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Showing posts with the label Antonio Luiz Nilo

MÃOS AO ALTO (um conto de Antonio Luiz Nilo)

    Era verão em Salvador e o Pituba R3 estava lotadíssimo. Mãos, ao alto, disputavam os espaços na barra de metal do teto do ônibus, buscando um mínimo de equilíbrio.   Eu estava em pé, na parte de trás, esmagado contra uma das paredes laterais. Se estivesse dentro de uma lata de sardinhas, disputando o espaço com o peixe cozido e todo oleoso, talvez me sentisse mais confortável. O calor era severo e o cheiro de suor... desanimador. De repente ouvi um grito abafado: - É um assalto! De onde eu estava, não via rigorosamente nada. A massa humana mal deixava o som circular. Um zum-zum-zum coletivo me advertiu que o assalto poderia ser verdadeiro. Quem brincaria assim num lugar onde as pessoas já estão calejadas com as frequentes ações de bandidos? Mas, por outro lado, quem pensaria em assaltar um ônibus tão abarrotado como aquele? Como o assaltante circularia pelo interior do veículo para recolher os celulares, relógios e carteiras? Logo em seguida, um tiro. O ...

SURDO É A VOVOZINHA (uma crônica de Antonio Luiz NIlo)

Tem uma “senhorinha” numa das esquinas do Gonzaga, o bairro onde eu moro e trabalho aqui em Santos, que todo santo dia entrega panfletinhos na calçada para o povo apressado. São panfletos de aparelhos para surdez. Apesar de publicitário, não costumo apanhar os panfletos que as dezenas de desempregados, os sobreviventes da informalidade, distribuem nas ruas desse tradicional pedaço da orla de Santos. Não os apanho por vários motivos... e por mais curiosos que vocês estejam, eu não vou dizer quais são. Mas a “senhorinha” dos aparelhos de surdez, com seu semblante cansado, a pele enrugada pelo severo sol santista e sempre com um leve sorriso nos lábios, acabou me conquistando. Ao ver esticado o seu curto bracinho em minha direção, não tive como não apanhar o panfletinho mal diagramado. Quando percebi que era uma propaganda de um aparelho de surdez, confesso que estanquei o meu projeto de sorriso e a olhei com um certo ar de censura. Porra, tenho 57 anos mas, como diz o meu ...

FICO LOUCO, FAÇO CARA DE MAL, FALO O QUE ME VEM NA CABEÇA (uma crônica de Antonio Luiz Nilo)

Há pouco mais de 15 anos tive a honra de trabalhar com o amigo e diretor Rogério Velloso escrevendo alguns roteiros para comerciais da TIM que ele, como sempre, dirigiu com brilhantismo. Não sei o motivo, mas ontem de noite me bateu uma rara e inexplicável tristeza. Depois de alguns minutos de inquietação, finalmente alcancei o controle. O remoto. Ao passar zapeando pelo Canal Curta fui atingido por um fulminante flash informativo de 2 segundos que anunciava, para minha surpresa, algo relacionado com Rogerio Velloso e Itamar Assumpção. Foi o suficiente para tranquilizar o meu dedo nervoso e tentar entender o porquê daquela parceria. Dois segundos podem parecer pouco, mas são uma eternidade para justificar o meu lento raciocínio: obviamente se tratava de um documentário sobre o extraordinário compositor Itamar Assumpção dirigido pelo talentoso Velloso. O Rogério. Por sorte, faltavam apenas 15 minutos para começar o filme, tempo suficiente para desestabilizar a minha d...

A TEORIA DA INVOLUÇÃO (uma crônica em tom de desabafo de Antonio Luiz Nilo)

ATENÇÃO: ESTE TEXTO TEM MAIS DE 100 LINHAS. SE VOCÊ É PREGUIÇOSO COM A LEITURA, NÃO PERCA O SEU TEMPO. ATÉ PORQUE VOCÊ CORRE O RISCO DE CHEGAR AO FINAL DO TEXTO E AINDA NÃO CONCORDAR COMIGO. Uma das poucas histórias que eu lembro de minha mãe contar sobre uma viagem sua à Europa, no finalzinho da década de 60, foi a de um banheiro público na Alemanha (não me recordo a cidade) onde era necessário colocar uma moeda de alguns centavos de marco para que pudesse ser frequentado. E o que ficou na memória foi justamente o “jeitinho” que deu a excursão de brasileiros ao escalar alguém para ficar com o pé na porta até que todos entrassem e fizessem o seu xixi sem gastar suas preciosas moedas. Lembro também de, na companhia de outros 8 ou 10 meninos de 12 ou 13 anos, ter pulado o muro da escola onde eu cursei o final do meu (então) ginásio e início do colegial para jogar basquete na ausência de professores, bedéis e outros alunos. E no final do jogo, incendiar um banco de madeira d...

JIM JARMUSCH (por Antonio Luiz Nilo)

Ontem, finalmente, assisti Amantes Eternos, de Jim Jarmusch, produzido em 2013 e com pouca ou nenhuma repercussão aqui em terra brasilis. Confesso que protelei por quase 4 anos por puro preconceito. Jamais assistiria a um filme de vampiros, iria de encontro ao meu pretenso bom gosto cinematográfico. Lembrei do português da padaria que sempre me dizia, com simpatia e uma ponta de ironia, “jamais diga jamais”. E eu, sempre na minha empáfia de postulante a aprendiz de intelectual, ouvindo com pouca tolerância um português repetir seus aforismos fora de moda, tive que me dobrar aos fatos. Fato é que hoje o português mantém sua padaria, mora num apartamento de 4 suítes e anda de Corolla do ano. E o “crítico de cinema” gostosão aqui por sorte mora no apartamento que foi dos seus pais, só cumpre com 70% dos seus compromissos mensais e mal consegue manter sua bike de 450 reais. Pois, pois... Mas, me desculpem, Jim Jarmusch não tem nada a ver com isso. Só achei estranho um direto...

NO BLOG DO BRAIN, UMA ANÁLISE MERCADOLÓGICA DO CASO JOSÉ MAYER

Na Bahia, quando você é mal atendido em algum lugar é muito comum ouvir do funcionário a frase “Vai desculpando aí!”, que funciona como reconhecimento do erro e ao mesmo tempo como um pedido de perdão. O curioso emprego do gerúndio tem supostamente a função de amenizar o problema, revelando um arrependimento contínuo e um pedido de clemência regular, constante. Como se valesse para os erros já cometidos, os que estão sendo cometidos e para os que ainda serão. O “Vai desculpando aí!” me lembrou (guardando as proporções) a cartinha do ator José Mayer publicada ontem na internet. Depois de ter bulinado a genitália de uma assistente de produção da Globo e ter sido acusado de assédio sexual, o galã sessentão (presumivelmente auxiliado por algum assessor de comunicação) se desculpou das acusações (que imediatamente se multiplicaram, já que a produtora abriu um precedente para as outras assediadas da emissora) dizendo que não tinha a intenção de desrespeitar ninguém com essas “br...