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Tuesday, February 28, 2017

O NOVO CARNAVAL NO BOTECO (por João Ubaldo Ribeiro)



- E aí, cara, pensei que você não vinha mais! E agora chega com essa cara de quem comeu e não gostou, é ressaca de carnaval?


– Eu não estou de ressaca. Aliás, pensando bem, estou. Não tenho mais preparo físico para aguentar um carnaval.

– Onde é que foi que você brincou?


– Eu não brinquei, há muito tempo que não brinco carnaval. Já fui até muito chegado, mas hoje em dia não quero nem saber. Não, eu estou de ressaca é de não dormir direito, com esses blocos parecendo que estavam todos debaixo da janela do meu quarto, levei dois dias praticamente sem pregar olho. Isso é um absurdo, essa esculhambação na rua, deviam proibir esse negócio.

– Ué, eu não entendo você. Alguns dias antes do carnaval, aqui mesmo, você disse que era a favor do carnaval de antigamente, o carnaval de rua, o espontâneo, o dos blocos, não sei mais o quê.


– É, dou a mão à palmatória. Não sou mais. Quer dizer, continuo a achar que o carnaval de antigamente era melhor, mas isso era antigamente, não dá para o antigamente ser hoje, eu tenho é que me recolher na terceira idade e ficar na minha, não me adapto mais, estranho tudo. Você viu aquelas mulheres nuas com o corpo pintado, viu a musculatura? Eu vou lhe dizer a verdade, mesmo quando eu tinha 30 anos, não sei se eu encarava uma mulher daquelas. Se uma mulher daquelas aplicar uma chave de perna num infeliz qualquer, ele pode encomendar a alma ao diabo, porque nem um pé-de-cabra solta ele. Eu pensava que as pernas do Adriano eram parrudas, mas perto dessas mulheres ele é franzininho.

– É, antigamente elas tinham curvas mais suaves, tinham cintura…


– E não ficavam peladas o tempo todo! Eu não sou contra mulher ficar pelada, mas o tempo todo é um exagero. Podia haver fantasias até mais sensuais, que não mostrassem logo tudo, não é preciso apelar. No meu tempo, por exemplo, as moças se fantasiavam muito de havaiana, com saiote esfiapado e as pernas aparecendo.

– E por baixo um short comprido, um corpete fechado e um calçolão blindado. Deixa de ser saudosista, cara, tem que colocar as coisas dentro do tempo, da atualidade. A fantasia de havaiana que você falou pode continuar a existir, só que dentro da realidade atual. Aliás, você me deu uma ideia, eu vou falar com o Maurição, o Maurição você sabe como é, é o maior produtor de festas de embalo do Rio de Janeiro, de repente rola até uma grana nisso, o Maurição sabe tudo. Isso que você falou me deu a ideia, uma festa com as mulheres todas fantasiadas de havaiana. Ou seja, sem nada em cima, mas de sandália havaiana, sacou? Se a ideia for bem trabalhada, dá para descolar um belo patrocínio com uma dessas fábricas de sandália. E conseguir mulher que pinte lá disposta a aparecer só de sandália vai ser a maior moleza, acho que dá até para cobrar taxa de inscrição. Bota um jornal ou revista nisso, bota umas duas celebridades, o suprimento de mulher pelada é automático. Eu tenho tino para empreendimentos, fico sempre observando as oportunidades que surgem. Aliás, que bela ideia, cara! O Festival Carioca do Nu Artístico! Carioca não, nacional! Internacional! Bota um nome em inglês, o Nude-in-Rio, pega logo! Tem que pensar grande, cara, pode ter certeza de que, se um cara com capital para investir pegar essa ideia, vai encher o rabo de dinheiro! Eu já estou aqui sacando as ramificações, cara, tem uma carroça cheia de grana esperando quem tiver essa iniciativa.


– Você já está de porre a esta hora?

