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A CORTE DO BOBO (por Demétrio Magnoli)

A CORTE DO BOBO Por Demétrio Magnoli O guru bolsonarista adula seu rei para iludi-lo, conduzindo-o à beira do precipício Os soberanos renascentistas empregavam um profissional encarregado de entreter os cortesãos e, antes de tudo, a si mesmos: o bobo da corte. A entourage bolsonarista tem um personagem assim, que é Olavo de Carvalho. Mas, com uma diferença: por aqui, a corte é que presta serviço ao bobo. Nas cortes do passado, recrutavam-se bobos no próprio círculo da nobreza, entre jovens com deficiência mental. Mais comumente, eles eram pinçados entre comediantes que cantavam ou dançavam em grupos de saltimbancos. Salvo engano, Olavo enquadra-se no segundo caso. Depois de tentar a sorte como astrólogo e islamita, ele vestiu a fantasia de filósofo e passou a exibir truques intelectuais primários no palco itinerante da internet. O ofício de comediante intelectual propiciou-lhe uma carreira precária no diversificado mercado da autoajuda —até que, miraculosamente...

PAUL KLEE O POEMA (por Flávio Viegas Amoreira)

PAUL KLEE O POEMA O prazer do conjunto condensação essencialidade na estilização infinita do traço liberto do rebento método mítico [ somos poucos quando não sentimos ] aparente solidez sujeito-objeto onde nada se explica explicar é falho pouco tudo se sugere água do rio nenhuma vacuidade dualidade toda fluidez interdependente toda oferta aos sentidos como pegos em flagrante tal prisma em teu parapeito onde exista vida além desse barulho refratar refletir sem da linha ao ponto rígido sem vezo arremesso pólen arborescendo abstraindo ao cerne tudo no instante fértil traço cor motivo amanhece nem começo nem término noutra linguagem Poeta, contista e crítico literário, Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas vozes da Nova Literatura Brasileira surgidas na virada do s...

MEU VÍCIO (por Marcus Vinícius Batista)

Olá, boa tarde! Meu nome é Marcus Vinicius Batista e sou viciado em refrigerante, exclusivamente nos de cor negra, seja embalagem vermelha, seja embalagem azul. Enquanto você lê este texto (ou participa desta reunião comigo), completo 76 dias sem ingerir uma gota de bebida gasosa gelada, um recorde pessoal, uma marca revista e celebrada todos os dias. Quando descobri que tinha diabetes, há oito anos, tinha 40 quilos a mais de peso. E bebia, principalmente no período da tarde, dois litros de refrigerante por dia. Não havia ocasião especial para que isso acontecesse. Bebia trabalhando. Bebia vendo filme. Bebia corrigindo provas. Bebia porque era (e continua sendo) gostoso. Qualquer comida, doce ou salgada, servia como desculpa para um refrigerante como acompanhamento. Sem comida nenhuma, o refrigerante matava a sede. Fornecia cafeína para me manter acordado. Induzia ao sono pela sensação de fastio. Aqui, uma pausa. Água é minha bebida preferida e ela era consumida em...

CONTORÇÃO, RETORÇÃO E DISTORÇÃO (por Marcelo Rayel Correggiari)

"(...) Isso explica porque acho que os pós-modernistas também estão errados. Eles dizem algo como: "Há um número infinito de interpretações do mundo". Isso realmente é verdade. Mas, aí, eles cometem um erro ao afirmar: "Nenhuma interpretação tem privilégio sobre qualquer outra interpretação". ERRADO! ERRADO! É aí que as coisas começam a desencarrilhar. (...) Há um número infinito de interpretações, mas há um número finito de soluções. As soluções são restringidas pelo mundo, e pelo nosso sofrimento no mundo, e também restringidas pelo fato de que uma pessoa restringe a outra. É por esse motivo que eu acho que eles estão terrivelmente enganados. (...) Nunca vi, durante todos esses anos de trabalho como psicólogo clínico - e isso é algo que me aterroriza de verdade - nunca vi alguém sair ileso de qualquer coisa nem mesmo uma única vez! (...) Talvez vocês não concordem, talvez vocês acreditem que pessoas podem sair ilesas o tempo todo. Eu digo: nunca vi iss...

A SOLIDÃO DO HOMEM FOFO #2 (por Germano Quaresma aka Manoel Herzog)

A SOLIDÃO DO HOMEM FOFO Capítulo V Depois de cumular os lábios de Mateos dos mais doces beijos de seu portfolio, Sâmila, sem calcinha, enverga um vestido preto e sai para a faina diária, no banco. Não sem antes, à porta do quarto, e propositadamente, abaixar-se em noventa graus para apanhar algo atirado ao chão, deixando à mostra um organismo bivalve dos profundos mares do amor. Mateos, por pura graça, começa a entoar um cântico Hare Krishna. Ela parte, airosa. Tão logo parte ela, abre-se a porta do outro quarto do apartamento, de onde a cara amarfanhada e Kleber surge dentre um halo de álcool e cefaleia. Peida, por provocar o amigo, e ruma pros escombros da mesa do jantar, donde sequestra uma patanisca de bacalhau esquecida no prato de alguém. "Tá comendo bem, hein?" Mateos repreende a grosseria: "Não como: faço amor." "Ah, vai tomar no teu cu." Capítulo VI "Grosso." "Velho, não tô te entendendo....