Era
um daqueles domingos de verão em que todo mundo diz: "Ontem à noite bebi
demais." Podiam-se ouvir os fiéis a sussurra-lo ao sair da igreja, ou da
boca do próprio padre, a tentar livrar-se da sotaina na sacristia, podia-se
ouvir no golfe e na quadra de tênis, ou na reserva natural onde o chefe do
grupo Audubon de observadores de pássaros curtia uma tremenda ressaca.
"Bebi demais", disse Donald Westerhazy. "Todos bebemos
demais", disse Lucinda Merrill. "Deve ter sido o vinho", disse
Helen Westerhazy. "Bebi demais daquele clarete."
Passava-se
isto na borda da piscina dos Westerhazy. A piscina, alimentada por um poço
artesiano com alto teor de ferro, era de um verde pálido. Estava um dia
magnífico. A Oeste havia uma densa formação de cúmulos tão parecida com uma
cidade vista de longe - da proa de um barco que se aproximasse - que podia ter
um nome. Lisboa. Hackensack. O sol estava quente. Neddy Merrill estava sentado
junto da piscina, uma mão dentro d’água verde, outra segurando um copo de gin.
Era um homem esguio – parecia ter a elegância particular da juventude - e
embora estivesse longe de ser novo, nessa manhã descera pelo corrimão e dera um
piparote nas costas de bronze da Afrodite de cima da mesa da entrada, enquanto
trotava em direção ao cheiro do café na sala de jantar. Poderia ser comparado a
um dia de Verão, mais precisamente às últimas horas da tarde, e apesar de não
trazer uma raquete de tênis, a impressão que dava era decididamente de
juventude, de esportista e de tempo ameno. Tinha estado a nadar e agora
respirava profundamente, arquejante como se pudesse engolir pelos pulmões os
elementos desse momento, o calor do sol, a intensidade do prazer que sentia.
Parecia fluir-lhe tudo para o peito. A casa dele ficava em Bullet Park, cerca
de treze quilômetros para Sul, onde as suas quatro lindas filhas já teriam
almoçado e deviam estar a jogar tênis. Ocorreu-lhe então que se fizesse um
desvio para Sudoeste podia ir a nado para casa.
A
vida dele não era uma prisão, e o prazer que esta observação lhe deu não se
podia explicar pela evasão que sugeria. Parecia vendo, com olho de cartógrafo,
a linha de piscinas, aquele riacho quase subterrâneo que traçava uma curva
através da região. Tinha feito uma descoberta, uma contribuição para a
geografia moderna; iria dar ao rio o nome de Lucinda, como a mulher. Não era
pessoa dada a brincadeiras e não era bobo, mas era decididamente original e
tinha uma vaga e modesta ideia de si mesmo como uma figura lendária. O dia
estava bonito e pareceu-lhe que nadar uma grande distância podia aumentar e
comemorar essa beleza.
Tirou
o pulôver que tinha sobre os ombros e mergulhou. Sentia um desprezo
inexplicável pelos homens que não se atiravam às piscinas. Nadou num crawl
sacudido, respirando ora a cada braçada, ora à quarta braçada e contando,
algures no fundo da consciência, o um-dois, um-dois, da batida dos pés. Não era
a braçada indicada para longas distâncias, mas o treino da natação tinha
imposto ao esporte a sela de alguns costumes e nesta parte do mundo o crawl era
um costume. Ser abraçado e sustentado pela água verde-clara era menos um
prazer, dava a impressão, do que o reassumir de uma condição natural, e teria
gostado de nadar sem calções, mas isso não era possível, considerando o seu
projeto. Içou-se para a borda no canto oposto – nunca usava a escada - e
afastou-se pelo gramado. Quando Lucinda perguntou onde ia, disse que ia para
casa a nado.