– Não, você é que está querendo viver num mundo que não existe mais. Eu não, eu vivo no Brasil novo, no Brasil onde todo mundo prospera e quem tiver visão fica rico, todo dia estão surgindo novos milionários e são as ideias que fazem esses milionários. Muitas ideias que no princípio pareciam loucas terminaram em grande sucesso. A mulher pelada nacional é um dos nossos recursos naturais, tanto quanto a paisagem da Baía de Guanabara. Nós temos é que afastar os preconceitos e dar o destino mais lucrativo possível a nossos recursos, isso é que é desenvolvimento sustentável, a mulher pelada é um recurso altamente renovável. Você está por fora, está fixado no tempo do derrotismo e do atraso. Por exemplo, essa birra que você pegou contra o carnaval de rua é dar murro em ponta de faca, tem mais é que se sintonizar com os novos tempos e, sempre que possível, procurar tirar partido da situação. O carnaval de rua voltou para ficar, esta é que é a realidade.


– Espero que pelo menos o cheiro de mijo vá embora.

– Taí, você bateu em cima, olha a oportunidade de ganhar dinheiro aí, pensei nisso o carnaval inteiro. E pensei com criatividade. Vou ver se o Maurição tem contatos que consigam um patrocínio das cervejarias, dá para bolar uma série de esquemas, mas o principal é minha ideia. Minha ideia é pegar uns caminhões gigantes, desses de trio elétrico, e converter num conjunto de banheiros para uso dos blocos. O bloco anda e o Mijomóvel vai atrás, tudo arrumadinho, dá para uma série de bolações, é só soltar a criatividade, eu tenho anotado uma ideia atrás da outra.


– Eu também tive uma ideia. Neste caso, por que não criar também o Bloco do Fraldão? Em vez de ir ao banheiro, todo mundo se mija na fralda e fica despreocupado, vai ser um bloco muito tranquilo.

– Você está de gozação, mas é isso mesmo, são as ideias! Essa ideia do fraldão pode dar samba, acho que é possível pegar o patrocínio de um grande fabricante, botar umas popozudas sambando de fraldão…


(publicado originalmente em O GLOBO e O ESTADO DE S. PAULO, 3 de Março de 2011)


João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro
nasceu em Itaparica, Bahia, em 1941.
Formou-se em Direito em Salvador,
mas preferiu ser romancista,
jornalista, cronista, roteirista e professor
a ter que trabalhar como advogado.
Ganhou o Prêmio Camões de 2008
e foi membro da Academia Brasileira de Letras.
É autor de romances magníficos
como Sargento Getúlio,
O Sorriso do Lagarto,
A Casa dos Budas Ditosos
e Viva o Povo Brasileiro.
Este último acabou virando samba-enredo
pela escola de samba Império da Tijuca,
no Carnaval de 1987.
João Ubaldo morreu em 2014
em decorrência de uma pancreatite crônica.


Monday, October 10, 2016

O CORRETO USO DO PAPEL HIGIÊNICO (uma Bofetada do Passado por João Ubaldo Ribeiro)


(esta foi a última coluna escrita por João Ubaldo Ribeiro,
que seria publicada no Globo e no Estadão
no dia 20 de julho de 2014)


O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.

Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.

Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma — chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.


João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)
era cronista, romancista
e imortal da Academia Brasileira de Letras



Sunday, June 19, 2016

AS PENAS DO OFÍCIO (uma Bofetada do Passado de Sérgio Augusto)

(publicado originalmente na saudosa revista BRAVO! em Junho de 2002)


Revendo há pouco Ligações Perigosas, na versão que lhe deu Stephen Frears, de novo me encantei com a maneira como o cineasta inglês recriou em imagens uma intriga eminentemente epistolar, movida a garranchos e outros combustíveis caligráficos. Uma vez mais também me admirei de como na França do século 18 os aristocratas gostavam de escrever cartas. Era assim, aliás, em toda a Europa, vale dizer em qualquer parte onde houvesse gente letrada, inclusive, portanto, na América. Nunca entendi direito a razão da grafomania de quem viveu antes da invenção da caneta-tinteiro e da máquina de escrever; e suspeito que, para aqueles que nunca se viram diante de um teclado sem a tecla Enter, encher de letras uma folha de papel, com o auxílio exclusivo de uma pena de ganso, pareça um feito tão ou mais árduo que a tarefa eterna a que Sísifo foi condenado.

