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PROFESSOR TONINHO, A METAMORFOSE AMBULANTE (por Marcus Vinícius Batista)

Jesus Cristo cambaleava pela rua Oswaldo Cochrane, na esquina com a avenida Afonso Pena, em Santos. O estalar do chicote reforçava o sofrimento físico e psicológico, provocado pelos movimentos ritmados, automáticos do soldado romano. Jesus contorcia o rosto e recolhia o corpo a cada chibatada. No meio das pessoas que acompanhavam a encenação da Via Sacra nos arredores da Igreja de São Benedito, um menino de seis anos começou a gritar: “Mãe, mãe, manda ele parar. Ele tá machucando Jesus.” O professor Antônio Carlos da Silva, de 50 anos, sorriu entre uma e outra expressão de dor. Ele encarnava Jesus Cristo naquela sexta-feira santa e considerava a aula dada com sucesso. O professor interpreta o papel há sete anos. Toninho nasceu para interpretar. Assim, ele consegue cuidar dos outros. Ele se transforma para transformar gente. Na religião católica, pessoas de todas as faixas etárias. Na sala de aula, 75 estudantes de 7º e 8º anos do Colégio Rita de Cássia, onde traba...

O REMÉDIO DA PRÓXIMA PÁGINA (por Marcus Vinícius Batista)

Estava há dois meses sem escrever. Ainda sou incapaz de detectar a fonte deste comportamento, mas tenho minhas desconfianças. Desconfio que tenha relação com uma percepção de papéis. Meu papel e o papel da literatura. Nestas oito semanas de abstinência, cheguei a ficar incomodado com o fato de não produzir um texto sequer, exceto uma contracapa de livro. Cheguei a encarar como uma espécie de paralisia, algum tipo de transtorno que padecesse de tratamento. Estava, segundo este olhar, à frente da porta da depressão literária. A reflexão sobre a angústia que me acometia me levou a uma resposta tão iluminadora quanto uma notícia de cura. Eu havia sido vítima de um falso diagnóstico. Erro meu. Enxergava apenas uma parte do quadro, olhava para o que seria um sintoma, quando deveria ter visto a etapa de um processo contínuo de metamorfose. Se passei dois meses sem escrever, atravessei dois meses lendo como poucos, como em poucas fases de minha vida. Li cerca de dez livros ...

OS CHINESES E A MONALISA (Crônicas Além do Quintal #4 por Marcus Vinícius Batista)

Ela estava lá, de sorriso enigmático e privacidade nula. Reconheço que, no Museu do Louvre, em Paris, meu interesse era maior pelas esculturas gregas, pinturas do século 19 e por outras obras do Renascimento. Mas era impossível escapar da aura da Monalisa. Todos os setores tinham placas que indicavam onde o quadro mais famoso do museu estava exposto. A Monalisa é a única obra que possui roteiro próprio. E a quantidade de pessoas nos corredores funciona como as migalhas de pão que te levam à casa de doces. Conforme você se aproxima dela, ainda sem vê-la, você ouve em inúmeros idiomas o nome da Gioconda. O tratamento era de celebridade. Ao entrar no pavilhão dela, inúmeros quadros nas paredes, dois com mais de cinco metros de altura. Chocantes, paralisantes. E a Monalisa no centro! É a única obra com quatro seguranças exclusivos. A única com um vidro à prova de balas. A única com uma grade de proteção, que te coloca, na melhor das hipóteses, a dez metros dela. O problem...