Os
únicos mapas e roteiros que tinha de seguir eram de memória ou imaginários, mas
suficientemente claros. Primeiro havia os Grahams, os Hammers, os Lears, os
Howlands, e os Crosscups. Atravessava Ditmar Street para os Bunkers e seguia,
depois de uma curta corrida, para os Levys, os Welchers, e a piscina pública de
Lancaster. Depois havia os Hallorans, os Sachses, os Biswangers, Shirley Adams,
os Gilmartins, e os Clydes. O dia estava magnífico, e viver num mundo tão
generosamente fornecido de água parecia-lhe um verdadeiro dom, uma dádiva.
Sentia o coração ligeiro e atravessou a grama correndo. Voltar a casa por uma
rota desacostumada fazia-o sentir-se um peregrino, um explorador, um homem com
um destino, e sabia que iria encontrar amigos ao longo de todo o caminho; as
margens do Rio Lucinda estariam cobertas de amigos.
Atravessou
uma sebe que separava o terreno dos Westerhazy do dos Grahams, passou debaixo
de umas macieiras em flor, seguiu até onde estavam a bomba e o filtro e foi dar
à piscina dos Grahams. "Olha o Neddy", disse a Sra. Graham, "que
bela surpresa. Passei a manhã ao telefone a ver se te encontrava. Vai, deixa-me
arranjar-te uma bebida." Percebeu e não, como qualquer explorador, que os
costumes e tradições de hospitalidade dos nativos tinham de ser tratados com
diplomacia se realmente quisesse chegar ao seu destino. Não queria deixar
confusos os Grahams nem parecer indelicado, mas não tinha tempo para se demorar
ali. Nadou a piscina de uma ponta à outra e foi se encontrar com eles ao sol,
sendo salvo, minutos depois, pela chegada de dois carros cheios de amigos de
Connecticut. No meio do alarido do encontro conseguiu escapar-se. Desceu pela
frente da casa dos Grahams, passou por cima de uma sebe com espinhos e
atravessou um terreno vago para os Hammers. A Sra. Hammer, levantando os olhos
das roseiras, viu-o passar a nado embora não percebesse muito bem quem era. Os
Lears ouviram-no passar a espadanar pelas janelas abertas da sala de estar. Os
Howlands e os Crosscups estavam fora. Depois de sair dos Howlands atravessou
Ditmar Street e dirigiu-se aos Bunkers, onde podia ouvir, mesmo àquela
distância, o ruído de uma festa.
A
água refratava o som das vozes e dos risos e parecia deixá-lo suspenso no ar. A
piscina dos Bunkers ficava numa elevação e teve de subir umas escadas até um
terraço onde uns vinte e cinco ou trinta homens e mulheres estavam bebendo. A
única pessoa na água era Rusty Towers, que estava num colchão de inflável. Oh,
como eram boas e verdejantes as margens do Rio Lucinda! Homens e mulheres
prósperos reunidos junto às águas cor de safira, enquanto empregados de casaco
branco lhes serviam gin gelado. Nos ares, um pequeno avião De Haviland dava
voltas e voltas no céu com o que parecia a alegria de uma criança num balanço.
Ned sentiu uma afeição passageira pela cena, um enternecimento por aquele
convívio, como se fosse uma coisa que pudesse tocar. Ao longe ouviu um trovão.
Assim que Enid Bunker o viu, começou a berrar: "Oh, olha quem está aqui!
Mas que bela surpresa! Quando a Lucinda me disse que não podias vir, quase
morri." Abriu caminho até ele pelo meio do grupo, e depois de trocarem um
beijo levou-o até ao bar, um percurso interrompido por ter de beijar outras
oito ou dez mulheres e apertar a mão a outros tantos homens. Um barman
sorridente que tinha visto numas cem festas serviu-lhe um gin com água tônica e
Ned deixou-se ficar um pouco junto ao bar, ansioso por não se deixar segurar em
alguma conversa que lhe pudesse atrasar a travessia. Quando parecia estar
prestes a ficar cercado, deu um mergulho e nadou junto à borda para evitar
colidir com o colchão de Rusty. Na ponta oposta da piscina passou pelos Tomlisons
com um grande sorriso e seguiu em passo de corrida pela trilha do jardim. Os
gravetos cortavam-lhe os pés, mas era a única coisa desagradável. A festa
estava confinada à piscina, e à medida que avançava em direção à casa, ouvia o
som vivo e aquático das vozes mais apagado, ouvia o ruído de um rádio na
cozinha dos Bunkers, onde alguém escutava um jogo de beisebol. Domingo à tarde.
