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Friday, December 16, 2016

CAFÉ E BOM DIA #43 (por Carlos Eduardo Brizolinha)



Mais um ano esperando Godot. O argumento da peça pode ser facilmente sintetizado, uma vez que não há propriamente um enredo, mas uma ação estática: a espera. A primeira frase dita na peça, por Estragon, já indica a inutilidade da presença deles naquele lugar: "nada a fazer". Os dois iniciam um diálogo trivial que só será interrompido pela entrada de Pozzo e Lucky. O aparecimento destes assusta os amigos, ainda mais pelo modo como os dois surgem: Pozzo puxa uma corda cuja outra ponta está amarrada ao pescoço de Lucky. Lucky, por sua vez, carrega uma pesada mala que não larga um só instante. O segundo ato é a cópia fiel do primeiro. O próprio Beckett explicava a necessidade dos dois atos, uma vez que um só deixaria no espectador a vaga esperança da vinda de Godot, no dia seguinte. O enredo pode ser facilmente resumido, mas as leituras, interpretações e inquietações suscitadas pela obra parecem inesgotáveis. Vladimir/Estragon e Pozzo/Lucky. os dois vagabundos estão colocados num plano mais alto na peça, porque são superiores a Pozzo e Lucky, por serem menos ingênuos. Não acreditam em ação, riqueza ou razão. São menos egocêntricos e têm menos ilusões. São conscientes de que o suicídio seria a melhor saída, apesar de não praticá-lo. A última ilusão que alimentam é o hábito da esperança pela vinda de Godot.


2016 - SUBMISSÃO - Todos conhecemos pessoas doces, indolentes, transparentes ou que se fazem de simpáticas que, com o uso e o tempo, se revelam, sob o verniz, heróis, tiranos, loucos, sectários ou gênios. Sofremos então um choque: como nos tínhamos enganado em relação à pessoa que temos agora à nossa frente e que está já a anos-luz daquela que olhávamos ainda há instantes. Michel Houellebecq é um choque permanente. Não é possível ignorá-lo. É o grande homem dos franceses e da sua literatura, comparado a Balzac. É um choque a sua omnipresença há 15 anos — a densidade do seu pensamento, a força do seu estilo. Um choque, também, a polêmica que desencadeia cada vez que aparece, obrigando-nos a questionar-nos. É raro que se faça boa literatura com bons sentimentos. Tragédias, policiais, poesia, ensaio ou romance: todos os gêneros carregam a sua massa de sofrimento, mal-estar, dramas a exorcizar. E Houellebecq é um mestre na arte de fazer zoom sobre o quotidiano de personagens perdidas e algo desinteressantes para, logo de seguida e num movimento inverso, oferecer um panorama particular do mundo e uma relação entre fatos aparentemente insignificantes. O virtuosismo de Houellebecq é notável, nomeadamente nas suas litanias descritivas de fatos insignificantes, do ordinário mais sórdido ou de coisas aparentemente enfadonhas. Instruções de electrodomésticos, sociologia de uma empresa, descrição pelo rótulo de um prato ultra congelado, funcionamento do Minitel, relatório detalhado dos ruídos produzidos por uma velha caldeira. Irá mesmo descrever com extremo pormenor uma espécie de mosca em O Mapa e o Território, e Houellebecq sabe tornar fascinante um aspirador. Foi das melhores leituras deste ano.


