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PARA FÁBIO CAMPOS, "TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME" MERECEU CADA OSCAR QUE GANHOU.

“Três Anúncios Para um Crime” era, desde o início, o meu favorito ao Oscar no último domingo. Mereceu cada Oscar que ganhou. Mas ganhou menos estatuetas do que merecia. Acho o filme muito mais impactante que “A Forma da Água” – que é muito bem executado, mas carece de originalidade, justamente um dos pontos forte de Guilhermo Del Toro. Vê-lo premiado justamente por esse filme não deixa de ser algo irônico. Em “Três Anúncios”, Mildred -- a sempre excelente Frances McDormand, vencedora do Oscar de Melhor Atriz deste ano  –-, inconformada com o estupro e assassinato da filha, resolve alugar três outdoors numa estrada secundaria que passa pela cidade fictícia de Ebbing, no Missouri, para questionar o trabalho da policia quanto à investigação do crime, que permanece sem solução. Isso vira o estopim que desencadeia uma série de eventos que sacodem a pequena cidade. Mildred nunca se coloca como a pobre mãe que perdeu a filha. Ao contrário, é uma figura desagradável,...

FÁBIO CAMPOS COMENTA O FILME DA SEMANA: "TRAMA FANTASMA", DE PT ANDERSON

Paul Thomas Anderson é um dos cineastas mais autorais da atualidade, você pode gostar ou não dos filmes dele mas tem que admitir, o cara não faz concessões. Difícil apontar em toda a sua filmografia um filme fácil, talvez o mais fácil deles seja Boogie Nights e mesmo assim tem o mundo da pornografia como tema, não é exatamente um filme fácil. Como todo cineasta autoral, ou você embarca de cabeça em seus filmes, ou o filme parece morno, lento, arrastado, sem graça. Eu, por exemplo, detestei seu ultimo filme, Vicio Inerente, mas não deixa de ter sua marca pessoal. Seu ultimo filme, A Trama Fantasma, não é diferente e ainda tem um atrativo extra, é a despedida de Daniel Day Lewis do cinema, o que pode levar mais gente a assistir o filme, já que os filmes do diretor nunca são sucessos de bilheteria – o preço a pagar por não se fazer concessões. No filme Daniel Day Lewis é Reynolds Woodcock, um genial e bem-sucedido estilista na Inglaterra pós-segunda guerra. Reyn...

O MINISTÉRIO DA SAÚDE ALERTA: SAUDADE MATA! (por Marcelo Rayel Correggiari)

O Ministério da Saúde e essa capengante Mercearia avisam: saudade mata. Falta de coragem, também. Na última segunda, esse combalido merceeiro fazia seu costumeiro itinerário entre um serviço e outro quando se deparou com uma manifestação inusitada, tocante... quem sabe, apaixonada. Momento difícil, esse, de um processo que apenas começou. Após testemunhar ao longe, pela quarta vez, alvo coche de grande memória e infinita saudade em seu enfrentamento do pesado trânsito das 19:30h, deparar-se com declarações de amor ‘na pele da cidade’ era, no mínimo, a garantia de que essa semana prometia. Colocar uma Mercearia em reforma, às vezes, soa como ato de bravura. Em algum ponto, não se pode mais continuar com as antigas instalações. Diríamos que as ocorrências desses desconfortos são naturais dentro de um processo de ‘significant makeover’. De qualquer forma, é um processo delicado: bateu saudade... muita saudade. Enfim... um dia de cada vez. Parafraseando O...

DÉCADANCE SANS ÉLÉGANCE (por Denise Marinho)

“Decadência” é a palavra que me vem a cabeça quando vejo as autoridades deste país. Como cidadã otimista eu penso: _ a decadência é o fundo do poço e como “do chão não passa” – diz o ditado – vamos nos recuperar. Espero por isso há alguns anos. Então, como historiadora eu lembro que a decadência, às vezes, é um processo que vem para ficar. Acho que todo mundo estudou na escola a “Queda do Império Romano” – um clássico, em termos de decadência. Os bárbaros levaram a culpa, mas a verdade é que a sociedade romana apodreceu por dentro. A corrupção moral, política e econômica comeu as suas entranhas como cupins. Quando os bárbaros chegaram, as paredes caíram de podre. Mas naquela época, não havia tantos exemplos de decadência. Temos, hoje, uma vantagem sobre os romanos: conhecemos a história, podemos estudar e nos precaver. A história nos diz que um país não pode prosperar sendo governado por lideranças políticas que não fazem distinção entre o patrimônio pú...

JOÃO SILVÉRIO TREVISAN, UM MESTRE LITERÁRIO (por Flávio Viegas Amoreira)

Quantas personas afinal tem um grande escritor, um inventivo romancista, um fabulador tem quantas faces ao grande público? “Grande público” em literatura é uma concessão quase hiperbólica, mas digamos que João Silvério Trevisan é mesmo um autor renomado mais como militante do que pelas razões que o fazem realmente imenso?   Tento distanciamento do quase amigo e referência geracional para chamar atenção nessa altura do campeonato a um tremendo autor ainda por ser melhor dimensionado.  Contista antológico que utilizo farol em minhas oficinas, mestre oficineiro pioneiro ele mesmo, dos primeiros a ir além dos muros da academia levar tesão visceral pela escritura, Trevisan é da estirpe dos “escritores absolutos”: entregue a esse ofício até quando cineasta, jornalista, intelectual público, um artesão obsessivo de livros que ficam em pé como dizia Rachel de Queiroz. Obras caudalosas, romances alentados, feito “Ana em Veneza” que deita ao lado de “Tia Júlia” em minha estante: c...

DANDO MIGUÉ (por Ademir Demarchi)

O escritor espanhol Javier Cercas, numa entrevista ao Guardian, em trecho transcrito no Rascunho por Vivian Schelesinger, afirmou sobre a Espanha que “temos uma tradição de ditadura e inquisição; matamos as pessoas por pensarem diferentemente de nós. Nosso esporte nacional não é futebol, é a guerra civil”. A observação é curiosa pelo que remete ao Brasil. Ao se referir ao futebol, é direta. De fato, até se poderia acreditar em tal fantasia sobre nosso pretenso gosto pacifista pela bola se não soubéssemos como este país tem aprimorado o morticínio ao longo do tempo, de forma constante no campo, contra índios e todo tipo de marginalizados, e de forma massiva nos grandes centros urbanos, sendo, no Estado de São Paulo, exemplares os casos dos 101 presos indefesos fuzilados pelo governo e sob guarda do governo no Carandiru e o morticínio de 505 civis em 2006 em poucos dias, com participação da PM, ainda sem apuração, a ponto da ONU exigir esclarecimentos e o Governo Federal se constr...