Esgueirou-se pelo meio dos carros estacionados e desceu pelo caminho gramado
até Alewives Lane. Não queria que o vissem na estrada de shorts, mas não havia
trânsito e percorreu a curta distância que o separava do caminho de entrada dos
Levys, assinalado com uma tabuleta de PROPRIEDADE PRIVADA e um tubo verde para
o New York Times. Todas as portas e janelas da casa enorme estavam abertas mas
não havia sinais de vida; nem sequer um cão latindo. Deu a volta à casa até à
piscina e viu que os Levys não tinham saído há muito tempo. Havia copos,
garrafas e pratos de nozes em cima de uma mesa junto ao lado fundo da piscina,
onde havia um vestiário ou um pavilhão, decorado com lanternas japonesas.
Depois de ter nadado uma piscina, pegou num copo e serviu-se de uma bebida. Era
a sua quarta ou quinta bebida e nadara cerca de metade do comprimento do Rio
Lucinda. Sentia-se cansado, limpo,
contente nesse momento por estar só; contente com tudo.
Ia
cair uma tempestade. A formação de cúmulos - a tal cidade - subira e estava
mais escura, e enquanto estava ali sentado voltou a ouvir o ribombar do trovão.
O De Haviland girava ainda nos ares e Ned teve a impressão de que quase podia
ouvir o piloto a rir de prazer na tarde; mas quando se ouviu um novo trovão
largou para casa. Soou o apito de um trem e perguntou-se que horas seriam.
Quatro? Cinco? Imaginou o salão da estação àquela hora, onde um empregado de
mesa, o smoking sob um avental de plástico, um anão com um ramo de flores
embrulhado em jornal, uma mulher que tinha estado a chorar, estariam á espera
do trem suburbano. De repente começou a escurecer; foi nesse momento que os
pássaros minúsculos deram a impressão de mudar o seu canto para um qualquer
agudo e reconhecível anúncio da aproximação da tempestade. Ouviu então o tênue
ruído de água a cair da copa de um carvalho atrás dele, como se alguém tivesse
aberto uma torneira. E então um ruído de fontes chegou-lhe das copas de todas
as árvores altas. Porque gostaria de tempestades, que significado teria a sua
excitação quando as portas se escancaravam e os ventos da chuva irrompiam
violentamente pelas escadas acima, porque lhe teria a simples tarefa de fechar
as janelas de uma casa antiga parecido necessária e urgente, porque tinham para
ele as primeiras notas líquidas de uma tempestade o som inconfundível das boas
notícias, das novas festivas e alegres ? Depois houve uma explosão, um cheiro a
pólvora, e a chuva fustigou as lanternas japonesas que a Sra. Levy tinha
comprado em Quioto há dois anos, ou fora ainda no ano antes desse?
Deixou-se
ficar no pavilhão dos Levys até passar a tempestade. A chuva arrefecera o ar e
Ned estremeceu. A força do vento tinha despido um plátano das folhas vermelhas
e amarelas, espalhando-as pela grama e a água. Era em fins de Junho, pelo que a
·árvore devia estar com míldio, no entanto sentiu uma tristeza estranha com
este sinal do Outono. Retesou os ombros, esvaziou o copo, e encaminhou-se para
a piscina dos Welchers. Isto significava atravessar o picadeiro dos Lindleys e
ficou admirado ao vê-lo cheio de mato e todos os obstáculos desmontados.
