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Showing posts with the label Quando Os Mudos Conversam

OS CHINESES E A MONALISA (Crônicas Além do Quintal #4 por Marcus Vinícius Batista)

Ela estava lá, de sorriso enigmático e privacidade nula. Reconheço que, no Museu do Louvre, em Paris, meu interesse era maior pelas esculturas gregas, pinturas do século 19 e por outras obras do Renascimento. Mas era impossível escapar da aura da Monalisa. Todos os setores tinham placas que indicavam onde o quadro mais famoso do museu estava exposto. A Monalisa é a única obra que possui roteiro próprio. E a quantidade de pessoas nos corredores funciona como as migalhas de pão que te levam à casa de doces. Conforme você se aproxima dela, ainda sem vê-la, você ouve em inúmeros idiomas o nome da Gioconda. O tratamento era de celebridade. Ao entrar no pavilhão dela, inúmeros quadros nas paredes, dois com mais de cinco metros de altura. Chocantes, paralisantes. E a Monalisa no centro! É a única obra com quatro seguranças exclusivos. A única com um vidro à prova de balas. A única com uma grade de proteção, que te coloca, na melhor das hipóteses, a dez metros dela. O problem...

NEGOCIANDO COM O INDIANO (Crônicas Além do Quintal #1) (por Marcus Vinícius Batista)

As passadas lentas viraram inércia diante da loja de casacos. Eu e Bel paramos para ver os casacos de couro, estilo motociclista. Em Londres, a manhã era ensolarada, mas sabíamos que anoitecia por volta das 16 horas, e a temperatura caia a menos de cinco graus em certas noites. Já tinha um casaco e poderia usar o clima como desculpa; como souvenir. O passeio por Notting Hill se justificava porque conheceria a livraria onde Julia Roberts e Hugh Grant gravaram o filme “Um lugar chamado Notting Hill”. A livraria se transformou em loja de lembrancinhas e outras quinquilharias, um rascunho do cenário cinematográfico. O bairro de origem negra recebeu artistas a partir dos anos 70 até virar um endereço de novos ricos, repleto de comércio para turistas e lojas de grifes. Apontei para um casaco com dois emblemas de motos. Desconfiei porque vi outros modelos iguais. Pensei: “deve ser de origem chinesa, produção em série a la 25 de março.” O vacilo entre olhar as roupas e pensar ...

O LEITOR MISTERIOSO (por Marcus Vinícius Batista)

No domingo à noite, vi o primeiro suspeito. Parecia ser uma senhora – eu estava a uns 50 metros de distância -, vestindo um casaquinho verde, daqueles de senhora mesmo, como uma personagem do jogo de tabuleiro Detetive. Descobri sem querer, havia descido para deixar o lixo na rua, mas percebi que ela parou uns dois segundos antes de subir a escada, tempo suficiente para medir os livros, ler as capas e levá-los para casa. Tinha colocado os livros ali, no hall de entrada do prédio, há menos de duas horas. A intensidade e a frequência do sumiço das obras reforçavam o modus operandi e a suspeita das especulações: alguém estava montando uma biblioteca a partir da minha. O quase flagrante – ou a alucinação literária – é mais um episódio da história que começou há um ano e meio. No prédio onde moro, há uma caixa de correspondência grande, de quase um metro de diâmetro, no hall de entrada. Nessa época, inspirado por projetos semelhantes, passei a deixar livros e revistas...

