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Showing posts with the label Mistura Fina

O FLAUTISTA RUSSO (por Carlão Bittencourt)

“ Se você quiser civilizar um homem, comece pela avó dele ” (Victor Hugo) Começo dos anos setenta, São Paulo. O Brasil oficial estava cada dia mais distante do povo brasileiro. A ditadura não dava vida fácil a ninguém. E a coisa ainda iria piorar. Muito. Qual o Bebê de Rosemary, após longa gestação nas entranhas do poder, o nascimento do AI-5 anunciou a chegada dos anti-cristos para assombrar o país. Fardados ou paisanos. Tempos duros. Sair à rua sem documentos era correr um alto risco. De vida. O rapaz magro, barbudo e cabeludo, deixou calmamente a boate Zibuca, em frente ao Cemitério da Consolação, no Centro, como fazia todos os dias. Eram cinco horas da manhã. Na mão esquerda, levava a caixa preta com a flauta alemã, seu ganha-pão. Era músico. Tocava na noite. Parou junto ao meio-fio, acendeu o cigarro e fez sinal para um táxi mirim*. O motorista parou. O passageiro entrou, anunciando seu destino: Santo Antonio com 13 de maio. O táxi partiu. Dimitry sentiu um ca...

BONDE 19 (uma reminiscência de Carlão Bittencourt)

Era noite alta. O 19 chegou na praia do José Menino. O rapaz pegou o bonde e a esperança. 15 anos são uma eternidade. Pensava em mulher o dia inteiro, a noite toda. 24 horas no ar. Em pé, orgulhoso e altaneio. E só desejava deusas, do Olimpo para cima. Olimpia, sil vous plait. Do chamado produto nacional, a eleita era a vedete Rose Rondelli, a deliciosa Miss Campeonato. Meu Deus, que coxas! Correndo por fora, a deliciosa cantora Dóris Monteiro vazia o place. E a nudez frontal absoluta da atriz Norma Benguell em Os Cafajestes, a trifeta. A estupenda e opulenta Carmem Veronica ficava na reserva. Reserva para lá de especial. Mas era nos produtos importados que morava o pecado. Ao lado. Mariln Monroe, absoluta com aquela boca carnuda entreaberta e sempre úmida. Sem esquecer dos abismos de seus decotes e do andar apressado, as pernas juntas, balançando a bundinha. Que mulher! Ava Gadner dispensava detalhes: era perfeita dos pés, lindos, aos cabelos negros cacheados. Uau! E tinha Br...

MARAVILHOSO: O SALÃO DE BILHAR DEFINITIVO (por Carlão Bittencourt)

Maravilhoso. O nome é feliz. E a razão é simples: de todos os salões de sinuca que já fizeram a alegria dos aficionados pelo pano verde na cidade de São Paulo, o Maravilhoso foi o melhor. Sem exagero. Era um templo para todos aqueles que jogavam sinuca nos anos 60 e 70. Para aquela confraria, composta por anônimos do cotidiano, onde se destacavam malandros de jogo, leões-de-venda, desocupados, estudantes, aposentados, bicheiros e outros tipos, o Maravilhoso era solo sagrado. A começar pela sua localização, junto a um dos pontos míticos da cidade: a esquina das avenidas Ipiranga e São João. Ali ficava ele, do lado esquerdo de quem subia a primeira avenida em direção à segunda, no número 878, pouco depois do terminal do Expresso Luxo e pouco antes do Bar e Restaurante Avenida. Na entrada, rente à calçada, uma comissão de frente recebia os freqüentadores. Eram duas fileiras longas de pesadas cadeiras de engraxates, uma de frente para a outra. Na batucada da vid...

OURO VERDE, RODA DE SAMBA, RODA DE BAMBA (por Carlão Bittencourt)

“Já cantei muito samba, eu já fui batuqueiro e, na roda de bamba, fui diretor de terreiro. Cantei sim...”. É verdade. Nos meus 64 carnavais, não passa um dia em que pelo menos um belo samba não toque em minha cabeça. Que fazer? Sou assim. Desde sempre. Portanto, sou fora de moda. Graças a Deus. E ao meu bom gosto musical. Quer um exemplo? Lá vai! Gosto demais de Cyro Monteiro, Roberto Ribeiro e Germano Mathias. Outro? Adoro Ari Barroso, Lamartine Babo, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa e Dorival Caymmi. Mais um? Amo Cartola, Pixinguinha, Tom Jobim e Chico Buarque. Sem nunca me esquecer de louvar e agradecer aos mestres Ataulfo Alves, Adoniran Barbosa, Nelson Sargento, Candeia, Paulinho da Viola e os outros Paulos: Paulo da Portela, Paulo Vanzolini e Paulo César Pinheiro. Como disse, sou assim. Felizmente. Tinha eu 14 anos de idade quando... toquei um surdão pela primeira vez. Pode? Toquei e fui tocado por ele. Para sempre. Meu coração nunca mais bateu como antes. Fico...

BOLEIROS DE AREIA (por Carlão Bittencourt)

A Orla de Santos é um espetáculo. Perto de nove quilômetros de jardins tão lindos que encantaram até ao Guiness Book, o livro dos recordes. Com merecimento. Pouco além dos jardins, fica a praia, não menos bonita. E famosa. Uma faixa de areia das mesmas dimensões generosas da área verde, mas com uma diferença: o que brota ali não são flores, mas craques de futebol. E são muitos. Incontáveis. Como grãos de areia. Por isso, esta história vai falar de alguns deles. Onze, para sermos mais exatos. Uma seleção. Um time de boleiros de areia do passado. Mas vale a pena conhecê-los. Veja a escalação: Julinho, Lúcio, Baianinho, Papagaio, Celsinho, Dereto, Carlinhos Metralha, Luís Antônio, Zezé, Nélson Primo e Gigi. Todos estes caras sabiam jogar bola. Muita bola. Acredite. Eram fenômenos. De verdade. Entretanto, nenhum deles virou profissional. Por quê? Simplesmente porque eles gostavam demais de jogar bola. Adoravam o futebol de praia. Do fundo da alma. Só isso. Por pa...