Perguntou-se se os Lindleys teriam vendido os cavalos ou se teriam ido passar
fora o Verão e deixado os animais em pensão. Pareceu-lhe lembrar-se de ter
ouvido qualquer coisa sobre os Lindleys e os cavalos, mas a lembrança era
confusa. Prosseguiu então, descalço pela grama molhada, para os Welchers, onde
descobriu que a piscina estava seca.
Esta
quebra na sua corrente de água desapontou-o de um modo absurdo, e sentiu-se
como um explorador que procura uma nascente torrencial e encontra um regato
morto. Sentia-se desapontado e ludibriado. Era bastante comum ir para fora no
Verão, mas nunca ninguém esvaziava a piscina. Os Welchers tinham claramente ido
embora. Os apetrechos da piscina estavam dobrados, empilhados e cobertos com
uma lona. O vestiário estava fechado á chave. Todas as janelas da casa estavam
fechadas, e quando deu a volta até á entrada viu uma tabuleta de VENDE-SE
pregada numa árvore. Quando fora a última vez que ouvira falar nos Welchers -
ou melhor, quando fora a última vez que ele e Lucinda tinham recusado um
convite deles para jantar? Parecia ter sido apenas há uma semana ou à volta
disso. Será que a memória lhe começava a falhar ou ser· que a tinha
disciplinado de tal modo na repressão dos fatos desagradáveis que acabara por
lhe atingir o sentido da verdade? E então ouviu ao longe o som de um jogo de
tênis. Isto animou-o, apagou todas as suas apreensões, permitindo-lhe olhar o
céu carregado e o frio do ar com indiferença. Este era o dia em que Neddy
Merrill tinha atravessado a nado o distrito. Grande dia! Encaminhou-se então
para a sua passagem mais difícil.
Quem
tivesse ido dar uma volta de carro nessa tarde de domingo, tê-lo-ia visto,
praticamente nu, parado na beira da Estrada 424, à espera de uma oportunidade
para atravessar. Poderiam ficar a pensar se teria sido vítima de alguma
brincadeira de mau gosto, se o carro teria quebrado, ou se era simplesmente
algum maluco. Ali postado, descalço no meio dos detritos da autoestrada - latas
de cerveja, papéis e remendos de borracha – exposto ao ridículo, tinha um ar
patético. Sabia desde o começo que isto fazia parte da travessia - figurava nos
seus mapas - mas confrontado com as filas de trânsito, contorcendo-se na luz
estival, percebeu não estar preparado. Riam-se dele, faziam chacota,
atiraram-lhe uma lata de cerveja, e sentia-se sem dignidade nem disposição para
enfrentar a situação. Podia ter voltado para trás, para os Westerhazys, onde
Lucinda ainda devia estar sentada ao sol. Não tinha assinado nada, prometido
nada, nem feito qualquer juramento, nem sequer a si próprio. Acreditando como
acreditava que toda a teimosia humana era sensível ao bom-senso, por que era
incapaz de voltar para trás? Por que estava ele determinado a completar a
travessia mesmo que isso significasse pôr a vida em perigo? A partir de que
altura esta brincadeira, esta piada, esta criancice, se tinha tornado numa
coisa séria? Não podia voltar para trás, não conseguia sequer lembrar-se com
clareza da água verde dos Westerhazys, do sentimento de inalar os elementos do
dia, as vozes amigas e calmas dizendo que tinham bebido demais. No espaço de uma
hora, mais ou menos, tinha coberto uma distância que tornara o regresso
impossível.
Um
homem de idade, rodando pela auto-estrada a vinte quilômetros por hora,
permitiu-lhe atingir o meio da estrada, onde havia um ilha de grama. Ficava
agora exposto à zombaria do trânsito que seguia para Norte, mas ao fim de dez
ou quinze minutos conseguiu atravessar. Daqui não tinha de caminhar muito para
chegar ao Centro Recreativo no limite da aldeia de Lancaster, onde havia alguns
campos de handebol e uma piscina pública.
