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A GOLEADA DE ZERO A ZERO (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)



Naquela manhã de sábado, os jogadores de Brasil e Alemanha estavam perfilados. Não havia clima de batalha campal ou jogo decisivo. Era um amistoso, uma troca de gentilezas bem pensadas, refletidas em crônicas esculpidas com semanas de antecedência. A cada alemão que estufava os ouvidos da plateia com a relação entre infância e futebol, um brasileiro acertava o cantinho dos corações dos ouvintes, ora com lirismo, ora com bom humor.

Um mês antes dos 7 a 1, aquela disputa entre alemães e brasileiros tinha prognóstico único: o empate. Na verdade, acabou num 7 a 7 que compartilhava experiências de vida e amor pelo esporte. Quatorze escritores driblaram inibição e frio para preencher, com histórias, o auditório do Sesc-Interlagos, em São Paulo. Escritores brasileiros e alemães, abraçados por Seo Pepe.

No final da peleja literária, um dos alemães fez surgir uma bola, réplica da Copa do Mundo, mas em tamanho menor. Os escritores iniciaram a troca de passes, ainda sentados, até que um dos alemães engrossou o caldo. Ou se rendeu àquela que não se permite dominar pelos comuns. A bola, desviada para a frente do palco, caiu na primeira fila da plateia. A bola deslizou, mansamente, e parou no pé esquerdo de quem até então ouvia em silêncio.

A bola descansou no pé esquerdo de Seo José Macia, o Pepe, que a ninou como só os pais de vocação e ofício sabem fazer.

Beth, minha mulher, antes que os próprios escribas notassem e aplaudissem, me sacudiu e disse:

— Olha quem a bola procurou!

À tarde, me aproximei de Pepe, com a tarefa de acompanhá-lo discretamente juntos com outros atletas do Pindorama, time nacional de escritores, que enfrentaria a Alemanha no dia seguinte. Pepe é o técnico de honra da equipe brasileira.

Com a frágil esperteza dos jogadores medíocres, encostei no braço dele, o cumprimentei e perguntei: Brasileiros e alemães pouco antes do amistoso

— Seo Pepe, este é o pior time que o senhor dirigiu?

Ele olhou para mim, fechou a cara e pensou. Um segundo depois, sorriu e disparou, como se a frase a seguir fosse a bola diante da canhota dele.

— Sem a menor sombra de dúvida!

Às gargalhadas, pediu licença para um café. Nós nos encontraríamos meia hora depois, prontos para tomar o ônibus de volta ao hotel. Tentei uma nova abordagem, um drible que o surpreendesse:

— Seo Pepe, tenho que te agradecer. O senhor dirigiu meu time favorito na última grande conquista. Muito obrigado!

— Qual time, garoto? O São Paulo?

Eu conseguira driblá-lo. Um drible curto, sem muito avanço no campo, mas um gingado eficaz.

— Não, Seo Pepe, o senhor acertou o adversário. O senhor levou a minha Portuguesa Santista às semifinais do Paulistão, em 2003. Perdemos para o São Paulo, lá no Morumbi. Hoje, a Briosa tá na quarta divisão.

— Puxa, é mesmo! Sensacional aquele time. Montamos um timaço! De quem você se lembra, garoto?

— Do Rico, do Souza e do Adriano, que foram jogar no próprio São Paulo.

— O goleiro era o Maurício. Excelente rapaz, excelente goleiro.

— Ele jogou no Corinthians, Seo Pepe.

— Ele mesmo, garoto. Você se lembra da escalação?

Daí para frente, veio o baile, o chocolate, o sacode, a surra. Bola por baixo das pernas, drible da vaca, lençol e chapéu. Seo Pepe tinha a escalação de cor, mais o banco de reservas. Jogadores que eu havia me esquecido, nomes que me fizeram ficar em silêncio, seguido de causos daquele time que venceu o Palmeiras do goleiro Marcos e alcançou a melhor posição de sua história no estadual. A chegada ao ônibus interrompeu a aula. O time brasileiro de escritores, depois do bravo empate.

No dia seguinte, encontrei Seo Pepe pouco antes da partida contra a seleção de escritores alemães. Depois da solenidade de abertura, me sentei ao lado dele no banco. Sereno, Seo Pepe cedia com educação às dezenas de pedidos de fotografias de visitantes, torcedores, parentes de funcionários, jornalistas, mais insistentes do que os zagueiros que um dia o perseguiram.

Joguei o segundo tempo do amistoso, enquanto Seo Pepe permaneceu tranquilo no banco, sem se abalar com os maus tratos que a bola sofrera de lado a lado. Provavelmente, a bola o olhava ali fora e entendia que tinha que sofrer por ele, para ele.

Nós, brasileiros, aguentamos o 0 a 0, igualdade comemorada como vitória, em face dos 9 a 1 sofridos na Alemanha, em 2013. Pude colaborar com cinco defesas, que geraram agradecimentos de vários colegas-escritores-jogadores.

Depois dos cumprimentos e abraços em amigos e adversários, andei até à beira do campo. Seo Pepe estava lá, em pé, paciente e com um sorriso de canto de boca. Quando passei por ele, bateu no meu braço esquerdo e disse: “Muito bem, garoto, muito bem.”

Aquele 0 a 0 foi a maior goleada que apliquei nos últimos anos. E em cima da Alemanha!



(publicado originalmente em CONVERSAS E DISTRAÇÕES em 22 de Abril de 2017)

 
Marcus Vinícius Batista
é o cronista santista número um, ponto.
É autor de "Quando Os Mudos Conversam"
Realejo Livros)
coletânea de crônicas escritas
entre 2007 e 2015
e mantém uma coluna semanal
no Boqueirão News
que é aguardada com avidez
por sua legião de leitores.
Atendendo a um pedido
de LEVA UM CASAQUINHO,
ele se dispôs a resgatar
algumas de suas crônicas favoritas
escritas nos últimos anos
para republicação no BAÚ DO MARCÃO.

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