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Showing posts with the label Leitura de Banheiro

ALGUMA COISA URGENTEMENTE (por João Gilberto Noll)

Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos:   —...

O NADADOR: UM CONTO DE JOHN CHEEVER QUE É UMA OBRA PRIMA DA LITERATURA AMERICANA DO SÉCULO 20

Era um daqueles domingos de verão em que todo mundo diz: "Ontem à noite bebi demais." Podiam-se ouvir os fiéis a sussurra-lo ao sair da igreja, ou da boca do próprio padre, a tentar livrar-se da sotaina na sacristia, podia-se ouvir no golfe e na quadra de tênis, ou na reserva natural onde o chefe do grupo Audubon de observadores de pássaros curtia uma tremenda ressaca. "Bebi demais", disse Donald Westerhazy. "Todos bebemos demais", disse Lucinda Merrill. "Deve ter sido o vinho", disse Helen Westerhazy. "Bebi demais daquele clarete." Passava-se isto na borda da piscina dos Westerhazy. A piscina, alimentada por um poço artesiano com alto teor de ferro, era de um verde pálido. Estava um dia magnífico. A Oeste havia uma densa formação de cúmulos tão parecida com uma cidade vista de longe - da proa de um barco que se aproximasse - que podia ter um nome. Lisboa. Hackensack. O sol estava quente. Neddy Merrill estava sentado junto da piscin...

LEITURA DE BANHEIRO: O DIA DO GOLFINHO (um conto de Natália Nodari)

  Me disseram que na década de cinquenta uma mulher batia punheta para um golfinho em um aquário construído pela Nasa.   É claro que no começo não foi assim. No começo os cientistas buscavam uma golfinha para que o golfinho esvaziasse o pau dentro. Mas não era isso que ele queria, e se ter fome de doce e ser obrigado a comer salgado é uma das piores coisas que pode acontecer a um ser humano que tem sorte, quem dirá a um golfinho da Nasa. O objetivo do experimento era fazer o golfinho falar inglês. Americanos na década de cinquenta acharam que se mexicanos conseguiam essa proeza, quem dirá animais que eles valorizavam mais. O golfinho e a mulher dormiam juntos, acordavam juntos e comiam juntos em uma espécie de aquário hotel. A mulher era bonita e jovem e tinha pernas firmes e o golfinho era   bom,   era um golfinho. Durante as aulas de inglês ele colocava o pau para fora e se esfregava contra as coxas da mulher como uma criança que não consegue alcançar o...