O
efeito da água nas vozes, a ilusão de brilho e de suspense, era o mesmo que nos
Bunkers, mas os sons aqui eram mais altos, ásperos, e havia mais guinchos, e
assim que entrou no recinto apinhado deparou com o regulamento. "TODOS OS
BANHISTAS DEVEM TOMAR UMA DUCHA ANTES DE ENTRAR NA PISCINA. TODOS OS BANHISTAS
DEVEM PASSAR PELO LAVA-PÉS. TODOS OS BANHISTAS DEVEM USAR O CRACHÁ DE
IDENTIFICAÇAO." Tomou uma ducha, andou por uma solução turva e acre, e
abriu caminho até à borda da piscina. Tresandava a cloro e dava-lhe a impressão
de um tanque. Dois salva-vidas em duas torres, a intervalos que pareciam
regulares, sopravam apitos de polÌcia e descompunham os banhistas através de
alto-falantes. Neddy lembrou-se com saudade da água cor de safira dos Bunkers e
pensou que se calhar ia ficar contaminado - arriscando a prosperidade e o
encanto - ao nadar naquele caldo, mas lembrou-se que era um explorador, um
peregrino, e que isto não passava de uma curva estagnada no Rio Lucinda.
Mergulhou, com um franzir desgostado, no cloro e viu-se obrigado a nadar com a
cabeça fora da água para evitar colisões, mas mesmo assim não deixaram de
esbarrar nele, de o salpicar, de o empurrar. Quando atingiu a parte baixa,
ambos os guardas estavam aos berros: "Eh! Você, você sem crachá de
identificação, saia já da piscina." Obedeceu, mas não tinham maneira de o
perseguir e ele continuou, por entre cheiro de bronzeador e cloro, pela vedação
de rede e passou os campos de handebol. Atravessando a estrada entrou na parte
arborizada da propriedade dos Hallorans. A mata não tinha sido limpa, o caminho
era traiçoeiro e difícil até chegar ao gramado e à sebe aparada de faia que
rodeava a piscina.
Os
Hallorans eram amigos, um casal idoso com uma fortuna enorme que parecia
deliciar-se com a suspeita de que pudessem ser comunistas. Eram devotados
reformistas, mas não eram comunistas, e no entanto, sempre que os acusavam,
como por vezes acontecia, de subversão, dava a impressão de que isso lhes
agradava e os entusiasmava. A sebe de faia estava amarela e Ned pensou que
deveria estar com mÌldio, tal como o plátano dos Levys. Gritou olé, olé, para
avisar os Hollorans da sua chegada, para atenuar a invasão da sua privacidade.
Os Hallorans, por razıes que nunca lhe tinham sido explicadas, não usavam
maiôs. Nem havia, de fato, explicações a dar. O nudismo era um aspecto do seu
inflexível zelo reformista e Ned tirou educadamente os shorts antes de passar
pela abertura na sebe.
A
Sra. Halloran, uma mulher corpulenta de cabelos brancos e rosto sereno, estava
lendo o Times. O Sr. Holloran estava a retirar folhas da piscina com um
apanhador. Não pareciam surpreendidos ou desagradados por o verem. A piscina
deles era talvez a mais antiga da região, um retângulo em alvenaria, alimentada
por um riacho. Não tinha filtro nem bomba e a água era do dourado opaco da
torrente.
–
Estou atravessando o Condado a nado - disse Ned.
–
Sim? Não sabia que era possível - exclamou A Sra. Halloran.
–
Bem, já consegui vir desde os Westerhazys - disse Ned. - Devem ser uns seis
quilômetros e tal.
Deixou
os shorts junto ao lado fundo da piscina, dirigiu-se à parte baixa e fez a
distância a nado. Quando estava saindo da água ouviu a Sra. Halloran dizer:
"Ficamos imensamente tristes com todas as suas desgraças, Neddy."
– As
minhas desgraças? – perguntou Ned. – Não sei do que está falando.