Vive-se uma época de incertezas. Até a economia, o capital, que parecia o centro do mundo (como debocha Calígula), tem os seus dogmas abalados. As morais tradicionais faliram. As pessoas estão livres mas com medo. Calígula está mais vivo do que nunca, como é profetizado no final da peça. E não é mais possível ignorá-lo ou eliminá-lo com punhaladas. O que fazer: todos se tornarão loucos ou assassinos sem limites? É melhor viver na hipocrisia ou em um cinismo moralista e não querer saber do desejo do impossível que está dentro de cada um? O texto de Camus pode indicar uma alternativa. Há um personagem e uma condição que estão o tempo todo presentes, mesmo que através da ausência: a lua e a impossibilidade de tê-la. E talvez esta impossibilidade seja hoje a única verdade e chance de organização quando não dá mais para esconder Calígula debaixo de uma moral qualquer. Confesso minha paranoia, não sei se a origem está nas minhas leituras de "Édipo Rei", "Antígona", "Rei Lear" ou o "Livro de Jó" que tornei ler empolgado que fiquei com a explanação recebida de José Carlos Bertoni. Refletindo creio que foi através de tais obras que posso dimensionar o máximo de que um ser humano é capaz. A violência invade a consciência e macula a liberdade. O ponto de partida da literatura ocidental " Íliada " Homero podemos nós abrir aleatoriamente e que lemos neste poema de guerra pejado de violência? (...) Idomeneu golpeou com a lança no meio do peito dele e quebrou a lança. A bela armadura de bronze que outros tempos tinha protegido seu corpo. Ele gritou um grito forte, pois a lança tinha penetrado em seu coração que fazia com que a lança se mexesse. (...) É uma obsessão pelo horror narrada com uma tristeza amarga. É o horror épico. Somos sobreviventes do ritmo frenético de violência que já não estão só nos épicos, mas no silêncio mortífero de mão que manipulam canetas.

CAFÉ AMARGO PARA ASSISTIR JÓ X CALÍGULA. BOM DIA


Carlos Eduardo "Brizolinha" Motta
é poeta e proprietário
da banca de livros usados
mais charmosa da cidade de Santos,
situada na Rua Bahia sem número,
quase esquina com Mal. Deodoro,
ao lado do EMPÓRIO SAÚDE HOMEOFÓRMULA,
onde bebe vários cafés orgânicos por dia,
e da loja de equipamentos de áudio ORLANDO,
do amigo Orlando Valência.

Thursday, June 30, 2016

SAMPA WEEKEND (1 a 3 de JULHO de 2016)


