu. Enxergava apenas uma parte do quadro, olhava para o que seria um sintoma, quando deveria ter visto a etapa de um processo contínuo de metamorfose. Se passei dois meses sem escrever, atravessei dois meses lendo como poucos, como em poucas fases de minha vida. Li cerca de dez livros ...

O JOGO DO DESAPEGO (por Beth Soares)

Volta e meia a questão do desapego volta à pauta de destaque entre os milhares de assuntos que se intrincam na minha mente. Passei longos dias inconscientemente bolando um discurso no qual eu era, ao mesmo tempo, oradora, ouvinte e personagem desapegada. Reuni provas, testemunhos, dediquei meus ouvidos analíticos a histórias sobre mim que legitimavam essa ideia, ainda que quem as contasse fosse eu mesma, do alto do meu posto de observadora profundamente parcial. Eu, desapegada, doei tantas roupas, sapatos, móveis, ao longo da vida emprestei tantos livros que não foram devolvidos e nunca mais fiz questão deles. Doei tanto à caridade, seja em forma de dinheiro, comida, ouvidos atentos ou trabalhos não-remunerados. Não é este um grande exemplo de desapego ao presente? Além disso, não sinto essa tal saudade do passado, que observo permear a vida de tantas pessoas. Não tenho interesse em querer revivê-lo, como tantos tentam. Para dizer a verdade, acho mesmo é triste que ...