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MÃOS AO ALTO (um conto de Antonio Luiz Nilo)

 



 

Era verão em Salvador e o Pituba R3 estava lotadíssimo. Mãos, ao alto, disputavam os espaços na barra de metal do teto do ônibus, buscando um mínimo de equilíbrio.  Eu estava em pé, na parte de trás, esmagado contra uma das paredes laterais. Se estivesse dentro de uma lata de sardinhas, disputando o espaço com o peixe cozido e todo oleoso, talvez me sentisse mais confortável. O calor era severo e o cheiro de suor... desanimador.

De repente ouvi um grito abafado:

- É um assalto!

De onde eu estava, não via rigorosamente nada. A massa humana mal deixava o som circular. Um zum-zum-zum coletivo me advertiu que o assalto poderia ser verdadeiro. Quem brincaria assim num lugar onde as pessoas já estão calejadas com as frequentes ações de bandidos?

Mas, por outro lado, quem pensaria em assaltar um ônibus tão abarrotado como aquele? Como o assaltante circularia pelo interior do veículo para recolher os celulares, relógios e carteiras?

Logo em seguida, um tiro. O motorista reagiu mecanicamente e enfiou o pé no freio, fazendo aquela massa humana se deslocar em bloco para a frente do ônibus, espremendo crianças, senhoras e velhinhos.

Confusão total. A polícia chegou em menos de 3 minutos (estava perto, com certeza). Demoramos quase cinco minutos para descer.

Eu já imaginava a bala atravessando o estômago de uma senhora, resvalando no braço de uma criança e se alojando no pescoço de uma mulher que “por falta de sorte” estaria sentada.

Lá fora vi a ambulância arrancando em disparada e disparando a sirene. As pessoas em volta, passageiros ou não, contavam convictamente as suas versões da história: “3 mortos, 8 feridos, sendo dois gêmeos”... “ uma grávida baleada na barriga”... “um estudante salvo porque levava um troféu na mochila e ali a bala se alojara”...

Fui pra casa sabendo apenas que o Bahia tinha feito um gol no Fluminense de Feira de Santana. De noite, no rádio, ouvi que o assaltante do ônibus tinha baleado a própria virilha tentando tirar a arma da cintura. Aí eu pensei: “Busão apertado da porra!”



Antonio Luiz Nilo nasceu em Santos,

e é redator publicitário e diretor de criação

há mais de 30 anos,

com prêmios nacionais e internacionais.

Circulou a trabalho por todo o país,

com paradas prolongadas em Brasília,

Belo Horizonte e Salvador.

Publicou em 1986 o livro de poemas

"Poemas de Duas Gerações",

e, mais recentemente, o romance

"Ascensão e Queda de Pedro Pluma".

Além disso, atuou como cronista

para o diário Correio da Bahia.




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