Skip to main content

Posts

Showing posts with the label Sérgio Augusto

VISIONÁRIA VIRGÍNIA (por Sérgio Augusto)

Virginia Woolf sabia como unir as mulheres contra a violência e a guerra: um novo tipo de educação, para uma nova e revolucionária faculdade feminina.          (publicado em O Estado de S. Paulo  em 16 de março de 2019) Quando tomo conhecimento de uma cafajestada dos filhos do presidente, eu me lembro de Virginia Woolf – de quem eles, assim como o pai, não devem ter medo, pois talvez nem de nome a conheçam. Quando soube da prisão dos assassinos de Marielle e Anderson, terça-feira passada, também me lembrei de Virginia Woolf. Não por causa de seu lesbianismo, mas por suas irrefutáveis reflexões sobre a tendência dos homens à prática e à curtição da violência. As mulheres podem não ser de Vênus, mas muitos homens, definitivamente, são de Marte e de morte. Quantos atentados e chacinas, como a de Suzano, foram praticados por mulheres, nos últimos tempos? Ou melhor, em qualquer tempo. Será que alguém ainda duvida que a maior...

O COMUNISTA QUE BEIJOU MACHADO DE ASSIS (uma bofetada do passado de Sérgio Augusto)

publicado originalmente no Estadão em 6 de Outubro de 2001 e republicado a pretexto  do aniversário de 178 anos  de nascimento de Machado de Assis nesta quinta, 21 de Junho de 1839 Em 1964, a casa de nº 11 da rua do Bispo, no Rio Comprido, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, foi invadida e saqueada pela polícia. Ali morava um perigoso subversivo chamado Astrojildo Pereira Duarte Silva, de 74 anos e armado de livros até o teto. De quê o acusavam? De haver conspirado para derrubar o governo. Não o que acabara de derrubar João Goulart, mas o que nos governara cinco décadas antes, quando aquele pacato senhor tinha apenas 28 anos e fazia parte de um grupo anarquista, liderado pelo professor José Oiticica. A prisão de Astrojildo Pereira mobilizou jornalistas, escritores e artistas, todos preocupados com o seu coração, avariado, meses antes, por um enfarte. Já estávamos em 1965 quando outro enfarte, daquela vez fatal, desfalcou as hostes comunistas de seu mais res...

AH, ESSA FALSA CULTURA... (uma bofetada do passado assinada por Sérgio Augusto)

(publicado originalmente  em 11 de Novembro de 2006 no Caderno 2 do Estadão)  Como dar conta de tantos livros? Eis um drama universal, que vários livros já inspirou. O último da espécie que li intitulava-se Los Demasiados Libros, do poeta e ensaísta mexicano Gabriel Zaid, aqui traduzido pela Summus, informação que só estou lhe passando, "paresseux lecteur", por tratar-se de leitura rápida (tem em torno de 150 páginas), ademais prazerosa e inspiradora. Zaid possui uma biblioteca de mais de 10 mil livros. Não é um colecionador, um bibliômano; apenas adora ler; e é claro que: 1) não leu todos eles; 2) nem sequer folheou a maioria; 3) vários só leu até a metade, se tanto. Como todo mundo, aliás. Complexo? Zero. Acumular milhares de livros não lidos sem perder a pose nem o desejo de comprar outros mais é um dos apanágios do verdadeiro homem ilustrado, defende-se Zaid de eventuais patrulheiros culturais. Até porque livros descartáveis ou apenas de consulta é o que nã...

O QUE ELES DISSERAM ANTES DO ÚLTIMO SUSPIRO (uma bofetada do passado assinada por Sérgio Augusto)

(publicado originalmente  pelo  ESTADÃO em  15 de Junho de 1996 ) Ainda vão dizer que a morte nunca mais foi a mesma depois que o psicodélico Timothy Leary a curtiu numa boa, via Internet. Ao contrário de Woody Allen, ele não só não temia a morte como adorou estar vivo quando ela bateu à sua porta. Como ela há muito se anunciara, sobrou tempo para Leary bolar suas últimas palavras com o mesmo capricho de quem vai, não para os campos elíseos, mas para a entrega do Oscar. Na hora h, preferiu ser breve: "Why not? Yeah!" (Por que não? Sim!). Breve, impávido, mas nada brilhante. Em seu lugar, Woody Allen talvez dissesse algo mais inteligente ou mais engraçado. "Rosebud", por exemplo. Ou, então, "Misericórdia divina, será que Rico chegou ao fim?" (Quase todo mundo sabe que "Rosebud" foi a última coisa que o personagem de Orson Welles em Cidadão Kane pronunciou antes de morrer. Poucos, no entanto, ainda se lembram do epílogo de...

AS PENAS DO OFÍCIO (uma Bofetada do Passado de Sérgio Augusto)

(publicado originalmente na saudosa revista BRAVO! em Junho de 2002) Revendo há pouco Ligações Perigosas , na versão que lhe deu Stephen Frears, de novo me encantei com a maneira como o cineasta inglês recriou em imagens uma intriga eminentemente epistolar, movida a garranchos e outros combustíveis caligráficos. Uma vez mais também me admirei de como na França do século 18 os aristocratas gostavam de escrever cartas. Era assim, aliás, em toda a Europa, vale dizer em qualquer parte onde houvesse gente letrada, inclusive, portanto, na América. Nunca entendi direito a razão da grafomania de quem viveu antes da invenção da caneta-tinteiro e da máquina de escrever; e suspeito que, para aqueles que nunca se viram diante de um teclado sem a tecla Enter, encher de letras uma folha de papel, com o auxílio exclusivo de uma pena de ganso, pareça um feito tão ou mais árduo que a tarefa eterna a que Sísifo foi condenado. Tenho para mim que a luz de vela e do lampião não limitavam tanto...

MONTERROSSO E A MICROLITERATURA (uma BOFETADA DO PASSADO por Sérgio Augusto)

publicado originalmente no ESTADÃO em 3 de Fevereiro de 2003 Com a palavra, Carlos Fuentes: "Ele é um dos autores de língua espanhola mais puros, inteligentes, transparentes e sorridentes." Agora quem fala é Gabriel García Márquez: "Ele foi um grande homem e um grande escritor." Italo Calvino também o admirava, já que até à Europa, e além dela, a peculiar prosa de Augusto Monterroso estendeu seu condão. Entre nós, como amiúde acontece com escritores latino-americanos, o guatemalteco Monterroso não emplacou. Nem depois que a Record traduziu as fábulas de A Ovelha Negra e os espanhóis lhe conferiram, em 2000, o prestigioso prêmio literário Príncipe de Astúrias, pela "extraordinária riqueza ética e estética" de sua obra. Sua morte, em 2003, na cidade do México, não mereceu de nossas gazetas a deferência a que grandes homens e grandes, puros e inteligentes escritores fazem jus. Talvez porque Miguel Angel Asturias continue sendo o único autor gua...