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O NOVO CARNAVAL NO BOTECO (por João Ubaldo Ribeiro)

- E aí, cara, pensei que você não vinha mais! E agora chega com essa cara de quem comeu e não gostou, é ressaca de carnaval? – Eu não estou de ressaca. Aliás, pensando bem, estou. Não tenho mais preparo físico para aguentar um carnaval. – Onde é que foi que você brincou? – Eu não brinquei, há muito tempo que não brinco carnaval. Já fui até muito chegado, mas hoje em dia não quero nem saber. Não, eu estou de ressaca é de não dormir direito, com esses blocos parecendo que estavam todos debaixo da janela do meu quarto, levei dois dias praticamente sem pregar olho. Isso é um absurdo, essa esculhambação na rua, deviam proibir esse negócio. – Ué, eu não entendo você. Alguns dias antes do carnaval, aqui mesmo, você disse que era a favor do carnaval de antigamente, o carnaval de rua, o espontâneo, o dos blocos, não sei mais o quê. – É, dou a mão à palmatória. Não sou mais. Quer dizer, continuo a achar que o carnaval de antigamente era melhor, mas isso era antigamente, não dá pa...

O CORRETO USO DO PAPEL HIGIÊNICO (uma Bofetada do Passado por João Ubaldo Ribeiro)

(esta foi a última coluna escrita por João Ubaldo Ribeiro, que seria publicada no Globo e no Estadão no dia 20 de julho de 2014) O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira c...

AS PENAS DO OFÍCIO (uma Bofetada do Passado de Sérgio Augusto)

(publicado originalmente na saudosa revista BRAVO! em Junho de 2002) Revendo há pouco Ligações Perigosas , na versão que lhe deu Stephen Frears, de novo me encantei com a maneira como o cineasta inglês recriou em imagens uma intriga eminentemente epistolar, movida a garranchos e outros combustíveis caligráficos. Uma vez mais também me admirei de como na França do século 18 os aristocratas gostavam de escrever cartas. Era assim, aliás, em toda a Europa, vale dizer em qualquer parte onde houvesse gente letrada, inclusive, portanto, na América. Nunca entendi direito a razão da grafomania de quem viveu antes da invenção da caneta-tinteiro e da máquina de escrever; e suspeito que, para aqueles que nunca se viram diante de um teclado sem a tecla Enter, encher de letras uma folha de papel, com o auxílio exclusivo de uma pena de ganso, pareça um feito tão ou mais árduo que a tarefa eterna a que Sísifo foi condenado. Tenho para mim que a luz de vela e do lampião não limitavam tanto...