– Então, mas ouvimos dizer que vendeu a casa e
que as suas pobres filhas...
–
Não me lembro de ter vendido a casa – disse Ned – e as meninas estão em casa.
– Pois - suspirou a Sra. Halloran – Pois é....
– A voz dela enchia o ar de uma
melancolia inesperada e Ned respondeu com vivacidade:
–
Obrigado pelo mergulho.
–
Então, bom passeio – disse a Sra. Halloran.
Passando
a sebe, vestiu os shorts. Estavam largos e Ned perguntou-se se, no espaço de
uma tarde, poderia ter perdido algum peso. Estava com frio e cansado e os
Hallorans nus e a água escura deles tinham-no deprimido.
Tanto
tempo a nadar era demasiado para as suas forças, mas como poderia tê-lo
adivinhado, ao escorregar pelo corrimão nessa manhã ou sentado ao sol em casa
dos Westerhazys? Sentia os braços sem forças. As pernas pareciam de borracha e
doíam-lhe nas articulações. O pior era o frio nos ossos e o pressentimento de
que não voltariam a aquecer. As folhas caíam á sua volta e sentiu o cheiro de
fumaça de lenha no vento. Quem estaria fazendo fogueiras nesta época do ano?
Precisava
de uma bebida. Um uísque havia de o aquecer, de lhe levantar o moral,
aguentá-lo durante a última parte da jornada, renovando-lhe o sentimento de que
era original e valoroso atravessar o distrito a nado. Os nadadores do Canal
bebiam brandy. Precisava de um estimulante. Atravessou o gramado em frente da
casa dos Hallorans e foi por uma vereda que descia até onde eles tinham
construÌdo uma casa para a filha única, Helen, e o marido, Eric Sachs. A
piscina dos Sachs era pequena e Ned encontrou lá Helen e o marido.
– Oh, Neddy – disse Helen – Almoçou em casa da mãe?
–
Não foi bem isso – disse Ned. – Passei para ver os teus pais. – Pareceu-lhe ser
uma explicação suficiente – Lamento
imenso uma intrusão destas, mas apanhei um resfriado e pensei se me dariam uma
bebida.
–
Pois, teria muito prazer – disse Helen – mas nesta casa nunca mais houve nada
que se bebesse desde a operação do Eric. Já lá vão três anos.
Será
que estava perdendo a memória, será que a sua capacidade para ignorar fatos
penosos fizera com que se esquecesse de que tinha vendido a casa, que as filhas
estavam com problemas, e que o amigo tinha estado doente? Os olhos desviaram-se
do rosto de Eric para o seu abdomem, onde viu três cicatrizes apagadas,
suturadas, duas delas com pelo menos trinta centímetros de comprimento. O
umbigo tinha desaparecido, e como seria, pensou Neddy, quando a mão tateante
que às três da manhã avalia o que recebemos da natureza encontrasse uma barriga
sem umbigo, sem nenhuma ligação ao nascimento, uma tal quebra na sucessão?
–
Tenho a certeza de que encontra uma bebida nos Biswangers – disse Helen.
– Há
uma festa enorme. Ouve-se daqui. Escute!
Helen
levantou a cabeça e do outro lado da estrada, dos gramados, dos jardins, do
arvoredo, dos campos, Ned ouviu de novo o animado som das vozes por cima da
água. "Bem, vou-me molhar", disse ele, continuando a sentir que não
tinha liberdade de escolha quanto aos seus meios de viajar. Mergulhou na água
fria dos Sachs e, arquejante, quase se afogando, atravessou a piscina de uma
ponta à outra. "Lucinda e eu queremos imenso vê-los – disse ele por cima
do ombro, o rosto voltado para casa dos Biswangers. – Lamentamos ter deixado
passar tanto tempo e vamos telefonar muito em breve."