FIM DE PARTIDA
SESC Pinheiros
até 28 de Julho
Depois de ter se apresentado no Festival da Cultura Inglesa de 2015, Fim de Partida (Endgame), espetáculo com texto de Samuel Beckett, dirigido por Eric Lenate, segue carreira no Auditório do Sesc Pinheiros, no próximo dia 2 de junho, quinta-feira, às 21 horas. A principal diferença dessa estreia está no elenco: Rubens Caribé e Ricardo Grasson, presentes na primeira apresentação, se juntam ao próprio Eric Lenate e Miriam Rinaldi. Os personagens Hamm, Clov, Nagg e Nell estão presos em um abrigo, supostamente, à beira-mar e a plateia compartilha do desconforto ao qual os personagens estão submetidos. Propriamente encarcerados e enlatados, eles travam diálogos poéticos, impactantes e, por vezes, abismais sobre a condição humana, a solidão e o sem sentido da existência. Hamm é um artista fracassado. Encontra-se cego e paralítico. Clov é seu serviçal e possui uma doença que não o permite sentar. Nagg e Nell são os pais de Hamm e também têm mutilações. Vítimas de um apocalipse emocional, os quatro dividem o abrigo. Espiam o mundo, ou melhor, o que restou dele, pela luneta de Clov. Um clássico do teatro moderno, que merece ser visto.
A ANTA DE COPACABANA
SESC Vila Mariana
até 29 de Julho
Escrita e dirigida por Rafael Gomes, os personagens principais de A Anta de Copacabana são o surto e a loucura de um morador do bairro carioca. A loucura é comparada a uma criança, pela sua capacidade de quebrar regras e convenções, além de mostrar, sem cerimônias, as hipocrisias e contradições do mundo. Quem assume o papel de louco é o ator Adriano Petermann, que vive um morador obcecado por Copacabana. Passando por um momento de crise existencial, o personagem divaga pelas suas lembranças no bairro. A peça de Gomes faz parte de uma trilogia sobre a solidão, a loucura e a existência. Petermann é formado pelo Centro de Pesquisa Teatral, de Antunes Filho e trilhou uma longa carreira no teatro, cinema e televisão, trabalhando com textos icônicos de Strindberg, Shakespeare e Nelson Rodrigues.
VIOLA PAULISTANA
SESC-Pompéia
1 de Julho
(21 horas)
A proposta do Viola Paulistana é apresentar um mosaico musical com artistas representantes de diferentes vertentes da música de viola, que teve início no campo e hoje ocupa espaços maiores na cidade. A apresentação reúne artistas que representam bem a diversidade de estilos. Cacique e Pajé, Arnaldo Freitas, Milton Araújo, Trio Tamoyo e o convidado Índio Cachoeira passaram por diversos formatos do estilo, desde seu modelo mais tradicional, com polcas, guarânias e rastapés, chegando ao estilo mais fundido com outros gêneros urbanos.
LÔ BORGES E SAMUEL ROSA
SESC-Pinheiros
1 a 3 de Julho
(21 horas)
Ícones de diferentes gerações de músicos egressos de Minas Gerais, Samuel Rosa e Lô Borges fizeram seu primeiro show juntos em 1999, motivados por uma admiração mútua. Vocalista do Skank, o primeiro bebeu direto da fonte do Clube da Esquina, movimento musical do qual o segundo foi um dos expoentes. Borges, por sua vez, demonstrou seu apreço ao gravar, em 1996, uma versão de Te Ver, hit da banda de Rosa. Agora eles celebram essa afinada parceria reunindo forças para mais uma apresentação, lançando na cidade o DVD que gravaram juntos em 2015. O repertório estará repleto de sucessos de ambos. Da lavra de Borges com colegas do Clube, canções como O Trem Azul e Para Lennon e McCartney dividem espaço com sucessos do Skank, como Resposta. Somam-se ao roteiro composições conjuntas, a exemplo de Dois Rios, que Rosa e Borges assinam com Nando Reis, e duas inéditas.
ORQUESTRA IMPERIAL
SESC-Pompéia
1 e 2 de Julho
(21 horas)
A big band carioca Orquestra Imperial comemora 100 anos de samba na comedoria do Sesc Pompeia nos dias 1 e 2 de julho, às 21h30. O grupo revisita os maiores clássicos de todos os tempos, interpretando canções de consagrados artistas como Cartola, Almir Guineto, Noel Rosa, Elton Medeiros, Wilson Batista e Wilson das Neves – que também é integrante da banda. A banda - considerada uma orquestra de gafieira – foi formada em 2002 e hoje é composta por Moreno Veloso (voz), Emanuelle Araujo (voz), Nina Becker (voz), Duani Martins (voz, cavaquinho e percussão), Rubinho Jacobina (voz e teclado), Pedro Sá (guitarra), Felipe Pinaud (faluta e guitarra), Berna Ceppas (teclados, guitarra e efeitos), César “Bodão” (bateria e percussão), Domenico Lancelotti (bateria e percussão), Altair Martins (trompete), Kassin (baixo), Zé Bigorna (sax e flauta), Bidu Cordeiro (trombone), Zero (percussão), Leo Monteiro (percussão eletrônica), Marlon Sette (trombone), Rodrigo Bartolo (gruitarra) e Stéephane San Juan (percussão).
CHES SMITH TRIO
SESC Belenzinho
3 de Julho
(18 horas)
Ches Smith é um baterista e percussionista norte-americano. Nascido em San Diego, Califórnia e criado em Sacramento, Smith vem de uma cena de músicos punk e metal que escutavam e experimentavam o jazz e a improvisação livre. Ao longo de sua carreira, trabalhou com músicos como Marc Ribot, Terry Riley ou Wadada Leo Smith, e está lançando seu novo disco: The Bell. Prepare-se para um espetáculo musical inusitado, do tipo que desafia classificações.