por Marcelo Hessel
para OMELETE
Como naquele quadro do CQC em que comentaristas de Internet sĂŁo chamados a defender seus pontos de vista diante da cĂąmera no "mundo real", o terror psicolĂłgico em Bata Antes de Entrar (Knock Knock, 2015) surge da perplexidade de ver nossas noçÔes de convĂvio se desmancharem diante dos nossos olhos quando o virtual invade a realidade.
Essa seria uma forma de enxergar o filme dirigido por Eli Roth, simpĂĄtica ao drama absurdo do seu protagonista, vĂtima de uma fantasia pornĂŽ que se materializa em tribunal, mas logo descobrimos que nĂŁo Ă© a Ășnica.
O longa abre com travelings que descem do cĂ©u e vĂŁo reduzindo seu raio de alcance atĂ© chegar Ă isolada casa de Evan (Keanu Reeves) nos arredores de Los Angeles, como um comercial de operadora que mostra o sinal da Internet viajando e trazendo o mundo para a sua porta. Esse contato com o exterior, com o mundo fĂsico (e que fĂsico!, na forma de duas jovens belas e desequilibradas que invadem sua vida no Dia dos Pais), tem tudo para abalar Evan, um arquiteto que vive de simulacros: fotografias vĂĄrias da mulher e dos filhos projetam uma famĂlia feliz, esculturas e instalaçÔes projetam uma esposa bem sucedida como artista plĂĄstica, a picape de DJ e os vinis projetam no pai de famĂlia acomodado a imagem de um jovem livre de cabelos longos e rebeldes.
O cuidado da cenografia em Bata Antes de Entrar Ă© menos de criar um mundo crĂvel para esse personagem e mais de construir ao seu redor uma fantasia bastante ostensiva de realizaçÔes e de felicidade. Para Roth parece importante demarcar essa alienação para fazer de Evan uma versĂŁo quase cartunesca de nĂłs, o pĂșblico majoritĂĄrio, branco, heterossexual, de classe mĂ©dia-alta, cuja "realidade" hoje tambĂ©m tem muito de construção ficcional. A opção pela sĂĄtira, de qualquer forma, se confirma ao longo deste filme de invasĂŁo domĂ©stica que conserva alguns resquĂcios dos torture porn que tornaram Eli Roth famoso (e que jĂĄ miravam boa parte do seu sadismo para questĂ”es de classe e justiça social).
Enquanto narrativa, Bata Antes de Entrar começa a ficar mais interessante quando as ilusĂ”es se desfazem num nĂvel estrutural: nossa expectativa de assistir a um terror de invasĂŁo tradicional, em que o dono da casa chega ao limite e protege seu territĂłrio abdicando da civilidade (com frequĂȘncia no cinema americano o despertar para a realidade Ă© um despertar para a violĂȘncia), Ă© negada com uma sĂ©rie de pistas faltas dadas por Roth. Uma delas Ă© o insistente plano que mostra a impressora 3D no escritĂłrio de Evan, com seu aviso de perigo, sugerindo que o objeto Ă© o favorito a virar arma de defesa no clĂmax do filme.
Mas Roth nĂŁo sĂł reluta em tornar Evan um "herĂłi", como o diretor se dedica a fazer de Bata Antes de Entrar um registro da perplexidade desse homem de bem diante da barbĂĄrie. NĂŁo por acaso, o momento de explosĂŁo decisiva de Evan se manifesta num monĂłlogo. A comparação que vem Ă mente Ă© com Fim dos Tempos de M. Night Shyamalan, que tambĂ©m se preocupa mais em registrar nos close-ups do seu protagonista as reaçÔes de fisionomia. Keanu Reeves e Mark Wahlberg tĂȘm em comum - alĂ©m de um esforço de expressividade que sempre pareceu muito penoso para os dois atores - nesses dois filmes o completo desconcerto diante do absurdo que presenciam.
"Não era um sonho", diz ao fim a pixação de batom no espelho, como se sacramentasse o fim da divisão entre o virtual e o real. Embora sempre deixe a impressão de ser não um cineasta rigoroso mas um cultor de imagens fåceis de impacto, Eli Roth consegue em Bata Antes de Entrar criar de fato uma atmosfera muito bem controlada de desconforto, jogando com aquilo que projetamos (tantos nossos medos quanto nossas fantasias) para questionar nossas certezas, nossa hipocrisia e nossas noçÔes de justiçamento.
KNOCK KNOCK - BATA ANTES DE ENTRAR
(Knock Knock, 2015, 99 minutos)
Diretor
Eli Roth
Fotografia
Antonio Quercia
Roteiro
Eli Roth
Nicholas Lopez
Guillermo Amoedo
MĂșsica
Manuel Riveiro
Elenco
Keanu Reeves
Lorenza Izzo
Ana de Armas
Ignacia Allamand
Aaron Burns
Colleen Camp
em cartaz nas Redes Roxy e Cinemark





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