CAMINHANDO PELA FANTASIA (por Marcus Vinícius Batista)

Ele fala quase todo o tempo. Eu ouço, testemunho e faço breves perguntas para cutucar novas histórias. Até que aparece um teste de conhecimentos gerais. É o aviso sobre qual será o novo (velho) assunto. — Você sabia que o primeiro jogo de videogame do Homem-Aranha é de 1987? — Não sabia. Onde você viu isso? — Youtube, pai. Youtube. Se ele respirar, consigo emendar uma pergunta. — Você sabia, filho, que eu ganhei meu único videogame, em 1987? Eu tinha 13 anos. Era um Atari. — Sério? Você era um adolescente. Tinha jogo do Homem-Aranha? — Não. Mas tinha mais de 100 jogos. Outro dia, vi numa loja para vender. Agora, é com entrada USB. — Uau! Mas não tinha nenhum jogo de super-heróis? — Não me lembro, filho. A conversa sempre flutua em torno do mundo dos super-heróis. Vini coordena e organiza o diálogo. De vez em quando, entram assuntos mais sérios, como relacionamento com colegas de escola e lições de casa. Os colegas conduzem aos detalhes...

O MONSTRO É AZUL (por Marcus Vinícius Batista)

Os duendes sorriam de orelha a orelha enquanto se mantinham a postos para tirar as dúvidas. Quanto custaria para manter a pose? Quanto custaria para me exibir na vitrine? Eram dias de promoção antes de inaugurar a morada do monstro. Os duendes não precisavam laçar ninguém. O feitiço da vaidade fazia efeito por si só. Alguns dos enfeitiçados já vestiam a fantasia, talvez cientes de que ficar na fila para a matrícula era algum tipo de exercício físico. A fila de candidatos crescia embaixo do sol forte. Todos sonhando em entrar no aquário, a toca azulada e envidraçada onde seriam vistos, quem sabe admirados, provavelmente invejados na busca da perfeição da forma. Pertencer era a ordem. Ser reconhecido, uma obrigação. Gerar likes virtuais e reais, uma consequência feliz. Os duendes uniformizados, exceto pelo capuz, pois o calor castigava, sabiam que a maioria ali tostava ao ar livre para ir com outras Marias. Se entrassem três vezes na toca do monstro depois de assinar o c...

AS DORES DE SUZANE (por Marcus Vinícius Batista)

Conheci a jornalista e escritora Suzane Frutuoso, há uns três meses, numa feira cultural, no Teatro Municipal de Santos. Ambos estávamos a trabalho e pouco conversamos. O assunto acabou sendo o irmão dela, Alex, um amigo e colega de profissão. Minha esposa, Beth, teve maior contato com Suzane. As duas bateram papo e Beth assistiu e se emocionou com uma palestra dela, voltada para mulheres. As duas trocaram livros de própria autoria. Beth veio com “Tem dia que dói”, que reúne crônicas de Suzane, publicadas originalmente num blog. Mal deixou que eu o folheasse. “Vou ler primeiro”, me disse. A proibição, claro, aguçou minha curiosidade. Primeiro, li partes escondido. Depois, Beth me deu salvo-conduto não oficial e, de forma explícita, coloquei meu marcador junto do dela. Dias depois, o livro descansava, sem pudor, do meu lado da cama. Duas, três crônicas por dia eram refeição mental suficiente para a digestão reflexiva. O livro de Suzane Frutuoso é uma pequena joia, q...

VENDO MEU CORPO (por Marcus Vinícius Batista)

A gripe, sobrinha da dor de garganta e neta da alergia respiratória, me fez tomar uma decisão: colocar meu corpo à venda neste feriado de Corpus Christi. Não me entenda mal. Jamais ousaria me comparar ao corpo mais famoso neste dia santo. É mais senso de oportunidade, de acompanhar tendências e comportamentos. Nada de crise, é trabalho. Apenas quero aproveitar o momento para fortalecer a estratégia do negócio. Até porque o Corpus eterno opera milagres e tem índole irrepreensível. O meu corpo, por outro lado, apenas se levanta todos os dias para trabalhar. E vem impregnado de defeitos e vícios. Antes de discutirmos o preço, acho importante falar sobre o produto. A área é grande, seja na extensão ou na largura do terreno. O metro quadrado já foi 30 quilos maior; em compensação, hoje o solo é mais estável, com alguns desníveis e pedaços de terra fofa, nada que uma reforma - ou repaginada - não seja capaz de dar jeito. A compra é investimento e, claro, exige adaptações ao novo p...