Tenho para mim que a luz de vela e do lampião não limitavam tanto o ato de escrever quanto o seu instrumental básico: a pena. Quantas palavras cada mergulho da pena no tinteiro podia render? Duas? Três? Meia dúzia? E o que se fazia para melhor ajustar o ritmo veloz do pensamento ao restringente compasso do vaivém das mãos: papel, tinteiro, papel, tinteiro? O óbvio: usar o papel menos absorvente possível. Não tenha dúvida: o ato de escrever era infinitamente mais complicado (e sobretudo mais moroso) antigamente. O que não impediu que alguns praticantes lhe acrescentassem novos estorvos – que, para eles, deduzo, não eram propriamente estorvos; antes, um estimulante. Assim como o visconde de Valmont, o libertino personagem de Choderlos de Laclos, seu contemporâneo Voltaire, por exemplo, adorava redigir cartas e escritos menos íntimos sobre as costas nuas de suas amantes. Tão singular mesa de trabalho não lhe afetou a criatividade. Nem a saúde; muito pelo contrário: Voltaire produziu bastante e chegou aos 84 anos.

É de se presumir que, ao rabiscar palavras sobre o dorso desnudo de uma dama, Voltaire vez por outra também estivesse como Deus o criou. Nisso não foi um inovador. Alguns gregos da Antiguidade já haviam feito a mesma coisa, não raro apoiando-se (e inspirando-se) na região glútea de um efebo. “Com a bunda de fora, eu nem sequer anoto um número de telefone”, revelou Truman Capote, que, apesar de tudo, não gostava de misturar os canais. Para ele, havia a hora de deitar com os efebos e a hora de deitar para escrever. “Sou um escritor completamente horizontal”, definiu-se, numa entrevista, citando Mark Twain e Robert Louis Stevenson como companheiros de preferência pela criação em decúbito dorsal.

Twain, Stevenson e Capote gostavam de escrever deitados, porém vestidos. Victor Hugo preferia o inverso: escrever sentado, mas nu em pêlo. Ficar sem roupa foi o método mais eficaz que o autor de Os Miseráveis encontrou para disciplinar seu trabalho. Antes de iniciá-lo, Hugo chamava o criado, entregava-lhe todas as suas roupas e lhe recomendava que só as trouxesse de volta dali a tantas horas. Trabalhar pelado era um dos prazeres de Benjamin Franklin, que no entanto o fazia dentro de uma banheira, por sinal a primeira que a América viu. Edmond Rostand também transformou sua banheira em mesa de trabalho. Não tencionava dar uma lição de asseio corporal a seus patrícios, que bem a mereciam e merecem, mas apenas escapar das interrupções dos amigos. Justamente o oposto do que almejava o poeta Vinícius de Moraes, que montou em sua banheira um misto de Parnaso, escritório e bar.

Entre aqueles que preferiam escrever vestidos da cabeça aos pés, o mais idiossincrático era Disraeli. Antes de sentar-se para escrever seus romances, o grande artífice do imperialismo vitoriano se enfarpelava como se estivesse indo a um banquete no palácio de Buckingham. Para Disraeli, na faina criativa, a gala tinha a mesma importância da inspiração, até porque, a seu ver, uma dependia da outra.


“Eu não sei escrever sem estar bem composta”, confessou-me há tempos a elegante Nélida Piñon. Além de dispensar a pompa de Disraeli (“não precisa ser uma roupa formal para se ir a um jantar”), faz poucas concessões: “O máximo que concedo é usar tênis, assim mesmo com meia”. De pijama ou camisola, nem palavras cruzadas ela faz. Já seu colega da Academia, João Ubaldo Ribeiro, só consegue escrever de bermudas e sem camisa. Até no inverno berlinense, ligava a calefação de seu pequeno gabinete e tirava a camisa. Seu colega de profissão e fraterno amigo Rubem Fonseca não liga para o que veste enquanto experimenta as vastas emoções do vídeo em branco. Mas antes de encarar o computador, faz exatamente aquilo que Thomas Wolfe, Willa Cather e Antonio Callado faziam, antes de encarar a máquina de escrever, e dezenas de escritores recomendam como a mais saudável das musas inspiradoras: caminhar. Rubem é capaz de andar até oito quilômetros atrás de novas idéias e soluções originais. Para não as perder, sai sempre com caneta e papel no bolso.