Atravessou
alguns campos até chegar a casa dos Biswangers e aos ruídos de farra que de lá
vinham. Haviam de sentir que era uma honra dar-lhe uma bebida, seria um prazer
darem-lhe uma bebida. Os Biswangers convidavam-no para jantar, a ele e Lucinda,
quatro vezes por ano, com seis semanas de antecedência. Eram sempre rejeitados
e mesmo assim continuavam a mandar-lhes convites, sem querer compreender as
rígidas e pouco democráticas realidades da sua sociedade. Eram o tipo de
pessoas que discutem o preço das coisas nas recepções, que trocam dicas sobre a
Bolsa durante o jantar, e que depois do jantar contam anedotas porcas sem olhar
quem está por perto. Não pertenciam ao círculo de Ned - nem sequer estavam na
lista de cartões de Natal de Lucinda. Dirigiu-se à piscina deles com um
sentimento de indiferença, de benevolência, e alguma inquietação, uma vez que
parecia estar escurecendo, quando estes eram os dias mais compridos do ano. A
festa, quando entrou, estava animada e com muita gente. Grace Biswanger era o
tipo de anfitriã que convidava o oculista, o veterinário, o agente imobiliário,
e o dentista. Não havia ninguém a nadar e o crepúsculo, refletindo-se na água
da piscina, tinha uma claridade de inverno. Havia um bar e Ned dirigiu-se para
lá. Quando Grace Biswanger o avistou veio ter com ele, não amistosamente como
tinha todo o direito de esperar, mas sim com ar belicoso.
– Olha, nesta festa há de tudo – disse ela em
voz alta – até mesmo penetras.
Não
que lhe pudesse incomodar - tal hipótese estava fora de questão e por isso não
se encolheu.
– E
como penetra – perguntou delicadamente – tenho direito a bebida?"
– Faça como entender – disse ela. – Não me
parece que ligue muito a convites.
Virou-lhe
as costas e Ned dirigiu-se ao bar e pediu um uísque. O barman serviu-o, mas
serviu-o com maus modos. Ned pertencia a um universo onde os empregados
respeitavam os escalões sociais e ser enxovalhado por um tipo que era barman de
meio espediente significava que tinha sofrido alguma perda de estima social. Ou
talvez o homem fosse novo e mal informado. E então ouviu Grace dizer às suas
costas: "Perderam tudo de um ia para o outro – ficaram só com o ordenado –
e ele apareceu aqui bêbado um domingo e pediu cinco mil dólares
emprestados..." Aquela estava sempre a falar em dinheiro. Pior do que
comer ervilhas com faca. Mergulhou na piscina, nadou de uma ponta à outra e
foi-se embora.
A
piscina seguinte na lista, a antepenúltima, era a da sua antiga amante, Shirley
Adams. Se em casa dos Biswangers sofrera algumas feridas, seriam saradas aqui.
O amor - a intimidade sexual, na verdade - era o supremo elixir, o analgésico,
a pílula de cores alegres capaz de trazer de novo a Primavera à sua vida, a
alegria de viver ao seu coração. Tinham tido um caso na semana passada, no mês
passado, no ano passado. Não conseguia lembrar-se. Tinha sido ele a romper, ele
é que saíra por cima, e transpôs a cancela do muro que rodeava a piscina sem
sequer lhe aflorar alguma sombra à sua autoconfiança. Parecia-lhe de certo modo
ser a sua própria piscina, pois que o amante, especialmente o amante ilícito,
dispõe dos bens da amante com uma autoridade que o sagrado matrimônio
desconhece. Shirley estava lá, o cabelo cor de cobre, mas a sua figura, na
borda da água luminosa, cerúlea, não despertou nele nenhuma lembrança profunda.
Tinha sido, pensou, um caso ligeiro, embora ela tivesse chorado quando ele
rompeu. Pareceu-lhe ficar confusa ao vê-lo e Ned perguntou-se se ainda estaria
magoada. Será que ela, Deus queira que não, iria chorar outra vez?
–
Que é que que você quer? – perguntou ela.