MEUS FANTASMAS APARECEM DEPOIS DA MEIA-NOITE (Crônicas Além do Quintal #3 por Marcus Vinícius Batista)

Como cheguei em Londres três semanas depois de Bel, tive que me hospedar em outro endereço. Ela e um colega da república estudantil me arranjaram um quarto em casa de família. Isso significava também a distância de um quilômetro e meio entre as casas. Eu, em South Merton. Eles, em Wimbledon. Para encontrar Bel, tinha três opções de transporte: trem, ônibus ou metrô. Depois da meia noite, sobrava apenas uma viagem de meia hora de ônibus, pontualmente britânico. O problema era a temperatura, que caia a 5ºC com sensação térmica de zero grau. Não dava para ficar parado em ponto. Na primeira noite, havíamos jantado juntos e colocado a conversa em dia. Conheci os novos colegas da república e me despedi. Decidi ignorar as recomendações de ônibus e fazer a caminhada de volta, à uma hora da manhã. Sabia o roteiro porque havia feito o trajeto uma vez, durante o dia. Memória fotográfica. Desci a rua da república e entrei numa avenida. Silêncio, sem carros ou pessoas. Avenida d...

O LEITOR MISTERIOSO (por Marcus Vinícius Batista)

No domingo à noite, vi o primeiro suspeito. Parecia ser uma senhora – eu estava a uns 50 metros de distância -, vestindo um casaquinho verde, daqueles de senhora mesmo, como uma personagem do jogo de tabuleiro Detetive. Descobri sem querer, havia descido para deixar o lixo na rua, mas percebi que ela parou uns dois segundos antes de subir a escada, tempo suficiente para medir os livros, ler as capas e levá-los para casa. Tinha colocado os livros ali, no hall de entrada do prédio, há menos de duas horas. A intensidade e a frequência do sumiço das obras reforçavam o modus operandi e a suspeita das especulações: alguém estava montando uma biblioteca a partir da minha. O quase flagrante – ou a alucinação literária – é mais um episódio da história que começou há um ano e meio. No prédio onde moro, há uma caixa de correspondência grande, de quase um metro de diâmetro, no hall de entrada. Nessa época, inspirado por projetos semelhantes, passei a deixar livros e revistas...

CAMINHANDO PELA FANTASIA (por Marcus Vinícius Batista)

Ele fala quase todo o tempo. Eu ouço, testemunho e faço breves perguntas para cutucar novas histórias. Até que aparece um teste de conhecimentos gerais. É o aviso sobre qual será o novo (velho) assunto. — Você sabia que o primeiro jogo de videogame do Homem-Aranha é de 1987? — Não sabia. Onde você viu isso? — Youtube, pai. Youtube. Se ele respirar, consigo emendar uma pergunta. — Você sabia, filho, que eu ganhei meu único videogame, em 1987? Eu tinha 13 anos. Era um Atari. — Sério? Você era um adolescente. Tinha jogo do Homem-Aranha? — Não. Mas tinha mais de 100 jogos. Outro dia, vi numa loja para vender. Agora, é com entrada USB. — Uau! Mas não tinha nenhum jogo de super-heróis? — Não me lembro, filho. A conversa sempre flutua em torno do mundo dos super-heróis. Vini coordena e organiza o diálogo. De vez em quando, entram assuntos mais sérios, como relacionamento com colegas de escola e lições de casa. Os colegas conduzem aos detalhes...

O MONSTRO É AZUL (por Marcus Vinícius Batista)

Os duendes sorriam de orelha a orelha enquanto se mantinham a postos para tirar as dúvidas. Quanto custaria para manter a pose? Quanto custaria para me exibir na vitrine? Eram dias de promoção antes de inaugurar a morada do monstro. Os duendes não precisavam laçar ninguém. O feitiço da vaidade fazia efeito por si só. Alguns dos enfeitiçados já vestiam a fantasia, talvez cientes de que ficar na fila para a matrícula era algum tipo de exercício físico. A fila de candidatos crescia embaixo do sol forte. Todos sonhando em entrar no aquário, a toca azulada e envidraçada onde seriam vistos, quem sabe admirados, provavelmente invejados na busca da perfeição da forma. Pertencer era a ordem. Ser reconhecido, uma obrigação. Gerar likes virtuais e reais, uma consequência feliz. Os duendes uniformizados, exceto pelo capuz, pois o calor castigava, sabiam que a maioria ali tostava ao ar livre para ir com outras Marias. Se entrassem três vezes na toca do monstro depois de assinar o c...