Skip to main content

Posts

Showing posts with the label Ignácio de Loyola Brandão

SAUDAMOS OS 90 ANOS DE IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO COM UMA DE SUAS CRÔNICAS MAIS MEMORÁVEIS: "CALCINHAS SECRETAS" (2011)

  Caminhando pelas calçadas congestionadas por camelôs que pagam propinas aos vereadores e, portanto, estão autorizados a montar suas barracas, ele hesitava diante da quantidade de bancas vendendo calcinhas e sutiãs. Desde que a Tiazinha começara a ter sucesso, as bancas exibiam modelos os mais diferentes, procurando excitar as mulheres na conquista dos amados. Percebeu que parte dos compradores eram homens e ficou na dúvida. Para eles mesmos ou para as mulheres? Parou diante de uma nordestina de rosto marcado por sulcos profundos e escolheu uma calcinha vermelha, uma preta aberta na frente e duas de renda. “Se levar meia dúzia, ganha uma de brinde”, disse a vendedora, com os olhos iluminados pela esperança. Como na feira, pensou ele. Quem compra quatro pastéis leva um de brinde. Por toda parte, promoções para segurar freguês. Em lugar de calcinhas, pediu dois sutiãs e a vendedora mostrou-se agradecida. “Tomara que façam sucesso, que ela goste e o senhor volte.” Ela goste! A vended...

NOS ÔNIBUS, O GADO AMONTOADO (uma bofetada do passado de Ignácio de Loyola Brandão)

publicado originalmente em 13 de Janeiro de 2013 no Caderno 2 do Estadão Nem o governador nem o prefeito entenderam é que os protestos não são políticos coisa nenhuma. São contra as condições gerais de vida, de qualidade medíocre de vida e, essencialmente, da indigência dos transportes numa cidade enorme como a nossa. Os protestos não são contra os 20 centavos. São contra a vida miserável, expressam o saco cheio. E este é apenas um rastilho, o bicho ainda vai pegar. O governador, o prefeito, e todos os governadores, secretários, prefeitos, vereadores, ministros, senadores, deputados, nunca entraram em um ônibus. Nunca viajaram em um, não sabem o que significa a batalha diária da condução. Porque todos que nos governam, todos os vereadores, todos os secretários têm veículos oficiais que os levam a toda parte. Não vou duvidar que sejam blindados. O governador e o prefeito se deslocam com batedores à frente. Ou pelos ares, em helicóptero. Dia desses, Alzeni, doméstica...

OBSCENIDADES PARA UMA DONA DE CASA (por Ignácio de Loyola Brandão)

obra integrante da exposição Obscenidades Para Donas de Casa das artistas plásticas Amélia Brandelli e Cláudia Barbisan Três da tarde ainda, ficava ansiosa. Andava para lá, entrava na cozinha, preparava nescafé. Ligava televisão, desligava, abria o livro. Regava a planta já regada, girava a agenda telefônica, à procura de amiga a quem chamar. Apanhava o litro de martíni, desistia, é estranho beber sozinha às três e meia da tarde. Podem achar que você é alcoólatra. Abria gavetas, arrumava calcinhas e sutiãs arrumados. Fiscalizava as meias do marido, nenhuma precisando remendo. Jamais havia meias em mau estado, ela se esquecia que ele é neurótico por meias, ao menor sinal de esgarçamento, joga fora. Nem dá aos empregados do prédio, atira no lixo. Quatro horas, vontade de descer, perguntar se o carteiro chegou, às vezes vem mais cedo. Por que há de vir? Melhor esperar, pode despertar desconfiança. Porteiros sempre se metem na vida dos outros, qualquer situação que não pare...

NÓS QUE AMÁVAMOS TANTO SANTOS! (por Ignácio de Loyola Brandão)

  Publicado originalmente no ESTADÃO em 18 de Outubro de 2014 Quando vi o mar em Santos tinha 21 anos. Um dos sonhos de minha vida. Ver o mar. Adorei Santos, não era só o mar, eram os bondes, os bares, os jardins à beira da praia, o incrível hotel Parque Balneário, os canais. Em 1959, Samuel Wainer mandou-me para lá para ser chefe de reportagem da sucursal da Última Hora. Mudei-me para o Hotel Martini, no José Menino. Adorava aquela praia deserta todos os dias e o bonde que me levava ao centro. Queria morar em Santos, tinha tanta mulher bonita na praia aos domingos. Era uma cidade ícone para nós do interior. No Teatro Independência, vi o grupo Oficina ganhar o primeiro prêmio de direção (Zé Celso) em festival amador com A Incubadeira. Com o passar dos anos, perdi a cidade de vista. E subitamente, a recupero com um livro, Aquele tempo Passou, de Lygia de Carvalho (Editora Scortecci). Santos nas décadas de 40 e 50. Delícia para uma geração, curiosidade para outra. ...

"CALCINHAS SECRETAS" (2011) UMA CRÔNICA MAGNÍFICA DE iGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

Caminhando pelas calçadas congestionadas por camelôs que pagam propinas aos vereadores e, portanto, estão autorizados a montar suas barracas, ele hesitava diante da quantidade de bancas vendendo calcinhas e sutiãs. Desde que a Tiazinha começara a ter sucesso, as bancas exibiam modelos os mais diferentes, procurando excitar as mulheres na conquista dos amados. Percebeu que parte dos compradores eram homens e ficou na dúvida. Para eles mesmos ou para as mulheres? Parou diante de uma nordestina de rosto marcado por sulcos profundos e escolheu uma calcinha vermelha, uma preta aberta na frente e duas de renda. “Se levar meia dúzia, ganha uma de brinde”, disse a vendedora, com os olhos iluminados pela esperança. Como na feira, pensou ele. Quem compra quatro pastéis leva um de brinde. Por toda parte, promoções para segurar freguês. Em lugar de calcinhas, pediu dois sutiãs e a vendedora mostrou-se agradecida. “Tomara que façam sucesso, que ela goste e o senhor volte.” Ela goste! A v...