–
Estou a atravessar o Condado a nado.
– Meu Deus. Será que nunca mais cresces?
– O
que está acontecendo?
– Se veio pedir dinheiro - disse ela - não te
dou nem mais um centavo.
– Podia me oferecer uma bebida.
–
Podia, mas não ofereço. Não estou só.
– Bem, então vou andando.
Mergulhou
e atravessou a piscina, mas quando tentou içar-se para a borda apercebeu-se de
ficara sem força nos braços e nos ombros e esbracejou até às escadas,
subindo-as para sair. Olhando por cima do ombro viu, no vestiário iluminado, um
homem novo. Ao sair para a grama escura sentiu o cheiro dos crisântemos ou
malmequeres - um desses teimosos aromas outonais - no ar da noite, forte como
um gás. Levantando os olhos, viu que as estrelas já tinham surgido, mas por que
tinha a impressão de estar vendo Andrômeda, Cefeu e a Cassiopéia? Onde estavam
as constelações de Junho? Começou a chorar.
Era
provavelmente a primeira vez em sua vida de adulto que chorava, e seguramente a
primeira vez na vida que se tinha sentido tão perdido, enregelado, cansado e
confuso. Não conseguia entender a grosseria do barman ou a brusquidão de uma
amante que tivera ajoelhada aos seus pés e lhe molhara de lágrimas as calças.
Tinha nadado demais, tinha estado imerso demasiado tempo, e o nariz e a
garganta doíam-lhe por causa da água. Precisava de uma bebida, de um pouco de
companhia, e algumas roupas lavadas e secas, e embora pudesse ir diretamente
pela estrada para casa, prosseguiu em direção à piscina dos Gilmartins. Aqui,
pela primeira vez na sua vida, não mergulhou, descendo antes a escada para as
águas gélidas e nadou de lado, sem jeito, uma coisa que devia ter aprendido em
rapaz. Cambaleava de fadiga ao caminhar para casa dos Clydes e esbracejou a
todo o comprimento da piscina deles, detendo-se várias vezes com a mão na borda
para descansar. Subiu pela escada e perguntou a si próprio se teria forças para
chegar a casa. Tinha feito o que queria, tinha atravessado o Condado a nadar,
mas estava tão aturdido de cansaço que o triunfo lhe surgia vago. Curvado,
segurando-se às estacas da cerca como apoio, subiu o caminho da sua própria
casa.
Estava tudo às escuras. Seria assim tão tarde que já estavam todos deitados? Será que Lucinda tinha ficado em casa dos Westerhazys para jantar? E que as meninas tinham ido se encontrar com ela ou tinham ido a qualquer outro lugar? Então não tinham combinado, como faziam todos os domingos, não aceitar nenhum convite e ficar em casa? Experimentou as portas da garagem para ver que carros estavam, mas as portas estavam fechadas à chave e as mãos ficaram-lhe cheias da ferrugem dos puxadores. Dirigindo-se a casa, viu que a violência da tempestade tinha desprendido uma calha. Pendia agora por cima da porta de entrada como uma vareta de guarda-chuva, mas podia repará-la na manhã seguinte. A casa estava fechada, e Ned pensou que o estúpido do cozinheiro ou a estúpida da empregada deviam ter fechado tudo à chave até que se lembrou que há muito tempo não tinham cozinheiro nem empregada. Gritou, bateu à porta, tentou força-la com o ombro, e então, espreitando pela janela, viu que a casa estava vazia.
John
Cheever, (1912-1982) é um escritor norte americano nascido em Quincy,
Massachussetts considerado por muitos como um mestre absoluto do conto no século
20. “O nadador”, originalmente publicado no The New Yorker em Julho de 1964,
foi depois adaptado ao cinema com Burt Lancaster como “Enigma de Uma Vida”. É
um texto construído com extrema precisão. Nada ali foi colocado ao acaso. Cada
parágrafo e cada palavra, vão construindo o inesperado final.




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