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CORNOS, POBRES CORNOS (por Alvaro Carvalho Jr)

Fevereiro foi um mês terrível para a Associação dos Mal Amados do Estado do Ceará, entidade conhecida carinhosamente   como Associação dos Cornos. Seu presidente, José Adauto Caetano, foi vítima de um infarto fulminante, que nem mesmo a correria para leva-lo ao Hospital deu certo. Seu substituto, José Maria, tentou conhecer os trabalhos dos deputados estaduais na Assembléia Legislativa do Estado do Ceará e, pasmem!, foi simplesmente defenestrado do ambiente por conta de seu chapéu: aquele tradicional do norte, de couro. A diferença é que ele é ornado com dois chifres. Discriminação pura... José Maria ficou indignado. Como sua Associação é regulamentada, tem carteirinha, ata de fundação, CNPJ, estatuto ele defende que tem, também, o direito de frequentar o lugar que bem entende representando seus mais de 10 mil (sim, 10.000...) associados. “ E todos com carteirinha”, diz ele orgulhosamente,   Segundo ele, foi algo constrangedor. Quando chegou na Assembléia, foi b...

CRIATIVO E PROATIVO (por Germano Quaresma)

Dinho e Ugo tinham um salão de cabelelêro do lado de meu primeiro consultório. Me estabeleci como consultor literário aqui na cidade muito antes dessa onda de orquichopes e oficinas mecânicas. Malgrado vizinhos, eu não os via todos os dias, pra ser sincero qualquer preconceito me fazia evitar aquele café tão gentil e concupiscentemente oferecido pelas manhãs. Mas a higiene, aplicada à atividade biológica, me fazia ir ao temerário tabernáculo de Sodoma uma vez por mês. Assim, eu via Dinho e me punha a escutar Ugo todo dia dez, de sorte a que eles me aparassem as melenas. Convinha-me cortar o cabelo à moda de Cortázar. Enquanto suas mãos de tesoura me arrepiavam o couro cabeludo eu, num mutismo conveniente, ouvia as conversas da dupla. "E ae, migo? Muito peru no Natal?" "Aff, nem te conto." "Fiquei sabendo que Júlio Bernardo esteve na tua ceia." - Ugo fazia cara de maroto. "Ai ai. Olha, impressionante como ele é criativo....

JOÃO e JEREMIAS - A PORRA DA HISTÓRIA (um folhetim beat de JR Fidalgo - 6ª de 16 partes)

CAPÍTULO X Seria algum daqueles muros que ele teria de derrubar pra escapar do beco onde havia se metido? A coisa que mais mudara na rua era o tamanho dos muros das casas, que agora ficavam escondidas atrás de altas paredes de concreto. Na verdade, como constatou a seguir, não havia assim tantas casas protegidas por altos muros na rua, apenas umas cinco ou seis. Só que estas eram significativas em sua memória. Há exatamente 10 anos, quando morava naquela rua e caminhava por ela, os jardins e as varandas daquelas cinco ou seis casas podiam ser vistos da calçada. Hoje isso era impossível. Sinal dos tempos, pensou. O fato de estar caminhando por aquela rua há exatos 10 anos após ter se mudado devia significar alguma coisa. Sempre evitara não só aquela rua, mas até mesmo aquela vizinhança. Tudo é bom quando termina bem, dizia o ditado. Ali, as coisas tinham terminado mal e, portanto, embora soubesse que sua sensação não correspondia à realidade precisa ...