Mais exigente, Nélida só faz anotações em blocos especiais que compra, em estoque, na Europa. Não a tentam fetiches tais como escrever em pé (a posição preferida de Lewis Carroll, Virginia Woolf e Ernest Hemingway), pôr um gato no ombro (como Edgar Allan Poe), deixar ao alcance das narinas o odor de uma maçã (como Schiller) ou usar algum texto alheio como uma espécie de espoleta ou diapasão (Willa Cather passava os olhos em trechos da Bíblia e Stendhal lia duas ou três páginas do Código Civil, antes de encarar um novo capítulo de A Cartuxa de Parma). João Ubaldo prefere não ler livro algum, “com medo de plagiar inconscientemente.” Possui, contudo, um bom sortimento de rituais. Dificilmente começa um romance em dia que não seja segunda-feira. Não costuma escrever em fins de semana e feriados. Nem depois do almoço. “Fico burro e deprimido à tarde e geralmente durmo”, explica-se. Nunca, porém, se perguntou por que não suporta escrever na presença de ninguém (a não ser de Berenice, sua mulher), nem por que segue uma ordem rígida de trabalho: primeiro o título, depois a dedicatória, a epígrafe – sempre de sua própria autoria – e, finalmente, o texto. Caneta, nem pensar. Nem quando a única opção era a máquina de escrever. Tipo de papel? Tanto faz.

Nesse ponto também é o oposto de Nélida, que usa o papel mais caro existente no mercado e recusa-se a empunhar uma Bic. Não por ser fiel ao teclado, como João Ubaldo e Rubem Fonseca, mas por achar que seus refinados papéis merecem, no mínimo, uma Montblanc. Exigência que Hemingway, por exemplo, dispensava, pois, como tantos contemporâneos seus, preferia escrever a lápis.

As palavras, para os adeptos do manuscrito, não são apenas sons, mas desenhos mágicos. E prazer tátil. Nelson Algren considerava-se um artesão da palavra, lato sensu: “Tenho necessidade de trabalhar com minhas próprias mãos. Gostaria de cinzelar meus romances em pedaços de madeira.” Hemingway atribuía a seus dedos tamanha parcela de suas idéias, que receou ter de abandonar a literatura quando ameaçado de perder o uso do braço direito, após um acidente de automóvel. James Thurber era outro que só sabia pensar com os dedos. Conforme foi perdendo a visão, trocou a máquina de escrever por folhas de papel amarelo, nas quais não escrevia mais do que vinte palavras por página, com o grafite mais negro disponível no mercado. Depois aprenderia a compor contos mentalmente e a ditá-los a uma estenógrafa.

Ainda mais exigente do que Nélida Piñon era o inglês Rudyard Kipling, que se recusava a escrever com qualquer tinta. “Quanto mais preta, melhor”, recomendava. Só mesmo em preto conseguia gravar suas palavras nas folhas de papel azul com margens brancas que volta e meia utilizava. O fetiche da cor do papel já levou vários escritores a bloqueios insuportáveis. Truman Capote sentia-se uma toupeira quando desprovido de suas folhas de papel amarelas. O Alexandre Dumas de Os Três Mosqueteiros também era chegado ao amarelo, mas em folhas dessa cor escrevia exclusivamente poesias. Para os romances, preferia o azul. E para obras de não-ficção, o rosa.

Embora ameaçado de extinção (ou obsolescência) pelos áugures da informática, o papel continua sendo um parceiro fidelíssimo do computador e o suporte favorito de todos os escritores. Pois até aqueles que só operam com um desktop e enviam seus originais para a editora por e-mail ou em disquete gostam mesmo é de ver sua obra impressa no velho e bom papel. Mas uma coisa é certa: o Valmont do futuro terá de optar por um notebook, para não martirizar as costas de sua amada.


Sérgio Augusto (Rio de Janeiro, 1942)
é um jornalista e escritor brasileiro.
Começou sua carreira como crítico de cinema
na Tribuna da Imprensa, em 1960.
Trabalhou também no Correio da Manhã,
no Jornal do Brasil, na Folha,
e nas revistas O Cruzeiro,
Fatos & Fotos, Veja, IstoÉ e Bravo!,
além dos semanários O Pasquim, Opinião e Bundas.
Desde 1996, ele escreve para o Estadão.